Ilhabela, cidade cenográfica

Christian Rocha
Jornal do Arquipélago
Julho de 2006

Não importa se você é turista ou morador, se você está ou vive em Ilhabela, você perceberá o que quero dizer. Coloque-se num desses pontos turísticos de Ilhabela. Olhe ao redor. É tudo de mentira. Sim, mentira. É oco, vazio de significados e de valores. A praia, que fica linda numa foto, está suja. O riacho, que também é muito bonito aos olhos, já não sabe o que é água limpa há muito tempo. A Vila, toda arrumadinha, preparada para o grande evento, sinaliza um cuidado que não é a regra no município, mas exceção. É fácil concluir: Ilhabela é uma cidade cenográfica.

Quem fez o novo Forum de Ilhabela entendeu o espírito da coisa e por isso escolheu aquele paredão como fachada principal. Imagem é tudo. O novo prédio tinha que ter um espaço de destaque para as letras prateadas que compuseram “Forvm Manoel Pedro Pimentel”, cidadão ilustre que eu não sei quem é. Você sabe? O que sei é que seu nome foi irremediavelmente associado a um dos piores exemplares arquitetônicos já erguidos em Ilhabela.

Formadores de opinião fizeram sua parte na audiência pública promovida pela Câmara Municipal no dia 21 de junho. Técnicos da Cetesb, muito gentil e pacientemente, vieram a Ilhabela para falar da balneabilidade das praias, assunto de capital importância para a saúde pública e a economia da
cidade. Os formadores de opinião tentaram “matar o mensageiro”. Afinal, se as praias estão sujas a Cetesb tem mais é que calar a boca e espalhar bandeiras verdes, preferencialmente na frente dos hotéis, bares e restaurantes. Imagem é tudo, com ou sem água suja.

E o campeonato de preservação? Eu nem sabia que ele tinha acontecido, mas todas as comunicações oficiais lembram o cidadão de que ele está — porca miséria — na cidade campeã de preservação de mata atlântica. Todos sabemos o que é um título sem mérito. Sinceridade: Ilhabela merece o título que tem? A mata atlântica preservada sempre existiu muito antes de qualquer traço de cidade. Lembre-se de que toda a Ilha de São Sebastião era coberta por mata atlântica, inclusive esse espaço onde você construiu sua casa, fez sua piscina e cobriu de grama — um ecossistema perfeito para o homo paulistanus, aquele que quer desfrutar da mata atlântica como quem consome um bigmac.

É fácil entender por que as coisas são assim. É muito mais fácil causar a impressão de que Ilhabela é um lugar lindo do que mantê-lo lindo. É muito mais fácil parecer do que ser. Varre-se a sujeira para baixo do tapete. Arrancam-se as bandeiras vermelhas da Cetesb. E eis que Ilhabela ficou perfeita. Resolvido.

Tão preocupante quanto os problemas de Ilhabela é a forma como eles são resolvidos: eles simplesmente não são resolvidos. O turismo ilhabelense é uma piada, uma fatalidade, uma coincidência: ele existe porque muitos predadores se reuniram em torno do mesmo lugar bonito, resolveram cobrar ingressos e vender souvenirs (como postais, casas e iates), sem perceber que o lugar bonito já está com os dias contados. Pare e reflita de verdade sobre aquela expressão muito comum por aqui: matar a galinha dos ovos de ouro. Seja honesto.

Os políticos locais não precisam ir à Terra do Nunca divulgar o nome de Ilhabela, não precisam participar de feiras de turismo, não precisam ficar contando vantagem pela mata atlântica preservada. Precisam, sim 1) manter as praias, rios e córregos limpos (eu disse limpos, com água pura); 2) fazer leis decentes, porque muitos políticos e empresários acham que tudo se resolve com impostos, o que é um erro elementar; 3) executar as leis, com fiscais e policiais; 4) educar. Estes quatro itens são a lição de casa, o be-a-ba de uma cidade turística decente. Decerto estas coisas não são lindas de morrer, não servem para cartão postal, não enchem os olhos dos turistas. Mas são fundamentais. Uma vez realizadas estas coisas o turista virá sem que seja chamado, sem que se lhe estendam o tapete vermelho, ficará quietinho, apenas contemplando educadamente as verdadeiras maravilhas deste arquipélago. E sairá daqui aplaudindo, contando os dias que faltarão para a próxima visita.

A quem se interessar: discussões importantes têm acontecido na comunidade Ilhabela no Orkut. Muitas delas eu tenho reproduzido em meu blog, onde também publico e discuto os temas dos artigos que publico neste Jornal do Arquipélago. O Orkut todo mundo sabe como acessar. Meu blog fica aqui: http://ilhabela.blogspot.com

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Um comentário sobre “Ilhabela, cidade cenográfica

  1. realmente tenho que concordar com vc, mas o problema n?o ? causado s? por causa do turismo, mas por causa da maldita migra??o… tanta gente sem ensino e n?o sabe que cagar no mato ? diferente do que ter uma rede de esgoto, e isso ? culpa dessea prefeitura maravilhosa ilhabelense, que apenas deixam criarem morro de mineiros, daqui a pouco o baepi vai virar morro do norte, castelhanos vai virar praia dos nordestinos…
    A praia vai virar sert?o!!!!

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