Filantropia de plástico

Christian Rocha
Abril de 2001


Histórica e biblicamente o conceito de filantropia confunde-se com o de caridade e de amor universal (ágape) — as virtudes de Cristo, de São Francisco de Assis e de outros santos e de todos aqueles que um dia foram chamados de sábios e virtuosos. Contemporaneamente, filantropia tem um significado um pouco diferente, seriamente desvirtuado pelos meios de comunicação, por nossa letargia cotidiana e pela divinização do consumo.

Se considerarmos a filantropia de um ângulo estritamente individual — e tal é o ângulo mais adequado a uma análise atual deste fenômeno pretensamente humanista –, chegaremos a duas prováveis conclusões. Do ponto de vista do doador, não seria difícil encontrar um certo orgulho, uma empáfia permeada pela sensação de uma suposta benevolência pura. Com isso, pode-se dizer que a filantropia é um exercício de egocentrismo: só se doa quando se considera profundamente o fato de que temos algo para doar; e, pela dialética da exclusão, se de fato temos é porque outros não têm. Do ponto de vista do receptor, o mesmo raciocínio pode ser utilizado. Buscar a doação, declarar-se necessitado de algo é um exercício de auto-piedade, de autêntica misericórdia e, portanto e novamente, de egocentrismo. E assim compõe-se uma espécie de “corrente da miséria”: uns possuindo e, como bons samaritanos, doando e recebendo medalhas; outros, miseráveis, recebendo auxílio ou, quando a filantropia não é exercida espontaneamente pelos doadores, simplesmente tomando posse dele.

A necessidade é difícil de discutir, sobretudo quando ela envolve a fisiologia da fome ou conceitos abstratos como liberdade e felicidade. Não há filosofia que sobreviva a um “tou com fome”, assim como a retórica raramente consegue superar as idiossincrasias de uma depressão. A filantropia, no sentido estrito da doação material, esbarra em idéias de posse e de desigualdade, e por isso me decidi a questioná-la.

O pior sinal de degradação social é ver pessoas oferecendo honras ao mérito filantrópico alheio. Não há mérito em ser bom. Procuro ser bom porque é a única conduta adequada, moralmente aceitável e socialmente possível — e pouco serviria me perguntar “e se o mal fosse possível?”, porque só admito uma verdade, a verdade do bem. Admitir e admirar uma beleza intrínseca à bondade significa aceitar a maldade em todas as suas formas.

O mesmo acontece com a filantropia. A desigualdade social que origina a grave rede de doadores e receptores é exatamente a desigualdade que nutrimos com gestos cotidianos, que vão desde a aquisição de bens supérfluos até os julgamentos inconscientes que fazemos das pessoas — e nestes gestos incluem-se todos os tipos de violência, desperdício e inépcia intencional. Negar-se à simplicidade, declarar que a evolução humana é um conceito tecnológico e eleger a posse como a meta de uma vida são os primeiros passos para desenvolver o germe dessa desigualdade, e todos vão contra leis que considero naturais, leis que regem o equilíbrio dos outros seres há milhares de anos e que se aplicam a nós, embora alguns imaginem o contrário.

Enquanto houver necessitados, a filantropia continuará sendo um bálsamo, ou a maneira mais superficial de se praticar valores profundos como a compaixão e a caridade, associada a uma crença equivocada de que essa pseudovirtude é capaz de acabar com a miséria. Some-se a isso a tranqüilidade e o bem-estar resultantes de uma doação bem-feita — seja uma moedinha colocada num chapéu rasgado num gesto lacrimoso ou um vultoso cheque nominal a qualquer legião assistencial — e com isso qualquer meliante sente-se no direito de ter um lugar no céu e preservar sua rotina de pequenezas: a beleza voluptuosa de roupas francesas, as luzes das vitrines, cinturas finas, a velocidade de motores alemães, a coleção de quadros de um artista morto, o mármore italiano, o vampirismo dos empreendimentos… e muitos etcetera seriam necessários para listar todas as coisas desnecessárias que consumimos e que postulamos como “extrema necessidade”. Se você lê isto, você não faz parte da massa de analfabetos para quem a “extrema necessidade” é simplesmente aprender a ler e a escrever.

A simplicidade pode não ser a cura para todos os males — da fome à hipocrisia — mas é um bom começo. Estou longe de querer inspirar uma filosofia da pobreza, algo que já foi (mal) feito por algumas religiões e doutrinas, redundando numa prática da miséria. Tampouco espero ou desejo que todos possamos ter um nível de vida digna de um Onassis. Só queria ver um pouco de simplicidade nos lares e nas mentes das pessoas em sua busca pelo conforto e pelo prazer e que com isso todos pudessem perceber que o luxo é uma doença. Seria infinitamente melhor para todos que os ímpetos dos filantropos fossem convertidos numa consciência e num questionamento profundos sobre o que realmente é importante: coisas belas, essenciais, naturais e boas, coisas que nos desenvolvam e que nos façam perceber que nossa liberdade começa onde começam a escravidão e a servidão alheias.

Em lugar de perguntarmos “o que é realmente importante para você?”, deveríamos perguntar “o que é realmente importante?”. A diferença sutil exclui e impede julgamentos e preconceitos e implica uma consciência ampla sobre as coisas que nos cercam. Não é tarefa simples, já que tudo perpassa pelo ego, mas quando conseguirmos elaborar e responder a pergunta correta, vários problemas, pequenos ou grandes, pessoais ou mundiais, começarão a desmanchar.

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