Quando perguntar ofende

Campanha da TVE do Rio de Janeiro sai às ruas e pergunta às pessoas:

Onde você esconde seu racismo?

Um dos entrevistados silencia, visivelmente abalado com a pergunta, sem perceber a canalhice embutida nela. A maioria dos entrevistados sente que está diante de uma pergunta forte, que lhes toca o fundo da alma.

Vejamos. Assim o Houaiss define racismo:

racismo. substantivo masculino
1. conjunto de teorias e crenças que estabelecem uma hierarquia entre as raças, entre as etnias.
2. doutrina ou sistema político fundado sobre o direito de uma raça (considerada pura e superior) de dominar outras.
3. preconceito extremado contra indivíduos pertencentes a uma raça ou etnia diferente, ger. considerada inferior.
4. Derivação: por analogia, atitude de hostilidade em relação a determinada categoria de pessoas. Ex.: r. xenófobo

Um dos dicionários on-line que uso dá definição semelhante:

racismo. s. m.,
1. doutrina que tende a preservar a unidade da raça e assenta na suposta superioridade de uma raça que se confere o direito de exercer domínio sobre as outras;
2. reacões ou atitudes que se harmonizam com esta teoria;
3. mostras de hostilidade face a um grupo social ou étnico.

Complementarmente, leio em “Mentira e racismo”, de Olavo de Carvalho:

“(…) para um país “ser racista” é preciso que o racismo seja ali uma ideologia operante, ativa, inspiradora de movimentos, partidos e associações. Para um país “ser racista” é preciso que o racismo nele seja crença amplamente aceita por uma parcela significativa da opinião pública e fortemente inscrita nas leis, nos costumes, na cultura popular e erudita. Nada disso acontece no Brasil.”

Se o raciocínio vale para um país e todo país é feito de pessoas, então ele deve valer para pessoas. Oras, nada do que eu sinto, faço ou defendo pode ser descrito por um dos sete itens mencionados acima. Acredito que isso pode ser aplicado também à maioria das pessoas entrevistadas na campanha da TVE. Essas pessoas, assim como eu, não são racistas.

Piadas racistas não tornam o sujeito racista (se isso fosse verdade, os portugueses seriam nossos principais antagonistas, não os argentinos). Chamar um indivíduo preto de negro também não faz um racista. Aliás, só no país da novilíngua falar preto em vez de negro pode ter alguma conotação racista.

Muito, mas muito pior do que qualquer uma dessas atitudes é estender um microfone e travestir de bom-mocismo a canalhice de acusar indiscriminadamente as pessoas de racismo.

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3 comentários sobre “Quando perguntar ofende

  1. Antes de mais nada, gostaria de que considerasse peculiaridades que dicionários não são capazes de emanar, uma vez que são como máquinas a expressar conceitos rígidos para cada contexto. Racismo, discriminação étnica, sócio-econômica e afins, bem como o preconceito (no mais puro sentido da palavra, denotando pura precipitação de impressão primeva) é um assunto especial em se tratando de Brasil. Querendo ou não admitir, somos todos “brasileiros”, inseridos dentro de corpos não caracterizados por uma etinia “pura” e/ou elitizada, com ou sem descendências ou ascendências de alguns miseráveis que se aventuraram ao que hoje chamamos de país Brasil. Tome o preconceito como algo inerente a qualquer ser humano. Ao caminhar por uma trilha qualquer, ao avistar um pedaço de cipó, galho, o longe, certamente o corpo reagirá com uma pré-concepção oriunda das amídalas (as cerebrais) e o induzirá a uma posição defensiva contra algo que você ainda não concebeu com certezas, mas que possa parecer uma ameaça em forma de serpente. É por aí. Hoje, no nosso país, pré-concebemos a própria criminalidade com a cor da pele dos negros e dos pardos. Não se fala em discriminação, preconceito ou racismo em torno de outras etinias e seus descendentes. Para tanto e, quem sabe, induzi-lo a um maior aprofundamento sobre questão de tamanho porte (aproveitando que sua imagem daqui nos diz que gosta de ler) sugiro uma breve leitura sobre este artigo de Marco Aydos ( http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=314CID002 ) e, quem sabe, dentro do tempo que possa lhe sobrar, a trilogia Freyreana sobre a sociedade patriarcal no Brasil. Grandes surpresas e um maior entendimento certamente lhe estarão a caminho.

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