Palha

É muito estranho que tudo funcione tão bem em algumas cidades, que as pessoas não rolem no chão e que não comam as cascas das árvores, que não sejam atropeladas em massa e não sintam vontade de pular do alto das pontes e dos prédios ou de berrar palavras sem sentido. É muito estranho que a sanidade seja uma regra bem aceita, que as pessoas não se perguntem a toda hora a respeito do azul do céu, dos sanduíches das lanchonetes fast-food e dos ambulantes, que anunciam a plena voz produtos que quase ninguém compra.

A impressão bastante comum de que há fios invisíveis que regem todas as coisas, de que há um regente que conduz as pessoas, suas falas, seus movimentos, seus sentimentos e paixões e idéias, esta impressão não exclui outra, não menos sensata ou absurda: cada uma destas palavras é o eco dessa condução… e de nada adianta tentar ascender a um nível superior àquele em que já estou. A tentativa de ver por cima do ombro do regente apenas me expõe ao risco de levar uma cotovelada seca, seguida de uma ordem ríspida para voltar ao meu posto.

Esta é a angústia do intelectual. Ele não produz música, ele apenas quer ver por cima do ombro do regente. Quer ser VIP onde ninguém pode ser. Esse tipo de postura só é tolerada como fetiche, como um falar-consigo-mesmo, nada mais. Que as pessoas leiam estas linhas às vezes, é algo que não as torna menos taciturnas, menos bobas e rasteiras — as linhas, não as pessoas. Escrever não é outra coisa senão falar sozinho. Esperançosamente, mas sozinho.

“Tudo quanto escrevi parece-me unicamente palha” — Sto. Tomás de Aquino.

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2 comentários sobre “Palha

  1. N?o ? pela duvida que vivemos, mas sim pela certeza que nos falta, a compreen??o que realmente deveriamos ter ? que n?o compreendemos nada, de tanto tentar entender, n?o se entende, porque viver ? cada segundo e cada segundo nosso ? direcionado ao entender ao pensar n?o no sentido do agora mas o depois de agora, um conceito t?o dificil de escrever como de viver( tadaima) ruminamos o passado, tememos o futuro e perdemos o presente, nada mais humano que isso, onde reside nosso crescimento ali est? nossa angustia, nos destacamos por sermos superiores as outras esp?cies e na maioria das vezes a outro ser humano, mas nunca seremos igual a um simples musgo que n?o questiona seu papel, mas simplesmente ? o que ?.
    cada ser na natureza tem o seu papel, n?s o procuramos, se pensar provoca alguma alegria, questionar nos provoca infinito sofrimento, porque por mais humilde que sejamos, queremos o palco e o papel principal, ninguem quer aplaudir e sim ser estrela, mas qual ? o papel de uma estrela mesmo ? a aranha vive na sua teia e sabe onde pisa, n?s nem enxergamos o fio que nos guia, mas queremos tomar do criador as redeas de nosso destino, primeiro ache os fios depois ache o ombro e quem sabe a coragem de olhar por cima deste ombro e n?o ver alguem doidinho da vida tentando desesperadamente soltar os n?s de uma ra?a que n?o sabe o que faz, mais se enrola que obedece, quando voce falou dos fios que nos conduz, vejo a natureza sendo conduzida como uma linda carruagem, cavalos brancos seguindo um trotar uniforme, e n?s conduzidos por aqueles infelizes que tem que passear com 20 c?es ao mesmo tempo amarrrados em suas coleiras doidos por liberdade, trope?ando e se emaranhando nas suas cordas. nem aproveitam o passeio, enlouquecendo o condutor trope?am entre si correndo em desvario e nem sabem bem pra onde cada um para um lado e se o coitado do condutor soltar as coleira…..bem …se isso n?o seria o quadro do caos chegou bem perto.
    E se tudo quanto escreveu Sto Tom?s de Aquino lhe parecia palha, que nosso entendimento se pare?a como fogo, assim faremos bom uso do material.
    um grande abra?o e obrigado pelo espa?o a id?ia e a insanidade dividida.
    Norton

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