A paisagem em ruínas

Christian Rocha
Jornal do Arquipélago
7 de setembro de 2006

Diz o ditado que não adianta chorar pelo leite derramado, mas ajuda muito observar e pensar nas razões que levaram ao derramamento. Três grandes falsas-seringueiras foram cortadas na Praça da Bandeira neste mês de agosto, como parte da segunda fase de reurbanização daquele local. No lugar delas foi deixado um descampado, ocupado aqui e ali por alguns coqueiros. Segundo fontes oficiais, serão plantados ali exemplares de árvores nativas, como o ipê e o pau-brasil. As falsas-seringueiras tinham algo em torno de 40 ou 50 anos, não 30 anos, como disseram. 30 e poucos anos tenho eu e não tenho lembrança da Praça da Bandeira sem aquelas árvores enormes. Agora tenho, graças ao projeto da Prefeitura.

A única imagem que eu conhecia da Praça da Bandeira sem aquelas árvores era a foto antiga que faz parte do acervo da Sociedade Amigos da Biblioteca Pública Municipal de Ilhabela, que pode ser vista aqui: http://www.ilhabela.com.br/fotosantigas/Rua-da-Praia-1940-WB.jpg. Não era um lugar atraente, era até bem árido. Naquela época, naquelas condições, faria muito sentido um arquiteto riscar o papel e dizer que naquele lugar seria realizado o projeto que ele achasse melhor. Hoje não. Hoje, um profissional, arquiteto ou paisagista, deveria ter olhado para as três falsas-seringueiras e dito: “Olha, dá licença, vou mudar o piso aqui um pouquinho, vou colocar uns bancos aqui e ali, construir um deck, talvez precise podar alguns dos teus galhos, mas serão poucos”. E deveria ter ficado quieto e agradecido por contar com a ajuda de três grandes e velhas árvores para sombrear um espaço que, afinal, será usado por pessoas. E aqui em Ilhabela, quem quer tomar sol vai à praia, não à praça.

Minha frustração ao ver a Praça da Bandeira sem aquelas três árvores foi muito grande. Faz sentido preferir árvores nativas, assim como faz sentido propor um redesenho da Praça da Bandeira, que andava meio caquética mesmo. Não faz sentido desperdiçar três grandes árvores porque “o impacto visual não está condizente com a proposta objetivada por esta administração”, nas palavras do prefeito — tradução: as árvores foram cortadas porque eram feias. Também não faz sentido cortá-las porque são exóticas (isto é, que não são originárias do ecossistema em que estão). A mangueira também é exótica e Ilhabela possui uma praça dedicada a um majestoso exemplar dessa espécie. O hibisco, também exótico, é tão comum no litoral que dá nome a alguns estabelecimentos de Ilhabela. Uma jovem aceroleira começa a dar frutos no quintal de minha casa. Também é exótica. O que seria do azul-marinho sem os frutos da exótica bananeira? E a jaca?

O que me frustra é que muita coisa poderia ter sido feita com aquelas três árvores. Um bom projeto daria opções. Escolheram a pior: fazer lenha, e eu nem tenho certeza se aquelas árvores serviam para isso. A nova praça realmente vai ficar bonita — daqui a 10 ou 15 anos, quando as árvores nativas tiverem o porte adequado ao paisagismo urbano. Enquanto isso, conviveremos com um cemitério de árvores. Os restos das três falsas-seringueiras já não estão mais lá, mas a imagem daquelas três árvores majestosas vai permanecer. Seus fantasmas puxarão nossos pés, tenho certeza.

Como desgraça pouca é bobagem, mais uma vez o mar de morros de Ilhabela foi atacado pelo fogo, alguns dias depois da lambança da Praça da Bandeira. A vítima desta vez foi o Morro do Cantagalo. Desta vez só sobraram as casas. Eu espero que os piromaníacos entendam o recado: quem brinca com fogo — e quem insiste em queimar lixo, resto de poda e grama — termina mijado.

À parte o trágico da situação, o incêndio foi um interessante espelho da paisagem triste que se vê na Praça da Bandeira. Acima ou abaixo da cidade, no morro ou na orla, seja pelas mãos de um oficial ou de um idiota anônimo, Ilhabela vai-se configurando como um lugar cada vez menos preocupado com as duas coisas que ela tem de melhor: a paisagem e sua história. Estas coisas não estão em praças reformadas, em prédios recuperados, mas no dia-a-dia das pessoas e no modo como elas se relacionam com este lugar, a cada dia menos exuberante. Por mais que se diga que a nova praça será melhor e mais bonita, uma coisa não me sai da cabeça: a Praça da Bandeira não precisava morrer para renascer. Mas morreu.

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Para saber mais: http://ilhabela.blogspot.com/2006/08/reforma-na-vila-ii.html

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Um comentário sobre “A paisagem em ruínas

  1. Ilhabela tornar-se-?, dentro de 15 ou 20 anos, algo parecido com as cidade de Praia Grande e Guaruj?. (Salvo as devidas propor??es).

    Enfim.
    Muito bom seu papel de cidad?o.
    Sem mais… to puto com essa not?cia.

    Ah! prop?e pro prefeito fazer um atracadouro pros navios de cruzeiro ali na vila, ao inv?s dos passageiros virem de barquinha.
    Aposto que daria outro visual tamb?m.

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