A paisagem transformada

Christian Rocha
Jornal da Ilha
Setembro de 2006

O espetáculo não diz nada além de “o que aparece é bom, o que é bom aparece”. A atitude que por princípio ele exige é a da aceitação passiva que, de fato, ele já obteve. — Guy Debord

O início da segunda fase da reforma da Praça da Bandeira causou muita confusão. Muitas pessoas criticaram os cortes de árvores. O lugar que existia não existe mais. E até o final das obras as mudanças continuarão — para melhor, eu espero. Mas por que arrancar tantas árvores?

Há três argumentos. O primeiro diz que as árvores eram exóticas. De fato, eram exemplares antigos da falsa-seringueira (Ficus elastica), originária da Índia, portanto, sem grande valor para o ecossistema da Mata Atlântica. Mas o critério ecológico é apenas um entre tantos outros. A aceroleira, a bananeira, o hibisco, o chapéu-de-sol e a mangueira são espécies exóticas. É difícil imaginar o litoral paulista sem estas árvores e arbustos. Na primeira fase da reforma da Praça da Bandeira, uma antiga mangueira e um grande chapéu-de-sol foram preservados.

O segundo argumento diz que o projeto valorizará a Praça da Bandeira e que, conforme palavras do próprio prefeito, “o impacto visual [das falsas-seringueiras] não está condizente com a proposta objetivada por esta administração”. Concordo que as falsas-seringueiras não são exuberantes como a sibipiruna, o ipê ou o jatobá. Mas me parece estranho que um arquiteto possa determinar a morte de uma árvore mais velha do que ele. É como matar a avó porque ela não combina com a decoração da sala.

O terceiro argumento diz que as raízes das falsas seringueiras estariam danificando a rede de água e esgoto ligada aos imóveis da rua Dr. Carvalho. É um argumento muito frágil, já que as ações para solução deste problema seriam mais simples do que o corte das árvores e a extração das raízes. E se este problema realmente existisse, não seria necessário cortar todas as falsas-seringueiras, já que nem todas estavam próximas da rua.

Quando a vontade de redesenhar o lugar se sobrepõe à sua história e à paisagem original, cria-se um precedente perigoso que influenciará o desenho de toda a cidade. Se os lugares públicos têm pouca com sua história, a urbanização iniciará uma jornada irreversível rumo ao vazio e a arquitetura se sentirá à vontade para fazer qualquer coisa, indepedentemente do que o lugar pede e do que sua história inspira. Quem ler meu artigo “Ilhabela, cidade cenográfica” (disponível aqui) entenderá melhor o que quero dizer.

Não duvido que o lugar fique realmente bonito quando a reforma ficar pronta, com as árvores nativas crescidas e com o pleno uso dos espaços propostos. Mas o fim não justifica os meios. O que se fez na Praça da Bandeira foi tabula rasa, expressão do latim que representa, em arquitetura, o gesto de limpar e esvaziar o terreno antes de construir algo nele. Em resumo, uma grosseria. É muito fácil projetar uma praça desta forma. Destrói-se tudo, faz-se tudo novo. Simples.

A diferença entre transformar o espaço urbano e recriá-lo totalmente está na forma como as pessoas se relacionarão com ele. É muito mais fácil relacionar-se com velhos conhecidos, como as falsas-seringueiras que foram cortadas, o quebra-mar e a praia (que foram esquecidos na primeira fase da reforma) e o velho píer carcomido pelo mar. O próprio saite da Prefeitura reconhece a importância disso: “sentar no quebra-mar para ver o reflexo da lua no mar é um programa imperdível…” (http://www.ilhabela.sp.gov.br/ilhabela_noitenailha.htm). Tradição e memória nunca fizeram mal a ninguém, principalmente se estamos falando de paisagem urbana, de praças cívicas, de áreas para lazer e turismo.

Ademais, a paisagem não é só imagem. O desejo honesto de embelezar o centro da cidade começaria em tornar a praia novamente utilizável, com água limpa e sem a fedentina que domina a Câmara e a Biblioteca Municipal. Mais importante do que causar boa impressão com imagens de cartão postal é demonstrar que as imagens são realmente vivas e que é dessa vida que vem sua exuberância.

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6 comentários sobre “A paisagem transformada

  1. se faz bem em pensar quando o assunto ? reforma e inclui corte de arvores seja elas nativas ou n?o, conhe?o uma cidade n?o muito distante que tem um famoso bairro chamado Arvore grande
    Quando crian?a meu av? mostrava a enorme arvore que deu nome ao bairro, s? ficou o bairro.
    Continuamos a pensar de forma muito simples, se tem em demasia ? ruim, por isso a mata atlantica n?o faz muito tempo era cortada por ser mato, e mato tem em demasia, ? bom lembrar que somos bem numerosos, nossos centros urbanos agora s?o mato e erva daninha, alguma sugest?o?

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