O caminho das pedras

Ele n?o tem a menor obriga??o de fazer isso, mas faz. Eu me pergunto por que, sem, ? claro, perder de vista suas orienta??es, como estas:

“A forma??o da intelig?ncia se d? em dois planos simult?neos: o propriamente intelectual, ou cognitivo, e o espiritual, ou inspiracional. O que voc? sabe depende de quem voc? quer ser; o modelo do que voc? pode ser depende do que voc? sabe. A liga??o entre os dois planos ? ignorada pelo ensino atual porque ele nem mesmo entende que existe uma dimens?o espiritual, embora ?s vezes fale dela, at? demais, confundindo-a com o simples culto religioso, com a moral ou com a psicologia.(…)

“O objetivo primeiro da educa??o superior ? negativo e dissolvente: consiste em ‘desaculturar’, no sentido antropol?gico do termo: desfazer os la?os que prendem o estudante ? sua cultura de origem, ?s no??es consagradas do ‘nosso tempo’, ? ilus?o corrente da superioridade do atual, e fazer dele um habitante de todos os tempos, de todas as culturas e civiliza??es. N?o se pode chegar a nada sem um per?odo de confus?o e relativismo devido ? amplia??o ilimitada dos horizontes. N?o basta saber o que pensaram Abrah?o e Mois?s, Conf?cio e Lao-Tseu, P?ricles e S?crates, ou os monges da Era Patr?stica: ? preciso um esfor?o para perceber o que eles perceberam, imaginar o que eles imaginaram, sentir o que eles sentiram. N?o se preocupe em arbitrar, julgar e concluir. Em todas as id?ias que resistiram ao tempo o bastante para chegar at? n?s h? um fundo de verdade. Apegue-se a esse fundo e fa?a sua cole??o de verdades, n?o se impressionando muito com as contradi??es aparentes ou reais. Aprenda a desejar e amar a verdade como quer que ela se apresente.(…)

“Quando ler os cl?ssicos, use tudo, absolutamente tudo o que vier a aprender com eles como instrumento anal?tico para a compreens?o do presente, inclu?da nisso a sua pr?pria vida pessoal. Fora o conte?do filos?fico e sapiencial mais geral, h? tesouros de sociologia, de psicologia e de ci?ncia pol?tica em Conf?cio, em Sh?nkara, em Plat?o, em Arist?teles, em Dante, em Sto. Tom?s, em Shakespeare. Uma longa conviv?ncia com esses s?bios lhe dar? uma id?ia do que seja a verdadeira autoridade intelectual, da qual seus professores na universidade s?o caricaturas grotescas.(…)

“A religi?o n?o ? uma doutrina para ser ‘acreditada’ ou uma t?bua de mandamentos morais exteriores como um c?digo civil. Ela ? um conjunto de acontecimentos de ordem hist?rico-espiritual cuja not?cia nos chega pelas escrituras sagradas e pela tradi??o. Esses acontecimentos podem, em parte, ser confirmados historicamente, mas n?o podem ser historicamente compreendidos, pois prosseguem at? hoje e seu sentido s? se elucida nesse prosseguimento, na medida em que voc? toma ci?ncia de que eles o envolvem pessoalmente. Voc? pode participar deles atrav?s dos ritos, da prece, da f? e sobretudo dos milagres. A f? n?o significa ades?o a uma doutrina, mas confian?a numa Pessoa em cuja humanidade transparece, de maneira ao mesmo tempo auto-evidente e misteriosa, a presen?a do transcendente e do infinito. Milagres acontecem o tempo todo, mas a maioria das pessoas ? est?pida, distra?da ou fechada demais para perceb?-los. Mesmo a experi?ncia reiterada das preces atendidas, carregada do inevit?vel desconforto cognitivo da despropor??o entre a causa aparente e o efeito real, pode ser neutralizada ex post facto por meio de racionaliza??es de um puerilismo atroz, que muitos chamam de ‘ci?ncia’. Mas talvez pior do que a falta de experi?ncia, ou do que a experi?ncia neutralizada, ? a substitui??o da experi?ncia objetiva do milagre por um suced?neo ps?quico — uma emo??o, um subjetivo n?o-sei-qu? — a que alguns d?o o nome pomposo de ‘meu encontro com Jesus’, ‘minha f?’ ou coisa assim, sem entender que com isso sobrep?em os seus estados de alma ? realidade suprema do pr?prio Deus. Deus se manifesta nos fatos do mundo, da natureza, da hist?ria, e no curso objetivo da vida de cada um, n?o fazendo afagos na alma de quem quer que seja. Por incr?vel que pare?a, s?o esses afagos o m?ximo que alguns esperam encontrar na religi?o, enquanto outros, ateus ou at? sacerdotes, acreditam piamente que ela consiste nisso na melhor das hip?teses e tiram da? conseq??ncias que lhes parecem muito cient?ficas, como fez o cl?ssico da cretinice antropol?gica americana, Edward Sapir, ao definir a religi?o como busca da “paz de esp?rito”, que se tamb?m pode alcan?ar com um comprimido de Valium. O estudante tem de aprender a fugir dessas vulgaridades, mesmo ao pre?o de colocar entre par?nteses toda a quest?o “religiosa” at? melhor entendimento.”

Trechos de Pela restaura??o intelectual do Brasil, de Olavo de Carvalho.

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