Eu versus o Estado

Christian Rocha

Para quem, como eu, abomina o Estado, a maior frustração é trabalhar para ele, e de graça. Nas eleições deste ano fui mais um mesário “working for food”, dedicado a preservar essa democracia de mentirinha — uma ofensa às mais altas reflexões políticas do Estagirita. É ainda mais frustrante perceber a eficiência do Estado quando é necessário obrigar e submeter o cidadão comum e sua absoluta incompet?ncia quando se trata de dar a esse mesmo cidadão aquilo que lhe é de direito, previsto em lei.

O lado bom disso tudo é a perda das esperanças. Ciente do estado caquético em que se encontra a democracia brasileira, é impossível esperar dela qualquer mudança substancial. Por muitos e muitos anos a democracia brasileira será constituída de campanhas políticas enganosas, de pesquisas eleitorais, do bate-boca dos candidatos, do voto obrigatário e universal. Só os trouxas podem ter esperança na democracia brasileira.

Bom mesmo, a essa altura, é ridicularizar os políticos. Todos, sem exceção, merecem ser ridicularizados. Os maus políticos, porque são maus, porque são os principais responsáveis pela ruína de um país inteiro. Os bons, porque se misturam aos maus, porque não conseguem mudá-los, porque não mudam uma vírgula do código silencioso que rege suas atitudes, porque, afinal, estão lá, tão participantes do circo quanto as mulheres barbadas da política. É necessário expor essa gente ao ridículo, competente para a corrupção, incompetente para todo o resto. Todos são culpados, todos merecem tomates podres.

A única atitude digna é a renúncia. Não a renúncia hipócrita, que alega “forças terríveis”, que ensaia um mea culpa e que retorna meses depois, apostando na pouca memória dos eleitores — apostando e ganhando. O bom político é o ex-político.

Em Ilhabela, políticos decidiram, sem qualquer tipo de consulta popular, a transformação radical da principal praça da cidade. Três árvores monumentais foram cortadas, alterando completamente uma paisagem a que turistas e moradores estavam acostumados havia mais de 30 anos. A incompetência dos que determinaram o corte das árvores não teve maiores conseqüências. Os políticos continuam lá em seus cargos de confiança. Pergunto-me qual será a próxima lambança. É bem provável que ela afetará mais do que as árvores da cidade.

O erro que eles cometeram não tem reparação. A única solução é expô-los ao ridículo, exibir sua incompetência até que ela não seja motivo de discussão, até que a autoridade dessas pessoas fique reduzida à capacidade de manipular carimbos e canetas e subordinada a pessoas mais sensatas. Talvez essas pessoas sejam excelentes burocratas e articuladores políticos — o que significa que farão sucesso a cada eleição –, mas como transformadores da realidade são incompetentes, são analfabetos funcionais. Eles têm a realidade diante de si, mas simplesmente não conseguem ver nada além de suas próprias ambições políticas.

O Brasil está cheio de exemplos desse tipo. O exemplo ilhabelense é apenas um e certamente não o mais importante. Árvores são café pequeno diante do roubo de dinheiro público, prática usual, inclusive entre políticos de, como direi?, alta patente.

Não bastasse isso tudo, veio-me nova convocação da (in)Justiça Eleitoral. “Serás um imbecil por dois dias”, leio nas entrelinhas. Tenho gastura. Eu não acredito na democracia brasileira, simplesmente não tenho razões para acreditar nela. Você conhece algum militar milionário? Eu acreditaria na democracia sob duas condições:

1) O voto não deveria ser obrigatório. Se é tão bom votar, para que torná-lo obrigatório? Se não é, para que torná-lo obrigatório?

2) Analfabetos deveriam ser proibidos de votar. Sim, proibidos. O TSE publicou recentemente uma cartilha sobre o voto consciente, com dicas sobre como escolher um candidato, sobre a importância de conhecer suas idéias, sua vida pública, sua plataforma e suias propostas. Uma parte significativa do eleitorado simplesmente não terá acesso a esse documento, mas terá que votar mesmo assim. Analfabetos não têm acesso a jornais e revistas. Raramente vão além do Jornal Nacional e das novelas da Globo.

Busco um candidato que se comprometa a mudar estes dois itens da lei eleitoral. Isso basta para causar mudanças em todo o restante. O primeiro passo para modificar a democracia deste país é mudar o significado do voto e das eleições. Se apenas 10% dos eleitores votarem, por exemplo, teremos um presidente eleito com algo em torno de 5,001% dos votos. Que representatividade terá esse político? Quando os políticos tiverem essa representatividade, talvez as pessoas busquem representatividade em pessoas, entidades e lugares mais dignos do que políticos, órgãos públicos e repartições.

Eu, pessoalmente, tenho acreditado mais nas palavras de meus professores e dos autores dos livros que leio do que nas palavras de qualquer político, de qualquer homem público. Estes só me dão calote. Aqueles sempre me dão algo em troca do meu dinheiro e do meu suor. É fácil saber quem merece meu respeito.

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2 comentários sobre “Eu versus o Estado

  1. Mas me diga que democracia ? essa que lhe priva a liberdade de escolher seu pr?prio destino?

    N?o exporia melhor esse pensamento: \”? ainda mais frustrante perceber a efici?ncia do Estado quando ? necess?rio obrigar e submeter o cidad?o comum e sua absoluta incompet?ncia quando se trata de dar a esse mesmo cidad?o aquilo que lhe ? de direito, previsto em lei.\” O resto, perfeito! E ainda volto a pergunta:

    Se ? t?o bom votar, para que torn?-lo obrigat?rio? Se n?o ?, para que torn?-lo obrigat?rio?

    Parab?ns!

  2. E como seria a sociedade sem o Estado?
    Como seria a produ??o, o com?rcio, a vida, sem o Estado?
    Fiquei curioso agora.
    O Estado ? uma evolu??o da civiliza??o.
    Sem o Estado ser?amos como ? o Afeganist?o; sem o Estado, os patr?es fariam voltar a escravid?o, pois as empresas e os empres?rios s? pensam em lucrar ?s custas do suor dos trabalhadores.
    As pol?ticas neoliberais s?o exatamente pol?ticas que tentam liquidar o Estado (!!!), liquidar as leis que obrigam os avi?es a abastecerem a cada pouso que fazem, os trens a serem averiguadaos a cada tantos km rodados, e etc. S?o exatamente as pol?ticas de aniquilamento do Estado que causam os acidentes de trem e avi?o, t?o raros h? duas d?cadas, e t?o frequentes nos ?ltimos vinte anos.

    O que h? por tr?s deste ?dio t?o grande do Estado?, pois sempre h? algum interesse, particular ou coletivo, por tr?s de tudo. Qual ser? o seu?

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