Mushiatsui

Loose, de Nelly Furtado, é chatinho. Em alguns momentos eu me sentia diante do Need for Speed Most Wanted, game para PS2. Noutros, achei que Madonna oitentista havia ressuscitado. Nada com o frescor e a facilidade apraz?vel de “I’m like a bird”. Mas talvez não faça sentido usar esses adjetivos para música popular. Ou talvez fa?a.

*
A Coréia do Norte tem a bomba — e mais 48 pa?ses. Enéas, o célere, dizia que era importante o Brasil ter a bomba para ser respeitado, conforme já ensinava John von Neumann e sua Teoria do Jogo, em 1928.

Quando criança eu já refletia — via Maurício de Sousa — sobre a questão fundamental: medo ou respeito?

Conflito de civilizações my ass.

*
Eu entendo o Sumo Apedeuta. Entenda você também.

Chegou lá porque o povo quis. Foi colocado num lugar autorizado a preencher por quatro anos. É a autoridade máxima do país. Ele pode falar o que quiser. Responde as perguntas que quiser. Ignora as que incomodam. E ninguém se abala com suas respostas non-sense porque ele é o presidente-operário (pfft), porque ele sempre mente e nenhuma de suas respostas será levada a sério e/ou porque, afinal, entrevistadores não têm tempo suficiente para extrair de chefes de estado declarações que ameaçarão seus mandatos.

“Mas e o mensalão?”.

“Estou convencido de que todo brasileiro poder? fazer tr?s refei??es ao dia. De cabe?a erguida.”

“De onde veio o dinheiro do dossiê?”

“Companheiro, você sabe o que os seus filhos fazem na sua ausência? Nós vamos fazer uma revolução social no Brasil. Vamos gerar 45 milhões de empregos nos próximos dois anos.”

Etcetera ad nauseam.

Nojo.

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Dama na Água. Por que alguém que faz A Vila e Sexto Sentido faz Dama na água — é como Pelé encerrando a carreira no Cosmos. De doer.

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O argumento mais falacioso e abominável a favor do aborto é aquele que diz que a mãe deve ter a liberdade de escolher o destino de sua cria. Oras, se a mulher escolheria o aborto simplesmente porque não quer a criança, já deu provas de que é uma irresponsável ao engravidar sem querer ter um filho. Sendo irresponsável para engravidar, não tem o direito de interromper a gravidez em nome da própria liberdade de escolha.

A vontade humana não é soberana. Ela é influenciada por diversos fatores. A capacidade de julgar é imperfeita. Engravida-se para brincar de casinha. Mata-se também por brincadeira. E se tal critério fosse elevado é condição de regra, teríamos o caos puro, simples e mortífero.

Há algo acima da vontade humana. Se não houvesse, seria justo eu matar uma pessoa simplesmente porque assim o quis. Mas é claro que quem defende o aborto com esses argumentos não está acostumado a olhar para si próprio com o fim de avaliar as próprias teses.

Eu já nem sei por que levo essas discussões adiante. É muita paralaxe cognitiva.

*
Os Analectos, II.3: “Guie-o por meio de editos, mantenha-o na linha com punições, e o povo se manterá longe de problemas, mas não será capaz de sentir vergonha. Guie-o pela virtude, mantenha-o na linha com os ritos, e o povo, além de ser capaz de sentir vergonha, reformará a si mesmo.”

*
Mushiatsui é palavra japonesa sem tradução no português — que eu saiba; se alguém souber, comments open. O mais próximo ? quente-úmido, exatamente como está agora, aqui.

Aprendi, é claro, a não me queixar sobre o tempo. Se chove, bom para a lavoura — e assim eu como frutas frescas. Se não chove, bom para o turismo — e assim eu me convenço de que preciso me mandar daqui.

Ademais, transpirar é algo bom. Faz você sentir que fez algo útil e desejar um banho e um descanso. Um dos problemas do nosso tempo é o fato de as pessoas se cansarem mais na alma do que no corpo. Então elas querem descansar diante de TVs e deixam o banho para mais tarde. E não transpiram. Não há vida sem suor. Claro que os ônibus lotados não convidam a essa reflexão. Mas para quem não vive em cidades grandes — e eu pertenço a essa zelite — há sempre a excelente opção de dispensá-los.

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2 comentários sobre “Mushiatsui

  1. Sou pessoalmente contra o aborto, mas sempre questionei os posicionamento religioso sobre o assunto. Por que uma religi?o que o pro?ba teria o direito de interferir na decis?o dos que n?o cr?em nela?
    Este ? o primeiro argumento RACIONAL e puramente HUMANITARIO que leio sobre o assunto. Me fez pensar se h? o direito, mesmo para ateus. O que difere o aborto do homic?dio? A diferen?a entre a suposi??o (tema filos?fico) da vida e a certeza dela?
    Excelente argumento. N?o vale a pena desistir.

  2. Humm…eu gostei de Loose, n?o de todo o disco, mas principalmente das m?sicas que me fazem lembrar dos anos 80…hehehe. Agora, a m?sica dela que eu acho mais bonita ? Try.

    Sobre o aborto, sou contra. A vida ? algo de valor imensur?vel. ? claro que existem casos extremos, como a iminente morte da m?e…mas fora isso, desaprovo.

    Muito bom seu site!

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