Estude

Christian Rocha
Jornal da Ilha – outubro de 2006

Ano eleitoral é bom para duas coisas. Primeiro, para nos fazer perceber pelo contraste o que é realmente importante. Você liga a TV, vê Maluf ressuscitando o "rouba mas faz", Lula afirmando pela enésima vez que ninguém pode discutir ética com ele, Valdemar Costa Neto pedindo mais uma chance (e ganhando!) e mensaleiros reeleitos e se sente idiota, envergonha-se de fazer parte da festa da democracia e desliga a TV, lembrando que precisa trocar uma lâmpada queimada, algo mais importante do que acompanhar de perto os acontecimentos políticos. É claro que há diferença entre ter e não ter um presidente corrupto e ignorante, mas eu percebo, sobretudo quando acompanho o noticiário político na TV, que minha força como eleitor é muito, mas muito menor do que minha força como indivíduo.

A segunda coisa boa de um ano eleitoral é estudar. Se você percebe, como afirmei antes, o que não é importante, em algum momento você se perguntará sobre o que é importante. E quando você se fizer essa pergunta, fatalmente será empurrado na direção do estudo, dos livros, da reflexão atenta a respeito das coisas que acontecem ao seu redor. Não há como escapar. Ou você passa por essa trindade ou não estará estudando. E se não estiver estudando, continuará sendo mais uma daquelas pessoas que percebe o erro mas não consegue eliminá-lo nem de sua própria vida e que, por isso, abana o rabinho enquanto se dirige à zona eleitoral e fica bravinho a cada nova investida do Leviatã.

A maioria das pessoas que bate no peito e se diz "eleitor" é gente que percebe o erro e a necessidade de mudar diversas coisas, mas que tristemente acredita que a solução para tudo isso é votar, discutir com vereadores, engajar-se em discussões políticas. De minha parte, o que posso dizer é que sinto vergonha de fazer parte de um sistema que diz ao cidadão que o voto é sua obrigação fundamental. Não quero mudá-lo, quero apenas ter a liberdade de não participar dele. Não gosto de festas. Gosto menos ainda de uma festa cuja participação é obrigatória. Festas resultam em pessoas bêbadas, sujeira e barulho. Nada mais distante do estudo, da reflexão e da sabedoria. Quero estudar, não votar. Uma audiência pública só teria utilidade se servisse para reunir pessoas esclarecidas e versadas sobre os assuntos
em pauta.

Fala-se, por exemplo, em mudar o mundo. Como mudar aquilo que não conhecemos? Como mudar aquilo que só conhecemos através dos noticiários? Como ir além daquilo que nos é mostrado? Telejornais têm um compromisso com a superficialidade. Duvide deles. Duvide também do que digo aqui, mas seja capaz de ir além destas palavras. Não as recuse apenas porque elas contradizem aquilo em que você acredita. Estude, busque referências. Saiba ir além. Supere-me, por favor. Não é difícil, como você já deve ter notado.

Se quiser referências, ei-las. O que escrevo aqui e em meu saite tenta humildemente ecoar as idéias de Aristóteles, Tomás de Aquino, Confúcio, Lao Tsé, Jesus Cristo, Spinoza, Thoreau e, para citar alguns autores brasileiros, Olavo de Carvalho, Mário Ferreira dos Santos e Miguel Reale. Aristóteles ensina o que é ética em "Ética a Nicômaco"; o leitor entenderá o que é viver em sociedade, o que é justiça, igualdade, bondade, as virtudes e os vícios. Um bom complemento é "Política", se o leitor realmente quiser chafurdar na lama sem correr o risco de se afogar nela. Tomás de Aquino é um tapa na cara daqueles que desacreditam o poder da fé e menosprezam sua importância, sobretudo nos dias de hoje. Confúcio também dá lições de ética e moral, ensina como e por que estudar e pensar. Lao Tsé demonstra a importância da unidade, da bondade e antecipa algumas lições que só ganhariam dimensão e importância séculos mais tarde com o surgimento de Jesus. Sobre o Nazareno e seus ensinamentos, não há nada que supere o Novo Testamento; quem quer que critique as religiões e a religiosidade sem tê-lo estudado simplesmente não merece ser ouvido. De Spinoza, é utilíssimo seu "Tratado da Correção do Intelecto", pois não há nada mais valioso e ao mesmo tempo perigoso do que a inteligência. Thoreau, sempre lembrado por seu "Desobediência Civil", conversa com o leitor no poético e filosófico "Walden" e o faz perceber que pode haver muito mais vida na consciência individual do que no mundo que a cerca. Nunca é demais lembrar que muitos dos livros aqui mencionados podem ser encontrados na Biblioteca Municipal de Ilhabela. Se não puderem ser encontrados por lá, entre em contato comigo.

O valor do estudo não está apenas no desenvolvimento intelectual. Ao estudo segue-se um crescimento moral que se inicia com uma observação simples: tudo o que você puder pensar já foi pensado por outras pessoas, e certamente elas chegaram num ponto em que você jamais sonharia chegar. É uma lição de humildade, e a humildade é o primeiro passo para respeitar aquilo que você não conhece. E chega uma hora em que você perceberá que todas as pessoas sabem mais do que você. Não esta ou aquela. Todas. Todas as pessoas podem ensinar. É um regra sem exceção, pois mesmo a pessoa que nada tem a ensinar, que se orgulha da própria ignorância e que faz disso a razão para que as pessoas o aceitem – como o Sumo Apedeuta – serve como exemplo de mau exemplo, como modelo a ser recusado e colocado no formol do esquecimento.

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Um comentário sobre “Estude

  1. Não acredito que isso tenha acontecido !!!!
    Aliás… acredito sim, pois numa de nossas calorosas conversas vc me disse que havia idiota pra tudo nesse mundo.
    E como no Brasil tudo acaba em pizza, bunda e samba…
    Paciência
    Abraços e parabéns pela hp.

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