A não-casa dos meus sonhos

Nas páginas de Arquitetura & Construção de setembro tive a grata surpresa de ver a casa da arquiteta Renée Sbrana. Trata-se de um conjunto de seis pequenas construções espalhadas em área de cerca de 1000m², localizada em Boipeba, litoral sul da Bahia. O partido arquitetônico foi definido pelo desejo de preservar todas as árvores importantes do lote. A tecnologia utilizada foi a mais rústica possível, facilitando assim o uso de materiais comuns na região e da mão-de-obra local.

A experiência da construção rendeu bons frutos para a arquiteta e para a própria comunidade local, conforme nos conta a matéria de Arquitetura & Construção, donde foram colhidas as imagens que ilustram este post. Além da experiência social de construir em um lugar afastado de grandes cidades e com cultura regional marcante, o partido arquitetônico traz uma série de pequenas e valiosas lições.

A construção segmentada, dividida em blocos desconexos distribuídos pelo lote, dá nova dimensão à arquitetura. Arquitetos comuns, dedicados a projetar para clientes comuns, decerto proporiam uma construção isolada no centro do lote, recorreriam ao corte de árvores e a movimentos de terra, por se tratar de terreno com alguma declividade. A idéia de demarcar o território com um objeto singular é universalmente aceita por arquitetos e construtores e pouco questionada por aqueles que teoricamente têm a obrigação moral desse tipo de questionamento — paisagistas e ambientalistas.

Infelizmente só conheço a casa de Renée Sbrana através da matéria de Arquitetura & Construção, mas as imagens sugerem um modo de vida particular, ligado à terra, sem os limites comumente propostos pela arquitetura, com paredes, jardins projetados, muros e estruturas pesadas demais para o solo. A casa da arquiteta é o lote, uma casa que respira, que permite a água escorrer e retornar ao chão, que permite que seus moradores convivam com plantas, bichos e as mudanças do clima.

Uma impressão que se pode ter a partir das imagens é que uma casa assim só é possível num lugar como Boipeba. Municípios genuinamente urbanos têm legislações rígidas. Nestes lugares a disponibilidade de materiais de construção e de mão-de-obra seguem as regras do mercado e a cultura local, quando existe, tem pouca importância, a não ser como obstáculo. Além disso, poucos lugares têm uma natureza tão generosa como Boipeba e um modo de vida despojado ao ponto de deixar belas marcas num projeto arquitetônico.

Mas a eventual impossibilidade de se transferir para outro lugar uma construção tão simples e delicada não nos impede de buscar os conceitos, compreendê-los e imaginá-los em lotes urbanos, em lugares não tão exuberantes quanto Boipeba, mas que carecem de uma atenção que há muito tempo tornou-se rara em cidades grandes.

O primeiro conceito é simplicidade. Havia um programa composto de sala, serviço (cozinha e área de serviço) e quartos de dormir. Qualquer casa é composta dessa trindade: espaços comuns de lazer, espaços comuns de serviço e espaços individuais multi-uso (dormir, trabalhar). Numa casa comum esse programa engorda com as ligações. Corredores, escadas e acessos dão à construção uma materialidade excessiva; para o arquiteto comum que projeta em lugares comuns o exercício de caminhar precisa ser realizado entre paredes, sob proteção e vigilância constantes. A simplicidade permite abandonar paredes e libertar o movimento. Ainda que as intempéries possam ser um problema grande em lotes urbanos, elas nunca são tão sérias a ponto de impedir a simplicidade de poucas paredes, de poucas coberturas, enfim, de pouca construção, de materialidade mínima.

O segundo conceito é a permeabilidade. O isolamento é uma doença do homem moderno. A violência tornou essa doença crônica, obrigando o uso de aparatos complexos e pesados demais. Apesar disso, uma construção permeável não precisa necessariamente ser aberta para o mundo. Basta que o morador possa experimentar o território dentro de seu quarto, basta que o ar possa entrar, que as janelas sejam como paredes ausentes. Ocorre que o homem (e o arquiteto) da cidade está tão acostumado a projetar fortalezas, a pensar tudo como espaço murado e inexpugnável, que toma a violência como pressuposto, incapaz de perceber que a arquitetura não é apenas uma espectadora do que acontece ao redor.

O terceiro conceito é naturalidade. Algumas pessoas dirão que não faz o menor sentido falar em naturalidade em cidades como São Paulo ou Santos, totalmente tomadas por construções de concreto e quase totalmente verticalizadas. Eu convidaria essas pessoas a um exercício interessante: mesmo em lugares intensamente urbanizados, havia um ecossistema natural muito antes que a cidade existisse, muito antes que as pessoas instalassem ali suas empresas, seus trabalhos, suas ruas e casas e edifícios. É esse ecossistema que deve ressurgir. E mesmo que ele não seja facilmente perceptível, mesmo que ele pareça extinto, ele ainda existe através do clima, dos poucos recursos naturais, como a água dos córregos, como os ventos e as árvores que insistem em oferecer sombra. Mesmo que não haja nenhuma natureza perceptível, mesmo que nos coloquemos diante de uma situação extrema de nulidade ambiental — como o Memorial da América Latina, por exemplo –, havia chão de terra nesse lugar, havia árvores e mato, havia vento e a água cumpria seu ciclo. Ao projetar e construir a naturalidade é um conceito que vai além da escolha dos materiais; é uma forma de perceber o lugar, pesquisar e compreender que o que existiu e o que existe ali merecem espaço.

O quarto conceito é a dialética entre unidade e diversidade. Quase todas podem ser retiradas de seus lotes e manipuladas, como pequenas esculturas de concreto. Embora haja razões técnicas, econômicas e legais para centralizar a casa no lote e para construi-la como um monolito prismático, estas razões perdem importância se o profissional não tomasse isso como pressuposto e refizesse as contas da área do empreendimento. O que quero dizer é que a maioria das casas é grande demais, com cômodos demais, e o excesso sempre leva o arquiteto a projetá-la como um “objeto excepcional” (como costumava dizer um de meus professores). É fácil compreender por que isso ocorre: objetos excepcionais dão destaque aos seus autores. A aparência é sempre importante, é ela que causa impressões e a vida é feita disso. Mas não apenas disso. Em arquitetura, é sempre melhor que a unidade da obra aconteça por aquilo que ela contém, não necessariamente por sua materialidade. A unidade funcional deveria vir depois da unidade estética, material, visual. Habitar é algo suficientemente importante para corresponder a uma arquitetura.

Logicamente, falta muita coisa para que se possa fazer esse tipo de arquitetura em sítios predominantemente urbanos, distantes de Boipeba. Seria possível uma arquitetura desse tipo numa cidade como São Paulo? Provavelmente não. Mas talvez comecemos com isso uma discussão sobre vida urbana. Talvez não valha a pena viver num lugar em que é impossível construir uma casa como a de Renée Sbrana, uma casa em que os moradores são convidados a viver o lugar em vez da arquitetura. É preciso ser muito humilde, como arquiteto, para projetar e construir uma casa desse tipo, um espaço em que a mão do homem é no máximo uma adaptação do espaço natural, um pedido de licença para habitar um lugar que não é só dele.

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2 comentários sobre “A não-casa dos meus sonhos

  1. Oi Cristiano, não sei se lembra de mim, a alguns anos atrás eu pensava em mudar pra ilha, e me deparei com seu blog, e te escrevi…hoje com outros planos, talvez o de construir uma pequena casa em cotia – procurando fotos de casas interessantes, me deparo novamente com seu blog….muito legal esta casa de boipeba. Engraçado isso – bom espero que isto se concretize…mudar pra ilha não rolou, pena…ainda quero um dia.
    bjs!
    tina

  2. OLA CRISTIANO, PROCURANDO MODELOS DE CASAS RUSTICAS EN UMA COPNSTRUÇAO ALTERNATIVA ENCONTREI SEU BLOG…ADOREI A IDEIA , DE VOLTAR A NOSSAS RAIZES COM ESSE TIPO DE CONSTRUÇAO. GOSTARIA SE VC PUDESSE MANDAR UMA IDEIA PRA MIM COM O MESMO PRINCIPIO, SO QUE PARA UMA CASA EN UMA PEQUENA CHACARA DENTRO DA CIDADE. ESTAREI ANCIOSA ESPERANDO RESPOSTA..UM ABRAÇO
    CLAUDIA

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