Método da suspicácia

Abertura do volume Teoria do Conhecimento, de Mário Ferreira dos Santos

Para o estudo da filosofia, em seus campos mais complexos, como os que iniciamos nesta obra, que abrem o caminho aos estudos da Metafísica, sempre aconselhamos aos nossos alunos, em nossas aulas, e hoje o fazemos ao leitor, que tem a bondade de manusear nossos livros e lê-los, o que chamamos de método da suspicácia, que é uma atualização da suspeita, da desconfiança, a acentuação, em suma, de um estado de alerta no estudo, que só pode trazer bons frutos ao estudioso.

Em face da heterogeneidade das idéias, das estéreis, ou não, disputas de escolas, da diversidade de perspectivas, que podemos observar em toda literatura filosófica, com a multiplicidade de vetores tomados, impõem-se ao estudioso a máxima segurança e o máximo cuidado para não deixar-se arrastar, empolgado pela sugestão e até pela sedução das idéias expostas, que o arraste, naturalmente, a cair em novas unilateralidades ou a prendê-lo nas teias de uma posição parcial, que não permitiria surgir aquela visão global e includente, que temos proposto em todos os nossos livros.

São as seguintes as regras da suspicácia, que propomos:

I – Suspeitar sempre de qualquer idéia dada como definitiva (idéia ou opinião, ou teoria, ou explicação etc.).

II – Pelos indícios, buscar o que a gerou. Ante um conceito importante procurar sua gênese (sob todos os campos e planos da decadialética e da pentadialética):

a) Verificar se surge da experiência e se se refere a algo exterior a nós, por nós objetivado;
b) se surge por oposição (ou negação) a algo que captamos ou aceitamos;
c) se é tomado abstratamente do seu conjunto;
d) se o seu conjunto está relacionado a outros, e quais graus de coerência que com outros participa.

III – Não aceitar nenhuma teoria, etc., que só tenha aplicação num plano, e não possa projetar-se, analogicamente, aos outros mais elevados, como princípio ou postulado ontológico.

IV – Suspeitar sempre, quando de algo dado, que há o que nos escapa e que precisamos procurar, através dos métodos da dialética.

V – Evitar qualquer idéia, ou noção caricatural, e buscar o funcionamento dos esquemas de seu autor para captar o que tem de mais profundo e real, que às pouco transparece em suas palavras.

VI – Devemos sempre suspeitar da tendência abastracionista da nossa intelectualidade, que leva a hipostasiar o que distinguimos, sem correspondência com o complexo concreto do existir.

VII – Observar sempre as diferenças de graus da atualização de uma idéia, pois a ênfase pode emprestar à essência de uma formalidade o que, na verdade, a ela não pertence. Assim, o que é meramente acidental, modal ou peculiar, que surge apenas de um relacionamento, pode, em certos momentos, ser considerado como essenciais de uma entidade formal, permitindo e predispondo, que, posteriormente, grandes erros surjam de um ponto de partida que parecia fundamentalmente errado.

Ao defrontarmo-nos com um absurdo ou com uma posição abstracionista absolutista, podemos estar certos que ela parte de um erro inicial. Remontando às origens, aos postulados iniciais, não será difícil perceber o erro.

VIII – Na leitura de um autor, nunca esquecer de considerar a acepção em que usa os conceitos. Na filosofia moderna, cuja conceituação não adquiriu aquela nitidez e segurança da conceituação escolástica, há uma multiplicidade de acepções que põem em risco a compreensão das idéias. E muitas polêmicas e diversidade de posições se fundam sobre a maneira pouco clara de apanhar o esquema noético-eidético de um conceito, o que decorre da ausência da disciplinas, que era apanágio da escolástica em suas fases de fluxo.

IX – No exame dos conceitos, nunca deixar de considerar o que incluem e excluem, isto é, o positivo incluído no esquema conceitual, e o positivo que a ele é recusado.

X – Nunca esquecer de considerar qualquer formalidade em face das formalidades que cooperam na sua positividade, sem estarem inclusas sua tensão. Assim, por exemplo, a rationalitas, no homem, implica a animalitas, embora formalmente, no esquema essencial, a segunda não inclua necessariamente a primeira, enquanto a primeira implica, necessariamente, a segunda. Mas, como esquemas formais, ambas se excluem, apesar de a primeira exigir a presença da segunda para dar-se no compositum, isto é, na humanitas.

XI – Sempre cuidar, quando de um raciocínio, a influência que possa ter, em nossas atualizações e virtualizações, a inércia natural do espírito, o menor esforço, sobretudo nos paralogismos e nas longas argumentações.

XII – Toda afirmação que apresente cunho de verdade, verificar em que plano esta se verifica: se no ontológico, no ôntico, no lógico, no formal, no gnoseológico, no material, no axiológico, no simbólico, no pragmático, etc. Estabelecida a sua positividade, procurar as que exige para que se obtenha um critério seguro. Esta última providência, e o modo do seu processual, é a que se adquire pela matéria a ser examinada nesta obra.

Outras providências do método da suspicácia serão apresentados nas obras posteriores desta Enciclópedia, à proporção que se tornem necessárias. Nessa ocasião, teremos o cuidado de tratar delas, expô-las com a exemplificação que se tornar imprescindível.

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