Liberdade

Christian Rocha
10 de setembro de 2006

Eu sei que não sou livre. Ser livre significa determinar o próprio destino. Isto vai muito além de ter tempo e dinheiro; significa ter consciência da própria autenticidade, supondo que exista algo assim. Significa perceber o quanto de mim há em mim mesmo — o que sou eu e o que é o mundo, mesmo em gestos tão pessoais quanto escrever. O mundo rege um gesto como este; escrever é querer deixar rastros, um desejo ingênuo de que outras pessoas possam nos seguir depois que tudo estiver acabado.

Escolher esta ou aquela carreira, casar-se ou a satisfação pessoal são gestos tão influenciados pelas coisas do mundo quanto a atitude blasé de intelectuais e monges. Não há liberdade em mim, não há liberdade neles. Estou preso.

Não digo com isso que tudo esteja escrito. Digo apenas que, embora minha vida esteja para ser escrita, não serei eu o autor dos próximos capítulos. Talvez eu nem tenha consciência de que elas estão sendo escritas, neste exato momento, enquanto tento adquirir alguma consciência sobre minha própria vida ou afirmar que a tenho. É um desejo típico dos que foram expulsos do paraíso. Eles, como eu, fazem pouco daquilo que perderam e seu paraíso se chama solidão. O isolamento é o lugar mais alto. O Altíssimo deve rir de nós nessas horas, porque nessa busca por conquistas individuais, na ilusão de um paraíso aqui-e-agora transparecem nossas fraquezas mais escondidas.

Uma dessas fraquezas é o medo de ficar sozinho. Ascender ao topo, ser o melhor em sua cátedra, vencer, são formas simples e humanas de ser visto, ser querido, seguido e respeitado. Admite-se desta forma, no entanto, que não há nada maior do que quem está no topo. Fraqueza, auto-afirmação, medo, ocultamento. A força existe enquanto o sujeito é capaz de neutralizar aqueles que lhe tentam tirar o lugar sob os holofotes, enquanto ele os derrota ou consegue evitar o combate. Ele é livre? Ele apenas deseja a liberdade, mas não a tem. O máximo de liberdade que possui é a de caminhar sobre um punhado de cadáveres, até que seu próprio cadáver seja pisoteado por outro caminhante. Depois de você, muitos outros virão e tentarão ascender ao lugar em que você esteve ou a que você aspirou. Eis a roda da vida, um nomezinho bastante irônico.

Liberdade é conseguir responder perguntas profundas com alguma sinceridade, sem tremer diante do vazio. Por exemplo: o que você será daqui a 200 anos?

Não temer a morte não é condição para ser livre. Como não temer aquilo que anulará a realidade tal como você a conhece? Não obstante, a liberdade começa quando adquirimos consciência sobre esses medos e sobre como eles determinam nossas vidas.

*
É claro que até aqui trata-se apenas de um exercício de vaidade. Querer ver além da vaidade é vaidade pura. Imaginar-me alheio ou superior ao mais humano dos vícios é comparar-me com Deus. Não pretendo ir tão longe, nem sou capaz disso. Ademais, é o tipo de vaidade que não liberta, mas que aprisiona ainda mais. No máximo, o exercício da escrita e da reflexão lançam novas luzes sobre aquilo que me aprisiona. No máximo não desejo ir aonde outros já foram e falharam. No máximo colecionei princípios. O Primeiro Mandamento. Conhece-te a ti mesmo. Forte é quem vence a si mesmo. Não-eu, não-ação, o esvaziamento de si, ascese.

Pode haver liberdade ao seguir o que os mestres nos revelaram, mas há muito mais liberdade quando tentamos perceber o que eles perceberam. Eles não perceberam palavras, apenas puseram sua percepção em palavras, em idéias, em discursos. Ler um livro não é o mesmo que tentar perceber o caminho que o autor trilhou e pôr-se na mesma senda. Há grande diferença entre estudar o que as Escrituras dizem e compreender que elas são a expressão da Verdade. Quem apenas segue as Escrituras materializa sua crença em times de futebol, em facções criminosas. Quem as compreende não precisa fazer mais nada. E se você conhece e compreende a Verdade, você é livre.

Mas eu falava de uma liberdade mais simples, mais humana, mais terrena. Recomecemos com outra pergunta: o que o impede de ser o que você é? Alan Watts sugere esta pergunta em "Tabu", um de seus melhores livros. Longa reflexão adiante.

Sabedoria é percepção, visão, observação. O homem sábio vê a Verdade e isto se dá através da observação do mundo, dos fatos, das pessoas, dos objetos. O primeiro passo para tornar-se sábio é saber o que somos e o que não somos, muito além de toda superfície. Para isso, é necessário ser honesto, admitir a verdade para si mesmo. É difícil admitir a verdade, reconhecer os próprios erros. A maioria das verdades é auto-evidente, assim como a maioria dos nossos erros. O grande obstáculo é a vaidade, o apego a si mesmo: é a vaidade que nos impede de reconhecer o que somos verdadeiramente, de reconhecer erros e imperfeições. Levamo-nos em altíssima conta, o tempo todo. Altíssimo, só um. Ele.

O segundo passo é perceber o mundo ao nosso redor. Parece algo simples e natural, mas poucas pessoas se dão conta de que há leis, regras, lógicas, ritmos, eventos e desejos e que todos têm alguma razão de ser. Todos nascem, vivem e morrem por algum motivo e que esse motivo pode ser tão grande quanto aquele que nos faz viver agora e ler estas linhas (obrigado, aliás). O mundo lá fora se dá tanta importância quanto você para si mesmo.

O terceiro passo é perceber que o que está fora não é essencialmente diferente do que aquilo que está dentro — pressuponho aqui que você já admitiu para si que sabe e reconhece o que é "aí dentro" e que o espelho já deixou de ser um obstáculo para você. Existe uma relação permanente entre aquilo que somos e o mundo ao redor. Essa relação vai além da complementaridade. A vida em sociedade é um sinal (rasteiro, é claro) de que essa idéia não é estúpida demais: eu e o mundo nos influenciamos mutuamente, não em mesma medida, mas com a mesma freqüência. Existe uma unidade entre interior e exterior, entre indivíduo e sociedade, e um pressuposto no caminho da elevação espiritual e intelectual é perceber essa unidade. (Não se trata, é claro, de uma unidade no sentido sociológico, no sentido da diluição do indivíduo dentro da massa amorfa que muitos chamam de povo, mas no sentido cristão, que se refere constantemente ao próximo. Para o bom cristão, pode-se resumir a responsabilidade social no relacionamento entre duas pessoas)

Cada um desses passos é um degrau rumo à percepção do mundo dentro de si. Se você consegue perceber você mesmo, o mundo e a forma como essas duas coisas ou entidades se relacionam, às ve
zes deixando entrever a identidade que há entre elas, então você é livre, ou está no caminho para a liberdade.

Ser livre não significa apenas ter consciência daquilo que o aprisiona. O mundo não é exatamente uma prisão, mas um caminho murado cujo fim não se vê. Abrem-se buracos aqui e ali, e vidas são ceifadas desta forma neste caminho interminável. As pessoas associam a falta de liberdade às prisões, sem perceber que a obrigação de fazer determinadas coisas, de ater-se a ritmos, jornadas e interesses alheios é prisão mais grave. O movimento constante causa a ilusão da liberdade e a ilusão é a pior das prisões. Mas se você sabe aonde está indo, não há problema, não há medo, não há frustração. Há liberdade. De minha parte, ficaria plenamente satisfeito pela simples liberdade de ficar quieto em meu canto, cultivando os valores que escolhi reunir ao meu redor.

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2 comentários sobre “Liberdade

  1. esse vulc?o preste a entrar em erup??o a insist?ncia das m?os em ter vida propria e as palavras que veem em um ritmo alucinante que as m?os tentam alcan?ar e os erros na gram?tica pelo esfor?o de acompanhar o pensamento.
    n?o sou livre quando escrevo, apenas desabafo sentimentos aprisionados, impress?es minhas daquilo que sinto ou acompanho no que ? viver.
    nas escrituras esta escrito:
    conhecereis a verdade e a verdade o libertar?.
    para se conhecer ? necess?rio reconhecer onde ela se encontra, ? onde come?a o problema.
    profunda reflex?o
    ao ler deixa-nos o gosto de um dia nublado e chuvoso, aquele sentimento de uma crian?a que olha a chuva da janela de seu quarto, aprendendo que sua vontade ? ineficaz diante do tempo l? fora.
    n?o chora, n?o grita, simplesmente aceita o inevit?vel, resigna??o.
    obrigado por compartilhar esse sentimento e essa sinceridade.
    da vaidade somos todos prisioneiros.
    um grande abra?o e obrigado

  2. Sim, a vaidade ? a maior das tiranias. E como muitas de nossas a??es s?o condicionadas, s? algumas poucas vezes nos damos conta que agimos por ela e para ela. Neste caso, quando temos consci?ncia desta condi??o, ficamos um pouco menos aprisionados.

    Mas tem tamb?m os apriosionados conscientes. Lembram aquele personagem do filme Matrix, que haviam lhe revelado a verdade, mas ele queria mesmo ? voltar para a ilus?o? No link abaixo sou mais expl?cito:
    http://www.oexpressionista.com.br/?p=155

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