Casas grandes demais

vazioUma parte importante de minha infância aconteceu na casa de meus avós paternos. Era uma casa enorme. Dois andares, mais de vinte cômodos. Havia um quintal enorme, um quarto de despejo cheio de badulaques dignos de um arqueólogo, um galinheiro, um pé de abiu (que todos os anos ficava amarelo de tantos frutos), um viveiro de pássaros, um Esplanada bem conservado na garagem. Havia inclusive uma sala com um piano, que já servira para aulas e que nas noites de maior inspiração ressoava pela casa. Jogando bola no quintal daquela casa eu tive a única fratura de minha biografia — um goleiro perna de pau merecia quebrar o dedo mínimo da mão direita. Me arrebentei algumas vezes; tenho algumas cicatrizes cujas origens estão naquela casa.

Apenas meus avós viviam naquela casa, mas ela era uma espécie de ponto de encontro da família. Durante a semana um dos catorze (treze? quinze? sei lá; dois casamentos e uma família de quase uma centena de pessoas faz qualquer um perder a conta) filhos de meu avô estava por lá. Aos finais de semana, dois ou mais de seus filhos se reuniam por lá, para almoço, lanche e carteado (um dos costumes reprováveis de nossa família). A reboque iam os netos, que mantinham um nível saudável de algazarra quando os pais já haviam sido derrubados pelo peso do macarão dominical.

A casa de meus avós era grande, mas não era uma mansão no sentido estrito do termo. Embora fosse grande demais, era uma casa até bem simples, num bairro não tão apreciado por quem pode escolher onde morar. O que a tornava especial era a vida que a preenchia constantemente.

Aqui em minha cidade casas grandes demais são comuns. Como se trata de lugar turístico, não são exatamente casas de família. São casas vazias, que permanecem vazias a maior parte do tempo. É curioso que os proprietários dessas casas não percebam isso e não sejam mortalmente tomados de depressão profunda ao perceber salas vazias, quartos vazios, cozinhas vazias.

Se o mundo se transformou ao ponto do esfacelamento das grandes famílias (e a minha não foi exceção), se já não há mais nada para preencher os espaços de uma casa além de novos e caros gadgets, que se façam então casas menores, com mais espaço externo e menos espaço interno. Que se viva mais para fora do que para dentro. Que se dê espaço para árvores, para bichos, para o vento.

*
Eu me arriscaria a dizer que isso é um recado para meus colegas, arquitetos. Mas eles já não têm mais condições de ouvir tais mensagens. Todos estão irremediavelmente ligados à idéia de progresso. Seria ingenuidade esperar deles a grandeza de não projetar, de não construir ou de sugerir a seus clientes que aquela casa pode ser muito menor.

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2 comentários sobre “Casas grandes demais

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