Thoreau e o bife


Fonte da imagem:
www.trekearth.com/gallery/Europe/Portugal/photo406585.htm

Uma atitude ambiental sensata é fazer, consumir, modificar aquilo que está ao seu alcance. Considere-se um indivíduo sozinho. Imagine-se como Adão no Paraíso. O que você pode fazer? O que você pode consumir?

Se você é capaz de matar um boi com as próprias mãos, se possui a força e a habilidade para isso, vá em frente. Você tem o direito de ser carnívoro. Se você não é capaz de fazer isso, você também pode seguir adiante, mas enquanto corta uma fatia daquele bife suculento, pense que se fosse por você, só por você, você não poderia comê-lo. Em outras palavras, para matar o boi e comer sua carne, você precisa chamar a sua turma, atacá-lo covardemente depois de cercá-lo num espaço exíguo especialmente projetado para seu sacrifício. E então, eis o bife suculento no seu prato.

Frutas são totalmente diferentes. As frutas balançam nas árvores como se dissessem “Venha… venha…”. Elas foram feitas para isso. Foram projetadas para isso. A forma diz tudo. Frutas não têm pernas. Sua carne, a parte mais apetitosa, foi feita para proteger a semente que precisa ser exposta à terra para tornar-se outra árvore. Por isso é necessário comer a fruta e cuspir o caroço na terra.

O mesmo não pode ser feito com o boi. Comê-lo evita ou reduz a chance de haver novos bois. Ao contrário das frutas, ele possui pernas. Se você tentar comer uma fruta, ela agradeceria se pudesse. Se você tentar comer o boi — enquanto ele tiver pernas para isso e estiver vivo — ele correrá de você.

Você, indivíduo, pense bem, só é capaz de comer frutas e verduras. Talvez consiga pescar um peixinho. Mas certamente não consegue matar um boi sozinho, retalhá-lo e comê-lo.

Claro que essa impossibilidade não cria outras impossibilidades. Todo indivíduo pode fazer trocas. Eu trabalho, ganho alguns níqueis, vou ao açougue e os troco por bifes. Mesmo assim, isso não elimina o fato mesmo da incapacidade de matar um boi, de produzir aquilo que sustentará seu carnivorismo.

Raciocínio semelhante pode ser aplicado a todas as ações que intereferem no meio ambiente. Quanto mais bastante em si, maior é o valor ambiental da ação — supondo subentendido o significado de valor ambiental. É mais ou menos por isso que a madeira é um bom material. Não porque algumas possuem selos ambientais ou porque têm uma “aparência ecológica”, mas porque exigem menos processos, menos energia, menos gente trabalhando para produzir um pedaço aplicável numa construção ou num móvel e, sobretudo, porque as árvores têm a incrível capacidade de se reproduzir sem muita dificuldade. É algo bem diferente do aço ou do concreto.

*
Thoreau tornou-se um dos pioneiros dessas idéias quando decidiu viver às margens do Lago Walden. Construiu ele próprio a cabana em que viveu. Obteve o sustento com o próprio trabalho, ora pescando, ora caçando, ora trocando trabalho por comida e outros objetos com os vizinhos. Ele não precisava, mas pôs-se a viver por conta própria. Bastou-se a si mesmo.

Não vejo razões para segui-lo. Se eu me embrenhasse no mato para construir uma cabana seria preso pela polícia florestal. Sou mais urbano do que Thoreau jamais sonharia; talvez ele me dissesse para viver minha vida, o que inclui às vezes comer bifes e morar numa casa de tijolo e concreto. Mas antes que eu pudesse me isolar no conforto da urbanidade, ele diria: “Vive tua vida, mas lembra que ela não é toda tua”.

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2 comentários sobre “Thoreau e o bife

  1. Caro Christian,
    Cheguei aqui por conta da comunidade WordPress Brasil. Seu blog é muito bom. Parabéns. Mas esse post me atiçou um comentário: o Thoreau não conheceu a Internet… já pensou que ele poderia dizer, seguindo a mesma linha de raciocínio, que devemos ir somente onde nossas pernas podem nos levar? A Internet me leva a qualquer lugar conhecido, e que minhas pernas não poderiam me levar. Ultimamente tenho seguido a tese dele quanto às carnes vermelhas por necessidade de preservar a saúde, mas que um suculento e sangrento bife é muito bom, isso é! Mas acompanha bem uma salada variada e frutas de sobremesa. ;-)
    Abraços e sucesso.

  2. Olá Nelson,

    obrigado pelo seu comentário.

    Eu acho que Thoreau veria a Internet como as locomotivas de sua época. Há sempre um custo por ir mais rápido e mais longe do que suas pernas podem levar. Eu pessoalmente não acho que haja um problema muito sério nisso, em recorrer a outros meios para sobrepujar os próprios limites, desde que se demonstre alguma consciência sobre os custos desses avanços. Ou: prudência, como dizia Baltasar Gracián.

    Abraço!

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