Estudo e higiene

água bambu

Deveríamos ter com o estudo a atitude que os iogues têm com os asanas. O iogue faz uma higiente completa antes da prática dos asanas. Ele jejua, urina, defeca, lava-se e então pratica os asanas, que são parte de um ritual de purificação que termina com meditação e pranayama.

Desde a escola existe a idéia de que o estudo é aquilo que nos permite chegar a algum ponto. No começo o estudo é um propósito em si mesmo: estuda-se uma disciplina porque ela é pré-requisito para estudar uma outra disciplina. Depois que uma década de estudos nos permitiu chegar à universidade, estuda-se para adquirir um bom emprego (fama e dinheiro são conseqüências disso). Quando adquirimos um bom emprego, estudamos para mantê-lo ou para conseguir um outro, melhor do que o atual.

Não há problema em tomar o estudo como uma ferramenta. O problema é tomá-lo apenas e sempre como uma ferramenta, reduzindo o estudo a algo que permitirá ao sujeito “vencer num mercado globalizado e cada vez mais competitivo”. Para estas situações, higiene, respeito e mistério.

O estudo é para poucos. As pessoas não querem educação e cultura. Elas querem dinheiro e conforto. Elas querem os benefícios que a educação e a cultura podem trazer — e tanto melhor para elas se estes benefícios dispensarem a alta cultura e uma vida inteira de estudos.

É muito fácil, por exemplo, ler Aristóteles e escrever uma tese a seu respeito. Difícil é submeter-se ao crivo e às lições do Estagirita. A filosofia é usada hoje como tema de livros de auto-ajuda, mas raro é quem a utilize a sério, realizando uma higiene completa antes de manuseá-la, respeitando o legado de seus principais representantes e encarando seu mistério fundamental.

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Preocupo-me, é claro, quando vejo a ignorância predominar, quando vejo o mundo ser conduzido por pessoas menos capazes do que eu. Contudo, já não vejo razões para brigar por isso. Pode-se discutir por justiça; com as palavras corretas a idéia de justiça pode ser compreendida por qualquer um. Desde que haja liberdade e desde que ela seja exercida com responsabilidade, não há razões para brigar. Tenho repetido a mim mesmo o seguinte conselho: deixe as pessoas em paz e vá estudar. Idéias não merecem briga, merecem estudo e trabalho.

Mesmo que venha a ruína total, mesmo que o céu se incendeie, eu penso que estas coisas acontecerão porque a maioria das pessoas assim as quis. Elas tiveram liberdade para escolher essa direção. E mesmo que eu sofra à revelia, é sempre bom ter fé e lembrar as palavras do Mestre: “O cavalheiro não permite que seus pensamentos devaneiem além do seu cargo” (Os Analectos, XIV.26)

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O sábio sabe fazer-se compreender, sabe defender suas idéias sem brigar, sabe demontrar os erros alheios. Como? Ele não toma seu ego como parâmetro. Ele sabe que sua vida desaparecerá em poucos anos. Ele será lembrado por ter agido com sabedoria e justiça, não por ter sido A ou B.

Por isso é bom deixar as contendas de lado, principalmente se o que está em jogo são apenas idéias; desenvolver a rara habilidade de dizer coisas neutras (porque em geral quem lê busca confirmar algo que já está cristalizado na própria alma); evitar as armadilhas do gosto (mas não se esquecer de que gosto se discute); rir-se das máfias ideológicas (porque elas merecem pouco além de chacota); e, sobretudo, recolher-se em meditação e estudo, todos os dias. “Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial” (Mt 5:48)

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