Crianças mimadas

grass

São todas crianças mimadas. Pessoas que vivem em cidades grandes esqueceram de usar a própria energia para viver e se tornaram crianças mimadas. O rol de necessidades não-declaradas dessas pessoas não deixa dúvidas sobre isso. Tudo de que elas precisam é ouvir melhor, ver melhor, sentir melhor. Tudo começa em seus corpos sebentos de longos congestionamentos, de elevadores e de falta de sol.

Meu pai sempre me fala de minha bisavó, que aos 70 ou 80 anos percorria longas distâncias a pé numa trilha empoeirada, para visitar parentes ou conseguir um pouco de farinha de mandioca. Eu me refiro a longas distâncias, não àquilo que separa o carro do shopping, num estacionamento asfaltado. Eram 7 ou 8 quilômetros, uma distância que a maioria das pessoas mede como se estivesse falando de maratonas e que, afinal, decide não percorrer a não ser no pensamento, porque é longe demais, porque o suor vai manchar a roupa, porque o caminho é muito árido ou porque vai dar fome e sede.

É curioso que estas explicações convivam com uma preocupação com a saúde que beira a loucura. A freqüência com que as pessoas sugerem meios artificiais para lidar com problemas de saúde causados pelo excesso de artificialidade já se tornou há muito tempo uma forma de doença muito particular e perigosa — que só não é mais perigosa do que a cegueira que está na base disso tudo. As pessoas recorrem a meios artificiais, caros e complexos para obter o mesmo resultado que seria obtido se se fizesse aquilo que o homem fez por vários séculos, que é natural, barato e simples. Como caminhar. Como beber água.

Logicamente eu não me refiro apenas a exercícios físicos, embora as contradições do deslocamento motorizado sejam exemplo suficiente do que estou tentando dizer. Perdem-se horas dentro de um ônibus, gasta-se muito dinheiro, as pessoas ficam irritadas com este desconfortável e pestilento convívio obrigatório, com os problemas no trânsito, com os atrasos e com a ineficiência dos sistemas de transportes. E com isso tornamo-nos cada vez mais dependentes de um esquema arriscado e degradante. Eu poderia estender este parágrafo mencionando a questão ambiental relacionada aos transportes, mas isso dá no saco e vocês já devem saber do que é que eu ia falar. Basta citar alguns itens: o acúmulo e o transporte de objetos e de peso, a nutrição e a produção de lixo. É muita sujeira.

Você pode experimentar farejar o ar. Seja discreto ou acharão que você está pirado. Olhe para cima, o que é o começo para perceber que há muitas coisas acima de você. Experimente caminhar, mesmo que a distância pareça absurdamente grande. Torne-se um pouco menos mimado. Nenhuma destas coisas depende de preços de ocasião, da permissão do chefe ou da hora do rush.

É claro que você pode reclamar dos atrasos no trânsito, você pode exigir seus direitos, escolher os melhores preços, aproveitar as grandes ofertas, preferir os restaurantes mais exclusivos, ir às boas salas de cinema, mas perceba que a vida não é exatamente como dizem os jornais. Jornais não querem nada além de conquistar leitores e anunciantes; dane-se se a vida é bonitinha, feita de cinzeiros de argila e bolinhos-de-chuva. Os jornais continuarão a dar destaque aos alagamentos na Grande São Paulo, às asneiras do presidente Luivináfio, ao tédio dos carros-bomba no Iraque e continuarão a ser lidos porque não fazem absolutamente nada de diferente dos outros jornais. Toda a mídia segue esse catecismo. É um cartel de cretinice. Uma horda de lunáticos diz amém para cada índice Dow-Jones que brilha na tela e para cada infográfico que explica o desastre aéreo mais recente. Jesus Cristo.

O que crianças mimadas não percebem é que cada vez que esperneiam cimentam um pouco mais a própria dependência das coisas que desejam. Assim é nas grandes cidades, onde tudo é muito, muito fácil. Quando faz calor, o sujeito ficará dividido entre o desejo de estar numa sala refrigerada, a satisfação de já estar nela ou a maldição ao aparelho de ar condicionado inexistente ou com defeito. Vá lá fora, experimente o calor na moleira, deixe o sol queimar-lhe a pele. Logo vão dizer que o buraco na camada de ozônio isso, que os raios ultravioleta aquilo e que bom mesmo é cerveja gelada no fim do expediente. Eu continuo preferindo melancia gelada no quintal de casa.

Eu não culpo essas pessoas. Eu as entendo porque também já exigi meus direitos numa repartição cheia de cretinos, também já reclamei do trânsito num ônibus lotado e de vidros embaçados (não, não peguei nenhuma doença venérea nessa ocasião), também já desejei cinemas e restaurantes sem fila, mesmo não podendo pagar muito por aquilo que chamam de exclusividade. Mas exigir, reclamar e desejar são uma versão adulta do esperneio infantil, são provas eficientes de que não somos donos de nossos próprios narizes, de que precisamos constantemente das miudezas atuais para nos sentir bem. Isso significa não deixar barato, não engolir sapo, não levar desaforo para casa, não deixar ninguém pisar no seu calo, não ser passado para trás e tornar-se, afinal e para todos, a última coca-cola do deserto. Em outras palavras, ser um sujeito urbano significa ser um nojo de auto-afirmação, significa ser mimado e achar que a cidade deve cumprir a função que no passado foi da senhora sua mãezinha. É uma doença, não há dúvida.

Claro que não são todos assim. Regras têm exceções. Mas cada exceção que conheço está neste momento fazendo as malas para viver num lugar decente e exercitando aquela paciência de formiga enquanto a mudança não é possível. Não são pessoas mimadas e poderiam viver bem em qualquer lugar. O que é inadmissível para elas é viver rodeado de pessoas barrigudas, fedorentas e cheias de sacolas plásticas que esperam ser tratadas como emires.

O problema não é ser barrigudo, fedorento e carregar sacolas plásticas. O problema é ser barrigudo, fedorento e carregar sacolas plásticas e querer ser tratado como um emir exatamente por ser barrigudo, fedorento e estar carregando sacolas plásticas.

Essa patota não é apenas mimada, ela se orgulha de ser mimada e de se atirar no chão para exigir seus direitos. Ela acha isso esteticamente aprazível, correto e bom, sobretudo porque a TV ensina que é assim que tem que ser — desde a novela até o “cidadania: você vê por aqui”. Se eu fosse mais fraco eu choraria toda vez que tivesse que exigir meus direitos. Um cidadão que exige seus direitos é a prova da decadência de um país. Não é apenas decadente, é feio pacas, porque logo você precisa criar lugares para as pessoas exigirem seus direitos, lugares que serão reconhecidos pelos computadores velhos, pela mobília ruim, pelas pessoas mal-humoradas e pelos funcionários mal pagos e treinados para repetir ad nauseam a frase “não posso fazer nada”.

Brigar um pouco menos, exigir um pouco menos, desejar um pouco menos não são coisas saudáveis apenas do ponto de vista budista, se alguém me acusar de estar puxando brasa para a sardinha dos orientais. São saudáveis em qualquer circunstância — e eu não sou budista. Se há algo realmente bom e importante neste mundo é não dar a mínima para o sistema. Isto não significa vestir roupas de couro e ler a coleção Baderna da Conrad. Você não precisa se desfazer de seu iPod, não precisa queimar o Código do Consumidor, não precisa nem mesmo balbuciar as mesmas ladainhas anti-qualquer-coisa que os terceiromundistas adoram balbuciar para explicar as pragas que os atingem todos os dias. Basta colocar-se em seu devido lugar, usufruir dos benefícios da cidade grande — oh, obrigado pela coca-cola gelada e pelo McCheddar — sabendo que você não depende deles, sabendo que a qualquer momento você pode sair por aí, sabendo que chá, caminhada e leitura não são a trindade de uma vida ascética, mas a vida ela mesma. E mesmo que você não se sirva dessa trindade, mesmo que você não se purifique e não cheire incenso e não reze para Buda, você sabe que há muitas outras trindades boas e todas elas são possíveis a você, porque afinal você sabe que você pode. A despeito do que a cidade berra todos os dias no seu ouvido, você pode.

Anúncios

2 comentários sobre “Crianças mimadas

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s