Um abacaxi de vantagens

Se eu fosse um sujeito ingênuo, eu ficaria surpreso com a leniência das otoridades para com as lorotas contadas pelos comerciais dos bancos. Ora, por causa de mentiras muito menores os comerciais de cigarros foram banidos e hoje as embalagens desses produtos trazem aquelas imagens horrorosas, que servem apenas para que a indústria do tabaco se torne mais e mais criativa (v. brindes e embalagens não descartáveis).

E os bancos? Proporcionam aos correntistas o prazer que o vício do fumo proporciona aos fumantes? A imagem de alegria e de ócio das propagandas de bancos corresponde em alguma medida — mí­nima que seja — à realidade do sistema bancário brasileiro? Você conhece algum correntista que vai ao banco porque gosta? Você conhece alguém capaz de sorrir quando diz “Eu sou cliente do banco X”? Alguma vez você já disse ou ouviu alguém dizendo “Urrú, hoje eu tenho que ir ao banco!”? Você sente prazer ao ficar preso numa porta giratória? Está ansioso para encarar mais 40 minutos numa fila?

Não? Então alguém me diga por que raios as propagandas de bancos não recebem um décimo da severidade e da antipatia que outros tipos de propagandas recebem, mesmo mentindo dez vezes mais.

Mas eu disse que a leniência das otoridades não me surpreendia. Eis um dos motivos.

Anúncios

3 comentários sobre “Um abacaxi de vantagens

  1. Assim você acaba com a minha profissão. hehehehehe

    Concordo, por outro lado, que dá pra ser mais criativo. Mas a campanha do Itaú é muito boa. Outras, como do Real, Unibanco, Bradesco e Banco do Brasil também têm mandado muito bem. E as do Citibank têm uma linha particularmente agradável.

    Não é à tôa que as marcas brasileiras mais valiosas são as de banco (se não me engano, entre as 10 marcas mais caras, 5 ou 6 são bancárias).

    O que acontece mesmo, e aí eu concordo contigo, é um total deslocamento entre o eixo da publicidade e dos fatos. Falta mesmo uma propaganda mais realista.

    abraço

  2. De fato, Raphael. Há propagandas de banco muito boas. Eles se propõem a transmitir uma imagem e a transmitem com clareza, objetividade e estilo.

    Gosto muito daquela em que dois homens andam numa estradinha e começam falando juntos exatamente o mesmo texto (Banco Real, acho) etc. Além de ser bem bolada, não recorre a mentiras descaradas.

    Todo o problema está no deslocamento da realidade. Aqui em minha cidade, os bancos mal conseguem cumprir a lei municipal que limita o tempo de espera nas filas. E não falta dinheiro. Falta boa vontade.

  3. Peraí, Raphael. Quando se fala de publicidade é impossível ser “mais realista”. Porque nada mais é do que esconder o ruim e exaltar o que é bom, belo e eficiente das empresas. E nem sempre o que é bom supera as “ruindades”.

    É uma questão interessante a se discutir, afinal o capitalismo se baseia na confiança, convém mais sinceridade das empresas anunciantes. A propaganda prefere passar uma idéia ideal do que seja o produto ou instituição, não o que ela representa realmente. É àquele conflito entre imagem e identidade.

    Um exemplo: nenhuma cia aérea veio à público se desculpar pelo caos aéreo. Mesmo que não tenham culpa pelo motim dos controladores, era uma obrigação se desculpar e deixar claro que não tinham nada a ver com isso, que eram vítimas, assim como os passageiros. Acredito que a que fizesse isso, estaria aumentando a credibilidade e o respeito junto à Opinião Pública. É sempre bom “dar satisfações” às pessoas.

    Ademais, o valor da “marca” de um banco se dá mais pelos seus lucros e planejamento comercial, pelo valor de negociação das ações, do que pela propaganda.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s