Para sobreviver em Ilhabela

De Bertrand Russel, “Conselhos para incompreendidos”, trecho do livro “A conquista da felicidade”:

    1) Um jovem inquieto e inteligente cujas idéias e aspirações não são aceitáveis em seu povo podem ser normais em outro lugar. Encontra esse lugar e te observa.
    2) Lutar contra opiniões contrárias é muito difícil. Se podes aceitar os preconceitos, idéias e costumes de teu entorno, faze-o; serás feliz facilmente.
    3) Se não podes aceitar os preconceitos, idéias e costumes de teu entorno, procura fazer que tua independência não pareça nem uma provocação nem uma crítica. Se te tomam por um excêntrico simpático, terás menos problemas.
    4) Sê prudente com a opinião pública, mas não demonstra ter medo dela.
    5) É possível que não sejas tão altruísta como crês. Disfarçar de nobreza as baixas emoções é um método comum para poder tê-las sem passar vergonha.
    6) Se teus méritos não são reconhecidos, pensa que teus críticos podem ter razão.
    7) Se és um incompreendido e persistes, tua atitude é heróica e fazes muito bem.
    8) Se te empenhas por vaidade ou capricho, estás sendo ridículo. É melhor que mude para outra atividade que te seja melhor.
    9) É praticamente impossível distinguir entre as duas possibilidades.

    (Orientação: se a aceitação, a notoriedade e o aplauso são para ti muito importantes, aplica-te o conselho 8. Se o que na verdade te importa é expressar o que há em ti, podes aplicar-te o 7. Mas tem cuidado, não te engane.)


Bertrand Russel não conhecia Ilhabela, mas suas palavras soam como se ele tivesse vivido aqui em seus anos de juventude. Ele concilia, nestas linhas, aquele egoísmo brando típico dos livres-pensadores com a necessidade básica de sobreviver num lugar (ou de sobreviver a ele).

Acho adequado reproduzir aqui esse trecho porque sei que há pessoas inteligentes em Ilhabela — e é a elas que esse mensagem se dirige. Muitas pessoas se isolam em suas respectivas atividades profissionais (ou na busca de uma que lhes baste para pagar as contas). Ocorre que às vezes esse isolamento não ocorre por opção, mas por falta de opção, justamente porque tudo e todos ao redor preferem o silêncio das pessoas inteligentes. É natural que seja assim; cuide de você mesmo antes de tudo e dê o exemplo, dizia o mestre. O que não é natural é que seja sempre assim, sobretudo quando um lugar declina moral e intelectualmente, quando a maioria das pessoas tolera excessivamente a ruindade. Ilhabela precisa de pessoas inteligentes; se estas pessoas não estão dispostas a agir, entende-se: a ação exige tempo valioso, estudo, disciplina, elaboração. Mas há sempre a oportunidade de se expressar. Dizer a coisa certa no momento certo pode significar a diferença entre ajudar na ascensão moral e cultural do mundo e pisar-lhe para que afunde um pouco mais no lodaçal de burrice e maldade.

Escritores costumam dizer que o texto “vaza” quando está pronto. E para escritores sempre há algo pronto na cabeça. A expressão, neste caso, acaba sendo tão natural e espontânea quanto beber água porque há sede. E é bom que seja assim. Não se trata apenas de ter uma opinião. Trata-se de saber. Muitos problemas surgem quando as pessoas acreditam que ter uma opinião é suficiente. Você “acha” que determinada coisa pode ser resolvida de uma determinada forma. Você “acha” que é bom transformar a cidade num canteiro de obras. Você “acha” que é bom malhar esta ou aquela gestão municipal ou você “acha” que ela é excelente. Você “acha” que tal sujeito é um excelente profissional ou que ele não presta — nem profissionalmente, nem como pessoa. Você “acha”. Mas achar não é saber. Esta cidade está cansada de opiniões. Opinião, todo mundo tem. Ter conhecimento é uma outra história. A diferença entre “eu acho” e “eu sei” está no conhecimento e no estudo. É a mesma diferença que há entre um semi-analfabeto e Aristóteles.

Pessoas inteligentes têm conhecimento e disposição para o estudo. Resta encontrar energia para expressar e transmitir aquilo que sabem. Bertrand Russel, como outros pensadores, dá algumas dicas de como seguir adiante. Elas são especialmente válidas para um lugar em que ter uma opinião dissonante significa perder o emprego, ser amaldiçoado ou antecipar seu exílio — ou as três coisas, uma após a outra. E se você conhece algum lugar que não seja assim, me conte. É para lá que eu vou.

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Um comentário sobre “Para sobreviver em Ilhabela

  1. acrescentando….

    ” Se te tomam por um excêntrico simpático”

    Estou lendo Camus e na Queda ele justamente fala da simpatia!

    Como há uma necessidade básica de carinho ele busca a simpatia.
    Que se consegue facilmente com um sorriso franco e um aperto de mão energético e “encontra-se mais facilmente e não exige nenhum compromisso”

    em outro trecho: “a amizade é distraída ou pelo menos impotente”.

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