Você, o arroz e o feijão

Christian Rocha
O Expressionista – 5 de junho de 2007

Dizem por aí — e a mídia repete ad nauseam — que “você é o que você come”. Algumas pessoas levam a frase às últimas conseqüências e produzem livros de dietas e alimentação, programas milagrosos para emagrecimento rápido. E há aquelas que anunciam alimentos como quem diz que descobriu o Santo Graal. Praticamente todos os dias há algum programa, matéria ou documentário a respeito do assunto.

Gordura e colesterol são perigosos. Alimentos integrais, ricos em fibras, são bons para a saúde. Beba pelo menos dois litros de água todos os dias. Não fume. Tenha uma dieta balanceada. Os imperativos decorrentes da idéia de que “você é o que você come” são inúmeros, embora eu ainda não saiba o que é uma pessoa que almoça sempre aquele PF naquele boteco ensebado ou aquela outra, que sempre recorre aos fast-foods para tornar possível sua fast-life. Ocorre neste dois casos precisamente o contrário. Estas pessoas são aquilo que elas são. O que elas comem depende do modo de vida que escolheram para si.

Um princípio elementar da nutrição é a idéia de que pessoas têm necessidades nutricionais distintas e estas necessidades variam conforme o biotipo, o modo de vida e as atividades que uma pessoa desempenha. Um atleta tem necessidades totalmente diferente das necessidades de um operador de telemarketing. Aquilo que cada um deles come é definido, apenas para início de conversa, pelo tamanho da fome que cada um sente depois de desempenhar as funções cotidianas.

Cultura e lugar também são fatores importantes. O operador de telemarketing almoça naquele restaurante por quilo porque o preço é bom, o lugar é limpo e perto do seu trabalho. Os alimentos servidos nesse restaurante são escolhidos em função da época, do clima, da safra, dos preços e do interesse médio dos consumidores por este ou aquele prato. E “comida italiana” soa de um jeito diferente de “PF para caminhoneiros” para ouvidos e paladares refinados. Aquilo que você come é conseqüência do que você é, não o contrário.

Sem dúvida é possível estragar um atleta apenas dando-lhe comida ruim. Sua vida sairá das academias e das pistas de corrida e terminará num sofá, diante de uma TV, ou numa cama de hospital. Ele pode se tornar um sedentário através da comida. Ele será aquilo que ele come. Mas veja: a decisão de comer junk-food todos os dias veio de algum lugar.

*
Em 2004 Morgan Spurlock lançou o filme “Super Size Me”. Spurlock submeteu-se a uma experiência nauseante: durante um mês alimentou-se exclusivamente nas lanchonetes da rede McDonald’s. Antes de começar a experiência que resultou no filme, Spurlock era um sujeito saudável. Depois da experiência, seu colesterol havia subido a níveis perigosos, ele tinha desenvolvido gastrite e vários outros problemas de saúde decorrentes da má alimentação.

Para a maioria das pessoas, tratava-se de uma prova definitiva de que lanchonetes fast-food servem comida ruim, que deve ser evitada a qualquer custo. E que, afinal, você é o que você come. Spurlock tornou-se um sujeito potencialmente doente porque passou a se alimentar exclusivamente de porcarias. Mas Spurlock provou apenas que comer sanduíches do McDonald’s todos os dias prejudica a saúde; concluir algo mais era forçar a barra da lógica elementar. O mesmo valeria para a comida tipicamente baiana, para uma dieta à base de produtos industrializados, para uma alimentação inteiramente baseada em doces etc. São situações extremas. Spurlock sugere conclusões corretas (McDonald’s faz mal à saúde) a partir de premissas erradas (é possível ter uma alimentação saudável comendo sanduíches do McDonald’s todos os dias). Ele ganhou uma briga pessoal com a rede, mas não me consta que o McDonald’s tenha amargado prejuízos desde então.

O que o episódio ensina é que uma pessoa pode submeter-se às rotinas mais esdrúxulas para provar afirmações não menos esdruxúlas. Spurlock demonstrou que não somos aquilo que comemos, não o contrário. Ele começou como um idiota saudável disposto a desafiar uma rede de lanchonetes e terminou como um idiota doente que de fato desafiou uma rede lanchonetes. Sua saúde se alterou, mas suas convicções não mudaram. Sanduíches gordurosos nada tiveram a ver com isso. Ao contrário, o ator-diretor ganhou dinheiro e notoriedade difamando uma rede de lanchonetes fast-food. Ponto para ele.

*
Ocorre no dia-a-dia uma obsessão nutricional semelhante à de Spurlock. Você pode cuidar da saúde preferindo alimentos mais adequados às suas necessidades, é claro. Você pode querer emagrecer e recorrer a shakes e outros produtos estranhos para isso. Apenas não coloque os alimentos no topo de sua lista de preocupações fundamentais. Eles são a conseqüência de uma série de outros fatores muito mais importantes, não a causa.

Por exemplo, bebo chá verde porque gosto. Dizem que ele traz diversos benefícios à saúde. Eu não sei. O que sei é que no inverno uma boa xícara de chá verde cai muito bem. No verão, chá verde gelado pode ser bem refrescante. Se você prefere mate ou café ou coca-cola, fique à vontade.

O mesmo vale para outros alimentos e hábitos alimentares. E assim deveria ser, já que quase todos os dias surge uma pesquisa científica que desdiz a pesquisa do dia anterior. O café era ruim para a saúde; hoje é bom. Carnes vermelhas eram veneno; hoje sabe-se que se deve comer esse tipo de alimento pelo menos uma vez por semana e que não há problemas sérios se você comer um ou dois bifes a mais nesse período. A soja, tida como super-alimento, já esteve envolvida em controvérsias bastante sérias. Recentemente descobriu-se que a gordura transaturada é uma das substâncias mais nocivas já inventadas pela indústria de alimentos. Já houve quem pregasse que o macarrão devesse substituir o arroz-com-feijão da mesa do brasileiro; muita gente comprou a idéia.

O que sei é que gorduras demais entopem veias e que o sedentarismo e o excesso podem ser piores do que uma alimentação ruim. A quantidade e o uso dos alimentos são tão importantes quanto sua qualidade. Meu paladar e meu estômago costumam avisar quando não comi algo bom e quando preciso deste ou daquele alimento — necessidades misteriosas não são exclusividade das grávidas, perceba.

Além de tudo, eu sou o que sou. Não me agrada saber que eu sou, por exemplo, “aquela” feijoada que comi sábado passado. Você é?

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s