Mateus 10,34

– É possível que este site fique chato daqui para frente. Eu decidi me dedicar ao Cristianismo. Não sei quando nem como, apenas sei que isso acontecerá. Voltei de minha viagem com uma edição de bolso do Novo Testamento e com Confissões, de Santo Agostinho, e por enquanto estudo estes dois livros. Muitas pessoas consideram o o Cristianismo chato porque você não pode ser cristão e ligar seriamente para a qualidade da pasta, para o que um petista diz ou para a última rodada do brasileirão. Em outras palavras, é possível que as coisas aqui fiquem chatas não porque esses assuntos menores desaparacerão, mas porque talvez eu não consiga mentir ao tentar dar a eles uma atenção que eles não merecem.

– Aliás, eu começo a entender os críticos da Bíblia — o que está longe de justificar-lhes alguma coisa; esta iniciativa tem que vir deles. O problema, todo ele, é que essas pessoas lêem a Bíblia e imaginam a complexa estrutura da Igreja diante delas: igrejas, padres e pastores, bispos, hóstias, batinas, cânticos e corais, hierarquias, missas, sermões etc. Estas coisas se baseiam na Bíblia, não o contrário. Além disso, as lições ali contidas são simples e, embora possam ser encaradas como algo gigantesco demais para uma simples ovelha, são coisas que o Pai diz para o filho. E assim elas devem ser recebidas: como dizem os zen-budistas, de “xícara vazia”. Pense nos grupos, nas seitas e nos templos se você sentir uma necessidade muito grande de se sociabilizar. Até lá, estude. Depois disso, continue estudando. Se você é um ateu incurável, ao menos siga o conselho de Pascal: conheça aquilo que pretende criticar ou negar.

– Nesta semana que fiquei distante de casa, vi — juro que vi — pixado num muro do Butantã: “Fuck USA”. Oh, yes. Noutras palavras: “eu uso o idioma daquele país, reproduzo o tipo de rebeldia típico de grupos nova-iorquinos, uso tintas e grafias em formatos inventados por norte-americanos e eu provavelmente uso os tênis daquela marca norte-americana, mas, enfim, fuck USA“. Porca miséria.

– Estive no cinema duas vezes, com minha namorada. Na primeira vimos A vida secreta das palavras, um dos filmes mais tristes e sutis dos últimos tempos. Depois vimos Lady Vingança, que é cruel e sanguinolento. Os dois merecem ser vistos. Mas não no mesmo dia, como eu e minha namorada fizemos. Filme bom é para saborear.

– Meu irmão me presenteou com a obra completa de J.S. Bach. São ao todo cinco DVDs com arquivos em MP3. Ele conseguiu os arquivos num desses programas P2P (tipo Kazaa, eMule etc.). Olavo de Carvalho disse uma vez que toda a música popular brasileira não chega aos pés de um compasso de qualquer obra de Bach. E é claro que ele não estava exagerando.

– Vi numa revista uma retrospectiva de Oscar Niemeyer. O arquiteto completa o centenário este ano — ainda vivo e ativo, isto é, falando bobagens e fazendo a mesma arquitetura que fazia antes de Brasília. A julgar pela idade, pela panfletagem pró-comunismo (suficientemente imbecil para fazer totalmente grátis um projeto de um monumento ao chavismo) e pela persistência nas esculturas inventadas seis décadas atrás, conclui-se que Niemeyer parou no tempo. Eis a receita para a longevidade: aferrar-se a um tempo e só sair dele quando nada nem ninguém lhe der mais qualquer tipo de atenção. Como fóssil vivo, o arquiteto comunista cumpre bem seu papel. Se ele fosse apenas arquiteto, apenas comunista ou apenas ancião, já teria virado pó. E depois dizem que ser conservador não é bom: Niemeyer prova que até quem conserva porcarias acaba sendo bem-sucedido.

– A literatura é uma prova de que a esquizofrenia pode ser rentável e divertida. Talvez não seja esta a justificativa para todos os livros, mas é a causa original de todos os escritores. Somos uns esquizofrênicos. Eu anotei mais algumas coisas a respeito disso; mais adiante talvez eu me estenda a respeito disso. Ou não. Vai saber.

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