Arquitetura e dignidade

Yacamin

A maioria das pessoas acha que o turismo é a atividade econômica mais importante de Ilhabela. Eu discordo. A atividade mais importante é a construção civil. Todo turista que vem para Ilhabela hospeda-se num hotel, numa pousada, numa casa de veraneio. Todo veranista quer ter uma casa em Ilhabela, quando já não a tem. Todo morador sabe a importância de encontrar um bom lugar para morar, num bairro tranqüilo e bem situado. E todos sabemos — embora nos esqueçamos às vezes — que tudo isso ocupa e modifica terrenos, gera entulho e esgoto, transforma a paisagem e modifica o desenho da cidade. Vale a pane refletir por alguns instantes sobre o trabalho de arquitetos e engenheiros nesta cidade.

1) Para a maioria dos arquitetos, o rigor formal e tecnológico dos modernistas é coisa ultrapassada. A eles foi somado um apuro regionalista, que se propõe a perceber os matizes que o lugar oferece. Ilhabela não recebe bem obras que lembram algo que não é daqui e os profissionais compraram essa idéia sem dificuldades. Mas falta algo: você realmente vê Ilhabela nas casas construídas aqui? Você diria que essas construções são ilhabelenses? Aliás, o que seria uma construção ilhabelense?

2) Não há nada de errado em fazer aqui uma arquitetura estrangeira. Todo arquiteto tem o direito de tentar fazer uma obra admirável para pessoas diversas — ilhabelenses ou não. Mas em que medida essa obra oferece respostas para as questões sociais, ambientais, paisagísticas, tecnológicas, urbanísticas e estéticas típicas de Ilhabela? A não ser que se trate de projeto conceitual e hipotético, toda arquitetura deve responder primeiro a estas perguntas. Senão, ela não será apenas estrangeira, será alienígena.

3) Não se trata, é claro, de ser regionalista, de revestir-se de uma cultura caiçara, de fazer pastiches dos ranchos de pesca. Grandes obras conseguem falar de temas universais lidando apenas com elementos regionais. O que há de mais norte-americano do que a Casa Kauffman, de Richard Neutra? E no entanto vemos nela todas as qualidades de uma obra-prima universal. Ela é norte-americana, sem que precisasse ecoar em suas linhas as tradições dos índios e dos colonizadores. Ela é universal, sem abandonar o que Palm Springs (California, EUA) tinha a oferecer.

4) Não obstante, é também uma questão de estilo, sim. Não, fazer “arquitetura caiçara” não ajuda. Pode ser simpático, mas não ajuda. Esqueça o neovernacular. Não se preocupe com o sapê, com a telha de barro, com o pau-falho. Apenas pense um pouco. Alguns destes materiais são tão estrangeiros quanto o concreto armado e o alumínio. Ao mesmo tempo, se a vida em Ilhabela é diferente da vida na capital, por que fazer aqui a mesma arquitetura feita na capital?

5) O fato desta ilha ter a maior parte de seu território ocupada por um parque estadual pode significar algo para arquitetos e engenheiros. A questão é: como?

6) Antes de projetar, pode ser de grande ajuda passar algumas horas na Trilha da Água Branca e responder honestamente: o seu projeto e o terreno em que ele será construído lembram em algo a exuberância desse lugar? Eles tornam esta cidade melhor?

7) Eu já nem discuto questões de adequação ambiental. Profissionalismo pressupõe que certas dúvidas elementares foram resolvidas no primeiro ano de faculdade. Não há por que discutir a produção, a redução e o destino de lixo e esgoto, o consumo de água e energia, o respeito aos limites sacrossantos do Parque Estadual. Tais coisas não se discutem, apenas se aprimoram e se cumprem. Em caso de dúvidas neste particular (como quando o proprietário e o construtor têm dúvidas sobre o que fazer com o entulho da obra ou sobre a melhor forma de fazer o esgoto chegar ao córrego mais próximo), o rigor da lei é sempre bem-vindo.

Estes sete itens podem levar à pergunta derradeira, que é o que realmente importa: sua arquitetura é digna de Ilhabela?

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2 comentários sobre “Arquitetura e dignidade

  1. Difícil huh? Essa pergunta remete à questão da identidade cultural/geográfica que uma arquitetura possa ter, que remete à busca desenfreada por ela em escala nacional e por força estatal, que culminou “sem querer” na escola carioca – segundo a versão de vocâ-sabe-quem – e sempre pra mim paira a dúvida se é possível que exista realmente algo como uma “escola ilhabelense”, e de onde quer que seja. Assim, acho ( como acho esse o mairo problema do brutalismo paulista) que se deixa pra segundo plano fazer arquitetura pra tentar fazer história, ao vivo e a cores.

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