Tudo é arquitetura

Canal Aberto – 20 de julho de 2007

Economistas tentam explicar o mundo através do dinheiro e das disputas econômicas. Para muitos deles as relações pessoais são reflexo de interações econômicas, mesmo as relações políticas, familiares e amorosas. Os economistas sabem que o dinheiro não traz felicidade, mas manda trazer.

Para muitos políticos, o mundo é feito de política. Disputas econômicas são uma face da disputa por poder político, que é feita de hierarquia, influência, partidos e cargos. Para esse pessoal, Maquiavel é uma espécie de profeta.

Para escorregar no tomate basta tentar explicar o mundo com duas ou três palavras. Alguns políticos e economistas fazem isso. Crianças em idade pré-escolar sabem que o mundo não é feito de uma única coisa. Apesar disso, tentar explicar o mundo com uma palavra pode ensinar coisas importantes. Funciona mais ou menos assim: você escolhe um elemento de que o mundo é feito e analisa a importância que isso tem, como isso se apresenta para você, para sua cidade, para seu país. Você imagina como seria se esse elemento não existisse ou se o mundo inteiro pudesse de fato ser feito dele. Dizer que tudo é política pode não ajudar a compreender o mundo, mas ajudará a compreender o que o mundo é para a política e, principalmente, o que a política é para o mundo.

Eu, por ser arquiteto, poderia dizer que tudo é arquitetura – ou engenharia e urbanismo. Não erraria totalmente, porque uma característica comum a todas as pessoas — de esquimós a paulistanos — é o fato de ocuparem um lugar no mundo e marcarem esse lugar com paredes, telhados, cultura e história. Você existe sempre em algum lugar e este lugar será sempre modificado pela sua existência. Basta pensar na quantidade de esgoto que você produz, os postes que levam energia à sua casa, as ruas pavimentadas que tornaram possível ter um armário no seu quarto. Se Descartes tivesse sido arquiteto em vez de filósofo e matemático, diria algo como “habito, logo existo”.

Em Ilhabela, como em boa parte do mundo, quem determina o desenho da cidade são arquitetos e engenheiros. Ultimamente, dinamite e motoniveladoras têm sido mais importantes para a cidade do que atobás e guapuruvus. E os profissionais sabem disso, porquanto permitem que seus clientes definam a forma que um lugar terá em vez de lhes sugerir precisamente o contrário – que o lugar, em sua condição original, possa ensinar algo ao cliente e, em seguida, a toda a cidade. É justo que os profissionais ajam dessa maneira; o cliente é que paga nossas contas. Mas ar puro, sol e água limpa não são menos necessários do que os honorários de um projeto. A beleza austera de áreas urbanizadas não é maior do que a beleza espontânea de cachoeiras e florestas.

Eis a diferença entre acreditar que tudo é arquitetura e refletir se tudo é arquitetura. No primeiro caso, o profissional mantém-se alheio àquilo que o lugar lhe sugere e pede. Projetar uma casa, reformar uma praça ou construir um conjunto comercial serão tarefas relativamente simples porque sua crença inicial o dispensará de reflexões mais profundas — a ignorância é uma bênção que conduz mais rapidamente à aprovação do projeto. No segundo caso, o projeto será um processo complexo e lento. Conclui-lo será difícil, mas compensador. O profissional reconhecerá a importância do projeto para o cliente, mas verá também a importância do projeto para cidade e para a paisagem. Indo além, verá a importância da cidade e da paisagem para sua obra e verá que a arquitetura, por mais despretensiosa que seja, não se resolve apenas num lote.

Decerto isto não significa que tudo seja arquitetura (para nós, arquitetos, é até bom que nem tudo seja arquitetura), mas significa que nossa responsabilidade é diferente daquela que costumamos imaginar. A terra, a luz natural, a água e o vento dependem da arquitetura tanto quanto a arquitetura depende desses elementos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s