Primeiro Mandamento

A dificuldade que o ascetismo representa para quem decide seguir seriamente o Cristianismo é compensada por sua simplicidade. O ascetismo cristão é simples de compreender e, portanto, simples de realizar. Ele pode ser resumido no Primeiro Mandamento: “amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento” (Mt 22:37). Deste mandamento decorrem os demais e os principais pilares da doutrina cristã, tais como enunciados, por exemplo, por Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino. A caridade, uma das virtudes cardeais para os cristãos, nada mais é do que ter a consciência de que todos somos filhos de Deus, perceber a origem comum de todas as pessoas, percebê-las como irmãs e agir conforme essas percepções. A raiz da doutrina social de Jesus está em seu teísmo e esta doutrina tem uma série de desdobramentos morais, espirituais e filosóficos.

Para quem não crê em Deus as coisas são um tanto mais complexas (perceba que não digo “difíceis”, assim como anteriormente eu disse “simples” em vez de “fácil”). Digo isso por experiência própria. Não por ser ateu, mas por ter vivido tempo demais inconsciente da existência e da importância do Primeiro Mandamento. Quando esquecemos dele perdemo-nos em caminhos diversos. Passamos a acreditar que o trabalho é a coisa mais importante do mundo, ou a família, o romance, o dinheiro e os bens, o corpo. É verdade que cada uma destas coisas pode ser tão digna quanto o espírito religioso que reconhece Deus como a Verdade Fundamental, e há sempre quem diga que elas podem ser um caminho para Ele. Não descarto esta possibilidade, mas lembro que no meu caso nunca foi assim. Ocorre que quem coloca uma destas coisas no altar de sua fé pode substitui-las por outra a qualquer momento (longo parênteses: este, aliás, é o argumento de diversos filmes: o sujeito dedicado ao trabalho e sem tempo para a família, ou o artista genial que se acaba nas drogas, ou ainda o nerd que perde as estribeiras etc.; entre eles, o ponto comum é justamente a facilidade com que alternam os objetivos de vida, porque os filmes sempre falam dessas coisas para narrar as transformações pelas quais os personagens passam, que é o que interessa). Afinal, essa substituição sempre acaba acontecendo.

Você prioriza sua carreira hoje, torna-se bem-sucedido, encontra sucesso e dinheiro. Passa algum tempo e você sente a necessidade de dedicar-se à família, que você constituirá em algum momento. Você casa, tem filhos, desdobra-se para lhes dar conforto. Depois que você encontrou realização profissional e familiar talvez surja a sensação de que falta algo. Você decide viajar ou ampliar seus bens, pensa na posteridade e na saúde, você compra uma casa na praia ou na serra, surgem os netos e o corpo definha. Finis. Tudo isso é bom, desde que você saiba aonde está indo, desde que todos esses caminhos não se anulem. Para que não se anulem, eles precisam ter uma raiz comum, precisam ser a realização terrena de um objetivo maior e comum.

Entraríamos aqui num terreno difícil, o da transcendência. Não gostaria de falar disso, simplesmente porque não domino o assunto. Tomo sempre aquela divisa de Confúcio: “Você sequer entende a vida. Como poderia entender a morte [aquilo que transcende a vida]?”. Falar de transcendência, de fé em Deus e de religiosidade é falar de vida. Trata-se de tentar entendê-la, de saber por que fazemos o que fazemos e o que nos move, afinal, a fazer tais e quais coisas, e fazê-las bem. Quando sabemos o que nos leva a realizá-las, quando percebemos que há elementos comuns a coisas aparentemente desconexas, avançamos um passo na direção da transcendência. Cristãos diriam que esse tipo de compreensão é um dos caminhos para a comunhão com Deus; Teillhard de Chardin dizia que “tudo que sobe converge”. A transcendência se realiza na consciência individual, na percepção individual e silenciosa de nossos atos, de suas causas e conseqüências. Não é necessário perguntar-se o tempo todo sobre o sentido da vida, basta saber que a vida possui um sentido e que ele se realiza através de atitudes tão diversas quanto o trabalho e a higiene pessoal, passando pela conquista do conforto material, pelo estudo constante, pelos cuidados dedicados à família.

Você pode não crer na existência de Deus. Esteja à vontade. Mas se você acredita que seus atos têm conseqüências; se você busca unidade nos diferentes elementos que compõem sua vida; se você se dedica a tornar-se melhor sem ver nisso qualquer tipo de competição; nestes casos você está menos distante d’Ele do que imagina.

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