Brasil, o filme

Quando eu era moleque, um dos filmes mais aterrorizantes que vi na TV foi “Invasores de Corpos”. Vou tentar resgatá-lo de minha memória de vinte e tantos anos atrás e resumi-lo: seres de outro planeta invadem a Terra e começam a tomar o lugar dos seres humanos. Enquanto a vítima dorme o ser extraterrestre toma conta de seu corpo e cria uma espécie de casulo em torno dela. Do casulo surge um clone extraterrestre da vítima. Ao longo do filme, os extraterrestres dominam toda uma cidade e a história gira em torno de um casal que luta com unhas e dentes para não dormir e manter-se longe dos ETs. O filme termina de forma ainda mais aterrorizante, num grito ao melhor estilo “Psicose”, quando a mocinha percebe que o mocinho já foi clonado e se vê sozinha e desesperada, com a certeza de ser a próxima vítima.

Essa enrolação tem uma razão de ser (não, não espero que você assista essa clássica refilmagem de um filme B).

Eu leio artigos de pessoas que estudaram, que são razoavelmente esclarecidas; eu acompanho os jornais, que são feitos por pessoas com inteligência no mínimo mediana; mantenho-me atento às atividades políticas; formadores de opinião, jornalistas e alguns políticos não bebem Varsol, não rasgam dinheiro, não comem cocô, mas são capazes de falar muita, muita merda — e eu chego a ter dúvidas sobre essas três negativas. Alguns exemplos tornarão as coisas mais claras.

– Sabemos que o Brasil é um país cheio de problemas. Qual a melhor solução? Criar mais Estados e gastar 11 bilhões de reais, claro. Nada melhor do que criar novas Assembléias Legislativas, nada melhor do que escoar mais dinheiro público para as mãos de pessoas sábias e eleitas democraticamente para cargos que não existiam antes e que foram criados com o objetivo sublime de fazer este país dar certo. Certo? É claro que sim, minha gente. O país vai funcionar muito melhor quando tivermos o Maranhão do Sul (situada toda ela nos cafundós do Maranhão), a Gurguéia (conseguiram achar um nome mais ridículo que Piauí), Carajás e Tapajós (para dividir aquela monstruosidade que exporta açaí, música ruim e jaders barbalhos), Mato Grosso do Norte (e o do Leste? e o do Oeste? espere e verá) e São Francisco (onde o rio faz a curva).

– Eu lia com alguma freqüência o blog de Daniel Piza no Estadão. Encerrei o RSS de seu blog ao ler o artigo que ele publicou na edição impressa de domingo passado. Deparo-me com o seguinte trecho:

“Nesse aspecto, me sinto mais à esquerda, porque sou radicalmente defensor da democracia, da liberdade de expressão e dos direitos civis, do indivíduo em vez de classes ou etnias.”

Jesus Cristo. Em que planeta esse sujeito vive? Governos de esquerda são historicamente reconhecidos — por quem tem olhos para ver, claro — por não darem a mínima para os direitos civis, para o indivíduo, para a liberdade de expressão. Que isso não se manifeste atualmente com um departamento sebento de um Ministério dedicado a passar a caneta em roteiros e artigos antes deles serem publicados, é mero acidente, um fortuita conseqüência de nosso tempo, o que no fim das contas torna o trabalho de manipular a cultura um pouco mais sutil e mais danoso do que seria se tivéssemos uma censura truculenta e de três queixos.

– Desnecessário falar de Marilena Chauí. Basta reler o que postei recentemente. Hors-concours. Mas talvez valha a pena mencionar, en passant, o neo-peleguismo do portal de notícias do iG, que deu espaço às empulhações daquela senhora. Quem quer que dê vazão a palavras como estas

“a mídia e setores da oposição política ainda estão inconformados com a reeleição de Lula”

merece chafurdar no Opinião Popular. Ou que fique no Conversa Fiada, mesmo. Eu não estou inconformado com a reeleição de Lula. Estou inconformado com o fato do ex-sindicalista não ter se dado conta do que é ser um presidente, mesmo depois de reeleito.

– Ligo a TV e vejo matéria sobre exclusão digital. O fato de ricos e brancos usarem os centros de acesso gratuito à internet mais do que os pobres e negros é definido como discriminação digital. Como assim, “discriminação digital”? O computador sente o cheiro de pobre? O computador sabe diferenciar a raça do usuário? É claro, “exclusão digital” é uma expressão segura, simples tradução de um fato; era fundamental ir além, era necessário usar uma expressão que explicasse as verdadeiras causas da exclusão. As pessoas excluídas são excluídas porque são discriminadas — e são discriminadas nesses centros porque são pobres e negras. Simples como rasgar uma página do dicionário. Se o espectador não se abalava com “exclusão digital”, ele irá se abalar com “discriminação digital”. Mas não temam, as estatísticas não mentem: se nesses centros os negros são minoria é mister fazer algo por eles. Em breve teremos cotas raciais para acesso à “rede mundial de computadores” (como alguém consegue usar essa expressão diante das câmeras sem cair na risada?). A matéria não falou de cotas, mas tem o kit pronto para quem quiser comprar.

– Roberto Mangabeira Unger, intelectual e professor de Harvard, publicou um artigo no Estadão em 2005 em que pedia a cabeça do presidente. Este ano Mangabeira Unger foi convidado para ser ministro da SEALOPRA (Secretaria de Assuntos de Longo Prazo, que tem status e salários de ministério). Aceitou o convite, aparentemente sem qualquer constrangimento. Além de ter engolido em seco o diploma e o artigo que escreveu dois anos atrás, o novo ministro parece já estar bem adaptado ao novo cargo.

Eu poderia citar outros exemplos. Mas essas coisas cansam. Se é cansativo reler essas coisas para listá-las aqui, imagino para o leitor que gentilmente chegou até este parágrafo.

A impressão que tenho cada vez que acompanho as idéias e os fatos deste país é que as pessoas estão sendo substituídas por seres estranhos. Não que seja possível imaginar que D. Marilena já foi diferente do que é hoje. O que mudou foi a tolerância para com discursos absolutamente idiotas. Como no passado as pessoas não toleravam coisas desse tipo, pessoas como a professora da USP e o jornalista do Estadão limitavam-se a falar de assuntos para os quais haviam sido educadas. Hoje não. Não apenas essas pessoas falam dos assuntos mais diversos e exóticos — o jornalista fala com a mesma fluência sobre futebol, artes plásticas e política, a filósofa fala da inexistência de uma crise noticiada diariamente e lança livros de culinária (pensando bem, isto não é má idéia), políticos simplesmente falam sem pensar —, como ao redor há uma legião disposta a reconhecer valor nelas e com elas lançar-se ao abismo (Lc 8:27-30).

Se o Brasil fosse um filme, ele seria “Invasores de Corpos”: sono profundo e permanente, substituição de consciências, dominação. Infelizmente o filme não terminou, tampouco as luzes se acenderam.

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