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Christian Rocha
Canal Aberto – 10 de julho de 2007

catracaA edição passada deste Canal Aberto trouxe matéria sobre a condição de alguns quiosques das praias de Ilhabela. Construções irregulares, documentos inexistentes e fiscalização ineficaz são algumas peças de um moto contínuo cujas principais vítimas são as praias. Logicamente, os quiosques não são os protagonistas do processo de destruição do meio ambiente, mas pode-se considerá-los como os holofotes que fazem perceber esse processo de forma mais clara. Terrivelmente clara.

Que a construção civil é a atividade mais importante do município, disso ninguém duvida. O que poucos sabem é que, se isso é verdade, é verdade também que os profissionais do setor imobiliário são tão importantes quanto os do setor de turismo e serviços. Se nestes setores tudo e todos se combinam para que o meio ambiente seja preservado, espera-se que a mesma atitude seja comum em qualquer atividade imobiliária — da construção à regularização de casas, pousadas e quiosques, incluindo o trabalho de arquitetos, mestres-de-obra e corretores de imóveis. Mas quando dizem que Ilhabela tem a maior reserva de Mata Atlântica do Brasil e quando nossos emissários divulgam as praias da cidade nas feiras internacionais de turismo, esquecem de dizer isso aqui dentro, especialmente para os profissionais do setor imobiliário.

Sim, é fundamental educar crianças, ensiná-las o valor dos bens naturais de Ilhabela. Mas quem detona praias, cachoeiras e trilhas hoje não são crianças. São adultos, profissionais, pessoas com um mínimo de massa cinzenta e senso do ridículo. Se estas pessoas não podem ser educadas da forma tradicional, que sejam educadas na base da chinelada, através da aplicação da lei.

Ocorre que ninguém sabe qual rumo deve tomar. E se não sabe sua origem e seu destino, não saberá o que fazer aqui, neste momento — muito menos entender a lei e aplicá-la. A despeito da vocação do município para o desenvolvimento de atividades mais adequadas às suas qualidades naturais, há mais de duas décadas este lugar segue firme ocupando cada metro quadrado permitido por lei (e alguns não permitidos). Ilhabela aposta mais em muros de pedra, em caminhões de areia e pisos de porcelanato do que em praias, matas e trilhas. E neste particular a divisão entre iniciativa privada e poder público definitivamente não ajuda a inocentar ninguém. A faixa de marinha que o diga.

É verdade que há corridas de aventura, competições de vela, atividades que murmuram nas entrelinhas: “ei, este lugar é bom do jeito que é, não é necessário construir nele”. Mas isso é quase nada. Ilhabela tem mais corretores imobiliários do que guias turísticos, mais arquitetos do que mergulhadores, mais engenheiros do que velejadores. O tão falado paraíso ilhabelense deixou de existir quando o número de “investidores” ultrapassou o número de moradores.

Há dois rumos possíveis. Nenhum deles depende mortalmente da construção civil para existir, assim como praias e banhistas não dependem de quiosques para conviver em harmonia. Podemos privilegiar o turismo artificial, baseado em estruturas, estabelecimentos e eventos; ou podemos privilegiar o turismo ecológico. Os dois caminhos têm vantagens e desvantagens. Se a idéia é fazer turismo artificial, falta um planejamento que dispense o mar-sem-fim de canteiros de obras, construções e placas de venda e aluguel de imóveis e que mostre que terra é lugar, não objeto. Se se pretende fazer turismo ecológico, também falta planejamento e a noção da importância que coisas elementares (água limpa e silêncio, por exemplo) têm para a cidade e para o turismo. Nos dois casos falta pé-no-chão e sobra aquele deslumbramento desvairado típico de quem descobriu o paraíso. No fim das contas, esse tipo de gente só quer uma coisa: poder cobrar ingresso.

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