Fazer bonito

Baepi Ilhabela

Christian Rocha
Canal Aberto – Setembro de 2007

É fácil fazer bonito, difícil é fazer feio. A frase é atribuída a Lina Bo Bardi, arquiteta que sabia fazer bonito, claro. Se o seu MASP é um caixote com quatro patas e aspecto bruto, o Sesc Pompéia, também dela, é um espaço aconchegante, simples e humano. Nos anos 40, Oscar Niemeyer atreveu-se a escolher o caminho da beleza numa época em que o máximo da vanguarda era usar linhas retas e livrar-se de toda preocupação estética. O atrevimento resultou no conjunto da Pampulha, em Belo Horizonte, reconhecido até hoje como uma de suas melhores obras.

Lina Bo Bardi morreu em 1992. Niemeyer, embora continue vivo, transformou o ofício em lengalenga comunista, resultando em obras de qualidade duvidosa. O que aconteceu com Niemeyer acontece mais facilmente com todo nós, não apenas arquitetos. Em algum momento substituímos a busca da beleza por preocupações ridículas.

Aniversário é o momento de lembrar da importância da beleza. Quando uma pessoa faz aniversário, ela lembra de sua história, inconscientemente avalia sua própria vida e faz com que a comemoração seja uma passagem para uma fase nova e melhor. Organiza-se uma festa, prepara-se um bolo e o desejo comum é que estas coisas sejam bonitas. É um dia de tirar fotos. Por que? Porque é bonito, porque as pessoas se vestem bem, porque o momento é digno e porque o bolo é gostoso. É um dia para ser lembrado.

Quando uma cidade faz aniversário, algo parecido acontece. Costuma-se celebrar a história do lugar, seus patrimônios culturais, os edifícios e lugares importantes. Há diversos rituais que marcam a data. Para Ilhabela, a proximidade do Sete de Setembro faz com que seu aniversário seja enriquecido com desfiles públicos, fanfarras e festividades diversas. Todos querem fazer bonito nessa época do ano. Políticos preparam discursos especiais para a data. Estudantes ensaiam para os desfiles. Na infância não havia dúvidas sobre a importância da beleza: a professora nos dizia “faça um desenho bem bonito” e esta era a senha para nos dedicarmos ao máximo àquela atividade.

Todo o problema está em abandonar no resto do ano o objetivo primordial de fazer bonito, tão comum e indiscutível num aniversário. Se um aniversário merece ser comemorado e lembrado, tem-se a impressão de que os outros dias devem ser esquecidos. Beleza virou sinônimo de adorno, de algo que se adiciona depois que está tudo pronto, como as volutas das colunas gregas e os enfeites de creme dos bolos de aniversário. Mas perceba: não há colunas gregas sem volutas e os bolos enfeites de creme parecem menos saborosos.

“O que é belo?”, alguém pergunta. A resposta é longa e difícil. É suficiente dizer que se o sujeito vive em Ilhabela e pergunta esse tipo de coisa é porque é burro ou malicioso. Neste caso, questionar a beleza não passa de retórica para poder entrar na mata com facão em punho ou para fincar estacas no Parque Estadual. Pilatos fez igualzinho quando perguntou “o que é a Verdade?” e todos sabemos como a história terminou. Portanto, não seja cínico.

Belo é um morro sem casas e uma praia limpa. Mas, você dirá, casas são necessárias, assim como alguns quiosques na praia; a paisagem vai mudar de qualquer forma. Nestes casos, como conciliar a necessidade de construir uma casa num morro e a maravilha que é um morro verdinho, sem qualquer construção? Como conciliar o conforto de beber cerveja gelada na praia e a importância de mantê-la (a praia, não a cerveja) intacta?

A resposta é “faça bonito”, coloque a beleza no topo de sua lista de prioridades. Tome a beleza como princípio e fim — ao projetar, ao trabalhar, ao ensinar, ao viver. Onde a beleza não existe, que ela seja criada. Onde ela existe, que ela seja mantida. Simples assim.

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2 comentários sobre “Fazer bonito

  1. Lá no Banquete, Sócrates dizia que a dona Diotima lhe explicou que a beleza nada mais é do que a procriação do belo. Já Sêneca diria que a vida é curta para aqueles que só vêem a beleza em um dia, uma hora ou em um minuto. Afinal, “pequena é a parte da vida que vivemos, pois o restante não é vida, é tempo. Apresse-se em viver bem!”. Isso nos remete aos orientais que certamente diriam: a beleza é impermanente.

    Contudo, ainda é preciso pedir para fazer bonito? rs

    Bom, belo texto, Chris! Como de costume.

  2. Ultimamente tem sido necessário pedir para fazer bonito. Quando se fala em crise, não se percebe que há uma crise estética séria. Talvez ela pareça menos importante que outras crises — fala-se em corrupção, saúde, segurança. Talvez ela realmente seja menos importante, mas dúvidas me surgem quando circulo por cidades tão diferentes como Ilhabela e São Paulo. É tudo absurdamente feio — das panças à mostra aos camelôs nas calçadas, dos sanduíches sebentos às casas fortemente muradas.

    Valeu, Diogo!

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