Edifício Santa Catarina

Nas artes em geral é comum o discurso salvar uma obra ruim — ou pelo menos atenuar a ruindade. Gerald Thomas deve ter tido suas razões para mostrar a bunda para o público uns anos atrás (sem trocadilho) e o público deve ter tido suas razões para ir vê-lo. Naturalmente a aceitação da obra levou em conta o personagem do próprio diretor e seu discurso. Obra, criador e platéia se mereciam, afinal.

No caso da arquitetura as coisas podem ser um tanto diferentes. De um modo geral, a possibilidade de o discurso compensar a má qualidade da obra é inversamente proporcial à sua materialidade. Obras de arquitetura são indiscutivelmente materiais. Ainda que isso não inviabilize os discursos, eles podem soar patéticos diante daquilo que se vê e se usa.

Essa introdução pretende servir de base para observar a obra mais recente de Ruy Ohtake, o Edifício Santa Catarina, na Avenida Paulista, e a matéria sobre essa obra na Revista Projeto. Para não tornar o post longo demais:

— O projeto, como se vê na imagem acima, previa a colocação de brises no recuo dos níveis 4 a 6.
— A obra não possui os brises.
— A ausência dos brises quebra a unidade do edifício proposta pelo projeto. Embora o desenho original parecesse um desodorante roll-on high-tech, essa unidade era interessante e compactuava com a própria história da avenida, que é uma espécie de parque temático da arquitetura paulistana.
— O arquiteto faz referência aos diferentes recuos dos edifícios ao longo da avenida, o que pretende justificar o recuo nos níveis 4 a 6 e também no térreo.
— A matéria na Revista Projeto diz apenas que o recuo é interessante por quebrar a homogeneidade das fachadas dos edifícios da Avenida Paulista (como acontece no edifício-sede SESI-FIESP), sem no entanto explicar por que o projeto foi modificado, tampouco dizer por que os brises não seriam uma boa opção.

O edifício é feio. Sem os brises, o recuo nos níveis 4 e 6 causa a sensação de que o edifício está inacabado. É notável o contraste entre a laje branca do nível 7 e a fachada envidraçada e escura do restante do edifício. A sensação é que a exclusão dos brises não foi uma opção de projeto, mas um acidente de percurso. O prejuízo estético é notável. No projeto, a idéia era suavizar o recuo com os brises, o que daria unidade ao conjunto e manteria a idéia de uma fachada heterogênea e incomum. Na obra, isso não ocorre.

Não tenho esperanças de que o discurso possa salvar o Edifício Santa Catarina, mas fico curioso para saber o que realmente aconteceu. Não se trata de discutir uma obra específica de Ruy Ohtake, mas de compreender como a paisagem urbana é desenhada e quais motivos levam a esta ou àquela opção.

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3 comentários sobre “Edifício Santa Catarina

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