Por uma vida sem surpresas

É lugar-comum pensar que tudo era melhor antes. O passado é sempre melhor do que o presente, porque agora você sabe mais ou menos como é o futuro dele. E o presente oferece constantemente a perspectiva aterradora de um futuro que jamais será conhecido e que você só conhecerá quando for tarde demais.

Mas tento pensar nisso de uma forma mais serena, ponderando se de fato havia coisas melhores, por exemplo, 20 anos atrás. Havia.

Hoje, por exemplo, lembrei do Jornal da Tosse, o antigo Record em Notícias, telejornal que ficou famoso pela idade avançada de sua equipe de comentaristas (daí o apelido). Eu raramente o via; ele era transmitido por volta do meio-dia, horário em que eu saía para a escola ou assistia a algum programa mais apropriado para minha idade. Mesmo com o horário e mesmo que você o visse antes de almoçar, o Jornal da Tosse dava muito sono. O tom de voz grave e monótono e a ausência de desentendimentos entre os comentaristas faziam pensar numa refeição fria e sem sal.

Passados vinte anos, começo a perceber que havia valor na monotonia e na falta de tempero daquele noticiário, tanto que hoje ligo a TV na esperança de não ter surpresas nem sobressaltos. Na verdade o que cansa é a sensação de perseguir o destino. Ser pego de surpresa e ter sobressaltos significa que o destino está escapando pelas suas mãos. Nestes momentos você pode vê-lo correndo muitos metros adiante.

*
A melhor frase que conheço é “Não tenho novidades”. É um sinal de que as coisas vão bem, de que você conduz sua rotina como melhor lhe convém. É possível planejar nessas circunstâncias, subir um degrau de cada vez, perceber que hoje você está um passo à frente de onde estava ontem, exatamente porque sabe onde estava ontem — conhecimento que só vêm com uma rotina livre de sustos. No fundo, o que se quer é isso: viver sem sustos.

O Jornal da Tosse me deixa alguma saudade por isso. Havia nele a tranqüilidade que busco hoje. Que isso estivesse ligado à minha condição na época — criança raramente se preocupa com algo –, não reduz o valor que dou às coisas que dizem que o tempo na verdade passa mais devagar do que imaginamos e que os acontecimentos importantes não estão na TV.

Anúncios

2 comentários sobre “Por uma vida sem surpresas

  1. “A melhor frase que conheço é “Não tenho novidades”. É um sinal de que as coisas vão bem, de que você conduz sua rotina como melhor lhe convém. É possível planejar nessas circunstâncias, subir um degrau de cada vez, perceber que hoje você está um passo à frente de onde estava ontem, exatamente porque sabe onde estava ontem — conhecimento que só vêm com uma rotina livre de sustos. No fundo, o que se quer é isso: viver sem sustos.”

    Olá Christian, já faz um tempo que visito seu site, e já encontrei algumas coisas que já me serviram pra entender e explicar certas impressões e percepções. Mas nunca antes encontrei algo que explicasse, ou melhor, que respondesse à altura a pergunta mais corriqueira que tenho ouvido ultimamente, e que geralmente me deixa desconcertado: “E aí, quais as novidades?”.

  2. Obrigado pelo comentário e pelas visitas freqüentes, Rodrigo.

    *
    Diante de muitas perguntas eu lembro daquela frase de Confúcio: «Eu não procuro saber as respostas, procuro compreender as perguntas». E penso que um bom começo para responder a pergunta que você citou é perguntar (e perguntar-se) o que leva uma pessoa a querer saber das novidades alheias.

    Ademais, deveria existir uma vacina contra novidades. Deveríamos perseguir o que é bom, não o que é novo. Mas isto fica para um outro post.

    *
    Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s