Pelo direito de explodir gente

carlos marighella terrorista
Na legenda lê-se: “Marighella discursa no Congresso Continental de Solidariedade a Cuba, realizado em Niterói, em março de 1963″. A primeira versão do Foro de São Paulo?

No final de 2003 escrevi à redação de um jornal de minha cidade criticando as homenagens prestadas a Carlos Marighella, notório terrorista, espécie de Guevara brasileiro. Infelizmente o texto e a discussão que se seguiu perderam-se num dos servidores em que eu hospedava este site naquela ocasião, mas reproduzo aqui uma parte da réplica que recebi:

“A guerrilha não é um fim, é uma contingência, e algumas das mais admiráveis figuras políticas do século XX, no Brasil e no mundo, por ela passaram.”

“Contingência” aqui significa “fato imprevisível ou fortuito que escapa ao controle; eventualidade”. Eu tento imaginar uma guerrilha contingencial, acidental, mas não consigo. Guerrilha pressupõe alguma organização, em que normalmente poucas coisas podem fugir ao controle. As últimas coisas que poderiam ser contingenciais são a decisão de iniciar uma guerrilha, participar dela e tornar-se guerrilheiro. Estas coisas nunca serão uma contingência.

Faz parte do discurso da esquerda justificar seus crimes com os argumentos da inevitabilidade, da contingência e do efeito colateral. Somados, significam que os fins justificam os meios.

A tréplica incluía um trecho do próprio manual, que confirma a idéia que expus:

“É necessário que todo guerrilheiro urbano mantenha em mente que só poderá sobreviver se estiver disposto a matar os policiais e todos aqueles dedicados à repressão. E se está verdadeiramente dedicado a expropriar a riqueza dos grandes capitalistas, os latifundiários e os imperialistas.”

E depois disso a discussão terminou.

*
Hoje, para minha surpresa, o assunto voltou à tona.

Recebi este link numa das listas de que participo. O site aparentemente é um portal sobre direitos humanos, sediado em Natal. O link, como vocês poderão notar, oferece ao internauta a íntegra do “Manual do Guerrilheiro Urbano”, de Carlos Marighella.

Pergunto-me o que a obra de um terrorista faz naquele portal e qual a relação entre dois temas tão distantes (direitos humanos e terrorismo). Fiz as perguntas também aos responsáveis pelo site, a quem enviei a seguinte mensagem:

Eu li direito?

Gostaria de saber o que o “Manual do Guerrilheiro Urbano”, do terrorista Carlos Marighella faz num site de Direitos Humanos.

Se se trata de uma “psicologia inversa”, isto é, um bom exemplo de um péssimo exemplo, o livro deveria ser apresentado por um texto que deixasse essa intenção clara.

Se não se trata de “psicologia inversa”, isto é, se o objetivo é realmente divulgar as idéias (?) de Marighella e fazer apologia do terrorismo, então talvez seja o caso de nós, internautas, começarmos a nos preocupar com o que é apresentado sob o rótulo de “direitos humanos”.

Aguardo esclarecimentos.

Assim que surgirem, e se surgirem, reproduzo neste site.

*
O fato em si — o contraste entre as intenções declaradas do portal e a obra divulgada — não impressiona. Vejam, por exemplo, esta matéria, de onde veio a imagem que ilustra este post. Trata-se de uma página do jornal da Unicamp que divulga uma tese de doutorado sobre a influência de Cuba sobre a esquerda brasileira. Diante da apresentação da matéria

Historiador mostra que Fidel e Che inspiraram amplos setores da sociedade e não apenas a luta armada.

…pode-se imaginar o teor da pesquisa. O verbo “inspirar” diz tudo. As universidades públicas brasileiras não se cansam de prestar homenagens aos assassinos cubanos e às suas crias mais ilustres — como se já não bastasse a barafunda dos livros didáticos.

(meus agradecimentos ao Ericson pelo link do DHNet)

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