Prudência e sabedoria, virtudes cardeais

arte de prudencia


O livro definitivo foi escrito há quase dois mil anos. Toda a sabedoria necessária à vida está contida na Bíblia. Isto, no entanto, seria um pouco injusto com os livros que foram escritos depois. Muitos ecoam a sabedoria universal contida na Bíblia e em muitos outros livros, de diversas tradições. É o caso do “A Arte da Prudência”. Escrito em meados do séc. XVII pelo padre jesuíta espanhol Baltasar Gracián, “A Arte da Prudência” pode ser visto como um manual de sabedoria mundana. Embora tenha sido inspirado na vida nas cortes espanholas, trata-se de um livro atual, atemporal e realista. Gracián escreveu um guia para sábios, um livro que fala do espírito e das relações humanas em todos os tempos.

Para Gracián, a sabedoria é a virtude fundamental, mas o jesuíta começa seu livro reconhecendo a dura tarefa que tem diante de si: “Mais se requer hoje para um sábio que antigamente para sete”. Ele reconhece também a importância da sorte, do tempo e do lugar – fatores que fogem ao controle dos mortais comuns: “Nem todos tiveram o tempo que mereciam e muitos, ainda que o tivessem, não conseguiram aproveitá-lo”. Apesar disso, Gracián sabe que o destino depende das escolhas do indivíduo. No aforismo XXXIV ele diz: “Conhecer seu principal atributo, o dote relevante, cultivando-o e ajudando os demais”. Sócrates dizia, muitos séculos atrás, “Conhece-te a ti mesmo”.

Sob muitos aspectos, “A Arte da Prudência” lembra “O Príncipe”, de Maquiavel. O que difere as duas obras é aquilo que as move. Maquiavel é cínico e anticristão; não evita propor expedientes imorais para atingir objetivos amorais. Gracián segue em direção oposta e diz que é possível viver bem, com sabedoria, ética e prudência, ainda que reconheça os riscos que este mundo oferece. A última lição que Gracián nos deixa em seu “A Arte da Prudência” segue precisamente esta direção: “A virtude é elo de todas as perfeições, centro das felicidades. Torna o sujeito prudente, atento, sagaz, cordo, sábio, valoroso, recatado, íntegro, feliz, aplausível, verdadeiro e universal herói. Três S fazem a felicidade: santo, sadio e sábio. A capacidade e a grandeza se medem pela virtude, não pela fortuna. Só ela basta a si mesma. Vivo o homem, torna-o amorável; morto, memorável.”

(publicada no Diário do Litoral Norte, em outubro de 2007)

Baixe o Oráculo Manual y Arte da Prudencia, texto original em espanhol.

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