Arranha-céus e panças à mostra

robocop
E você acha isso bonito?

Assim como é moralmente adequado fazer o bem e evitar o mal, também é esteticamente aprazível que se esconda ou se modifique o que é feio e se mostre ou se coloque em evidência o que é belo — resolvidas as questões de pudor, claro. Exemplos sempre ajudam:

Panças à mostra não são algo atraente, embora possam dizer algo sobre a liberalidade da pessoa que os expõe e essa liberalidade atraia certas espécies de gente. Mesmo que a pessoa em questão encontre sucesso em sua busca — se é que se trata de uma busca –, ela se fecha à possibilidade de um sucesso maior, mais ligado às suas reais qualidades. Decerto essa pessoa tem algo melhor do que uma pança para mostrar.

Não vejo grande êxito em encontrar uma pessoa capaz de admirar o que você tem de mais grotesco: você se sentirá estimulado a manter essa ruindade e não verá suas próprias qualidades, que perecerão sob rosários de elogios mal dirigidos. A moral, ao fim e ao cabo, é que não vale a pena ser belo, não vale a pena aperfeiçoar aquilo que em você é bom de verdade. Além de tudo, a qualidade é algo relativo, não?

O perigo da felicidade obtida através da admiração da feiúra está na cegueira que ela causa para as coisas belas. É assustador imaginar que se pode encontrar felicidade através da feiúra.

Você pode ser feliz, por exemplo, bebendo pinga e ouvindo pagodes laiá-laiá, mas o valor dessa felicidade depende do conhecimento que você tem de chás japoneses e do espresso italiano, da editação e da arte cavalheiresca da conversação, da música clássica e do tango. Você pode recusar todas estas coisas e ficar na pinga e nos pagodes laiá-laiá, mas pelo menos saiba por que as prefere, saiba que há todo um mundo ao redor dos seus gostos.

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Essa pequena introdução servirá de base para o que direi a seguir, sobre arranha-céus, cidades e sobre as pessoas acostumadas a viver nesses lugares.

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Antes, devo dizer que chamo de arranha-céu todo edifício alto demais para ser apreciado com um golpe de vista. Um edifício torna-se um arranha-céu lá pelo quarto pavimento (térreo mais cinco pavimentos), quando a sua altura normalmente ultrapassa as duas dimensões de sua base, tomadas individualmente.

Cidade é qualquer lugar que tem mais construções do que espaços vazios. Ainda que, como diria o taoísta, é o vazio que torna a cidade útil, ela continua a ser construída e ocupada, mais ou menos como o sistema cardiovascular é ocupado por placas de colesterol e o sistema digestivo, por comida.

Pessoas são as formigas que fazem esses lugares existir e funcionar — arranha-céus e cidades. Você se desloca por uma cidade porque há pessoas asfaltando ruas, dirigindo ônibus e o alimentando. Você trabalha num arranha-céu porque conseguiu se deslocar até ele, porque pessoas garantem o suprimento de energia elétrica e, afinal, porque a tecnologia (fruto da inteligência e capacidade de outras pessoas) permite que o arranha-céu exista.

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Arranha-céus são construções feias. Eles partem de dois pressupostos especialmente ruins para quem quer que preze a beleza das cidades.

O primeiro diz que é bonito alçar grandes alturas e que existe um valor inerente ao simples fato de poder olhar a cidade de um ponto de vista que naturalmente nunca existiu. Você está no topo — ou no quinto ou sexto andar — e isso é bom e suficiente. Você não está apenas rodeado de paredes que o protegerão do barulho, da poluição e da violência. Você está nas alturas. Há exclusividade e segurança (física e emocional) nisso.

O segundo pressuposto diz que arranha-céus são objetos interessantes, bonitos e contemporâneos — enfim, a vanguarda da estética urbana. Grandes fachadas envidraçadas simbolizam mil coisas. O azul tem a ver com a cor do céu. O jogo de volumes pretende destacar este arranha-céu dos demais. Aquele reflexo mostra a cidade de uma forma inusitada. O concreto representa a solidez de nossa corporação. A simetria reporta ao classicismo. As curvas suavizam a severidade do aço. As linhas retas reforçam a idéia de estabilidade. Mas espere: falamos de construções, não de tratados de estética. Discursos são divertidos, mas não alteram aquilo que o edifício é de fato.

Não pode haver beleza onde os pressupostos são infantis ou irreais. É infantil crer que há valor no simples fato de o sujeito estar localizado numa coordenada xyz que antes não existia. É irreal o sujeito admirar-se com um objeto cujo valor depende de relações que ele e o próprio objeto ignoram.

Há muito mais num arranha-céu do que diz a própria construção e a arquitetura. Arranha-céus são as panças da cidade à mostra. É o mau gosto aliado ao exibicionismo.
Surpreende que tantas pessoas admirem arranha-céus. Surpreende mais ainda que arquitetos admirem essa tipologia de construção e que publicações especializadas lhe dêem atenção ao ponto de dividi-la em temas (edifícios corporativos, recorde mundial de altura, edifícios residenciais etc.), de postular sobre seus projetos e, desde os arranha-céus de vidro de Mies van der Rohe, dizer amém a tudo que obrigue a olhar para cima. Não estou falando de catedrais góticas, evidentemente. As agulhas na direção do céu não são o mesmo que o escritório lá no alto. Há diferenças entre olhar o dedo e olhar aquilo que o dedo aponta. Arranha-céus são o dedo que no máximo aponta os umbigos de seus criadores e proprietários.

Surpreende também que as mesmas pessoas que admiram arranha-céus muitas vezes são as mesmas pessoas que hoje correm para o “campo” porque as cidades têm arranha-céus demais. Surpreende que elas sejam capazes de elogiar aquilo de que fogem hoje e que entendam por “campo” algo que está muito aquém de algo que elas mesmas, com esses elogios, ajudam a destruir. Lembrando que a Alphaville de hoje não é melhor do que a Avenida Paulista do início do séc. XX.

E, surpreso com tantas coisas, só consigo pensar que a maioria das cidades não vale a pena porque é feia, porque admite que há beleza em construções e objetos que são feios desde que foram inventados e porque são construídas todos os dias — e noites — com base nesse mau gosto.

Publicado n’O Expressionista em 6 de novembro de 2007

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13 comentários sobre “Arranha-céus e panças à mostra

  1. Achei muito bem colocado a crítica em relação aos arranha-céus. Sou estudante de Arquitetura e Urbanismo na Puc de Campinas, e o que sinto é que cada vez mais estamos nos afastando da Arquitetura como Arte ou como beleza. Aprendemos como construir mais em menor espaço ou aumentar a área construída e diminuir a altura, ou seja as universidades estão infectadas, ensinando para os alunos a serem no final das contas consumidores irracionais. Minha faculdade não faz o aluno pensar arquitetura, mas sim consumir arquitetura, consumir concreto armado, consumir conceitos ultrapassados, sem o menor questionamento. Isso me preocupa profundamente, porque se a arquitetura está assim hj nas cidades temos que modificá-las é na base, e a base são as universidades!! gostaria q entrasse em contato para quem sabe ano que vem podermos agendar uma palestra na Pucc para abrir novos horizontes para os estudantes.

  2. Eu até entendo sua crítica. Contudo, além de ver beleza sim em muitas dessas construções, há um importante fator a ser considerado, relativo à geografia das cidades, que envolve ainda questões econômicas e ambientais: se não houver construções desse tipo, as cidades crescerão ainda mais no sentido horizontal, o que implica em mais desmatamento. Penso que, por tais razões, as cidades tenderão a crescer mais no sentido vertical. No entanto, devo parabenizá-lo pelo excelente texto. É muito bom ver um ponto de vista defendido com o primor da boa redação. Um abraço!

  3. André,

    antes de tudo, obrigado por seu comentário e por suas palavras gentis. Fique à vontade para comentar sempre que quiser. Seja bem-vindo.

    Sobre seu comentário:

    O desmatamento está mais ligado a um modo de vida do que a uma tipologia arquitetônica. Uma cidade verticalizada necessariamente ocupará menos chão, mas implicará um modo de vida “atabalhoado”, isto é, opressivo (no sentido físico, não sociológico) e até mesmo insalubre.

    A cidade verticalizada estimula modos de vida que são muito mais nocivos ao meio ambiente do que os modos de vida encontrados nas cidades horizontais. A cidade verticalizada parece não ter limites e as metrópoles mostram que elas de fato não têm.

  4. Christian, eu errei ao usar o termo ‘desmatamento’ (porque não é somente isso o que ocorre). Talvez, para ser mais amplo, o melhor fosse dizer ‘maior degradação dos recursos naturais’.

    Não cconcordo com sua afirmação de que ‘A cidade verticalizada estimula modos de vida que são muito mais nocivos ao meio ambiente do que os modos de vida encontrados nas cidades horizontais’. Veja: imagina cidades como São Paulo, Nova Iorque, Tóquio, Cidade do México. Se horizontalizadas (vamos entender ‘horizontalizadas’ uma cidade onde o prédio mais alto não possa ter mais que 10 andares, apenas como hipótese para esse pequeno debate), essas cidades terão muito mais bairros e ruas. Haverá maior tempo de deslocamento entre casa e trabalho para parte considerável dos trabalhadores. Além disso, essas distâncias também resultarão em maior consumo de combustível e, não raro, em maior poluíção do ar.

    A maior extensão de asfalto e pavimentação pdoerá implicar em mais calor e, certamente, implicará em maior consumo de recursos naturais (petróleo, material de construção etc.).

    Os serviços urbanos terão maior custo. Polícia e bombeiros terão que ‘cobrir’ uma extensão maior de terra, o que implicará em mais pessoal. O mesmo pode se dizer sobre pavimentação, calçamento, iluminação, distribuição de cabos, serviços de correios, entre outros.

    Tudo isso elevará os custos públicos da cidade, o que provavelmente seja pago com aumento de impostos. Se a cidade ‘terá fim’ visível na vertical, sua infinitude ocorrerá na horizontal.

    A longo prazo, as cidades se encontrarão com outras cidades, formando megalópoles repletas de problemas sociais.

    Em muitos casos, haverá uma elevação do valor do imóvel, já que em cada terreno serão construídas poucas unidades imobiliárias (o que diminui o lucro do construtor).

    A administração pública tenderá a descentralizar parte das tomadas de decisões, por meio de prefeituras locais, elevando a ocorrência de corrupção.

    Se quem mora em Niterói-RJ, já perde quase 4 horas para se deslocar de casa para o trabalho (ida e volta), imagine você se o Rio de Janeiro estivesse ‘horizontalizado’ (na hipótese sugerida acima). Nesse caso, parte das pessoas que hoje residem no centro (e também parte das empresas que ali se encontram), estaria residindo em algum bairro distante.

    Eu já li alguns livros de arquitetura urbana e entendo que a preocupação seja com a escassez de árvores, poluição centralizada, escassez de espaços de lazer, entre outras coisas. Mas não acredito que, pesado a relação custo-beneíficio, a horizontalização se mostre mais positiva.

    Óbvio que a verticalização, principalmente em países pobres, gera unidades imobiliárias ‘insalubres’ (de tão pequenas). E também concordo que não deve haver construções gigantescas (como o COPAN (em Sampa) ou do ‘Empire State’ (NY). Mas também não sou a favor das cidades horizontalizadas que se formam, por exemplo, na periferia de Brasília, que hoje já ameaçam seriamente a fauna, a flora e as fontes de água locais.

    Um abraço.

  5. André,

    Quando digo que uma cidade horizontal permitiria modos de vida diferentes eu me refiro inclusive a estruturas e hierarquias urbanas diferentes daquelas que, por exemplo, induzem à constituição de um único centro, ao transporte motorizado individual e à própria especulação imobiliária.

    O fato de uma cidade desenvolver-se de forma mais dependente do solo pode levar inclusive à sua limitação, como ocorre em muitas cidades pequenas.

    Trata-se de uma utopia, claro, mas que propõe avaliar as cidades que estão plenamente verticalizadas e aquelas que se mantiveram horizontais, seja naturalmente, seja pela força da lei.

    O que houve ao redor de Brasília sem dúvida é péssimo exemplo, mas acho importante o fato das cidades-satélite serem, como o nome sugere, dependentes da capital federal. Elas não foram elaboradas e não se desenvolveram como cidades independentes (urbana, econômica, social e culturalmente). Isto é decisivo para qualquer cidade, seja ela vertical ou horizontal.

    Suas objeções à horizontalidade são válidas na medida em que essa horizontalidade é criada ao redor de um núcleo vertical. São Paulo é exemplo disso: uma cidade originalmente vertical ao redor da qual crescem condomínios horizontais afastados do centro. Neste caso há forte especulação imobiliária e sobrecarga do sistema viário. Esses empreendimentos não foram propostos como unidades independentes, como bairros completos (com comércio e serviços) com os quais os moradores podem se relacionar, mas como dormitórios e áreas de lazer apenas.

    Na verdade, o que estraga uma cidade não é a horizontalidade ou a verticalidade, mas a homogeneidade. A questão é avaliar quais fatores ou padrões (horizontal, vertical etc.) induzem mais facilmente à homogeneidade. É a homogeneidade que estimula a concentração de torres de escritórios em uma determinada parte da cidade, a favelização de outras, a especulação imobiliária, a política de grandes obras etc.

    *
    Obrigado, André.
    Abraço!

  6. Reli todo seu texto e a discussão gerada, na tentativa de entender melhor os argumentos. Veja que você começa criticando estética. Já eu não me centrei na estética e sim nos efeitos prático-econômicos da questão. Afinal, cidades e edifícios são bem mais que questão de ‘feio’ ou ‘bonito’. No entanto, nessa nova leitura, resolvi também falar sobre o ‘arranha-céus’, especificamente.

    Isso porque, quando você diz: ‘Não pode haver beleza onde os pressupostos são infantis ou irreais. É infantil crer que há valor no simples fato de o sujeito estar localizado numa coordenada xyz que antes não existia’, parece desprezar as relações de poder – que nada têm de irreais – inerentes a essas construções.

    A expressão arquitetônica gigantesca como símbolo de poder nem é moderna (e eu sei que você sabe disso). Os impérios da antigüidade clássica já faziam uso desse recurso para demonstrar força. Hoje isso apenas ganhou novas conotações. Se você pegar seu diploma de arquitetura e abrir um escritório num centro comercial de dois pavimentos, nos confins de Jardim Ângelo, certamente vai ganhar muito menos dinheiro do que se o mesmo escritório estiver na Av. Paulista, em um prédio de 30 andares. Só esse mero fato de localização vai fazer com que seus clientes o vejam de outra forma. Vão lhe atribuir sucesso ou fracasso, antes mesmo de conhecer seu trabalho. A isso a filosofia chama de ‘objeto construído’.

    A televisão tem isso. Uma mentira dita no Jornal Nacional ganha força de verdade absoluta. Já a ciência veiculada na TV Cultura sequer é ouvida. Mas a mesma ciência veiculada no Discovery Channel é aplaudida por milhões de pessoas, todos os dias. E ‘tadinho’ do professor secundário que, mesmo estando certo, tentar desmentir o Discovery.

    Mas, voltando à nossa discussão,… a centralização se inicia – penso eu – por conta da localização dos prédios públicos. Depois é intensificada porque, sendo o centro o local naturalmente mais movimentado, os comerciantes tentam ali se instalar, para estarem mais próximos ao maior número de clientes potenciais.

    Nesse ato de ‘instalar-se’(e aqui estou me referindo apenas a prédios comerciais e públicos) muita coisa é levada em consideração. Entre elas, segurança. Seu escritório em Jardim Ângelo correrá mais riscos de arrombamento que o outro, na Av. Paulista, principalmente se estiver no 30º andar. Na Av. Paulista você estará mais propenso a ter a Votorantim como cliente. Já em Jardim Ângelo, terá, no máximo, pessoas que vão pedir para você lhes decorar a sala de jantar, a um preço módico, dividido em dez vezes, pago com cheques que vão ‘bater e voltar’. Então, o ‘arranha-céu’ é poder. E poder real, traduzido em sucesso profissional e, claro, financeiro.

    Daí que sequer concordo com essa comparação, na qual você associa ‘arranha-céus’ a ‘panças’. Eu já li um texto que usava uma analogia parecida, mas, infelizmente, eu não podia debater com o autor. Agora posso. A ‘pança’ é associada ao desleixo, à falta de amor próprio, ao pouco cuidado com o físico. O ‘arranha-céu’ não. Ele está associado diretamente a sucesso, arrojo, poder,… faz o cliente pensar que quem ali se instala desconhece limites. É um símbolo marcante do capitalismo. Por isso mesmo, Bin-Laden derrubou as ‘torres gêmeas’, ao invés de algum prédio de dois andares numa ‘Springfield’ qualquer.

    Um abraço!
    .

  7. Não penso que casos pessoais sirvam para esse tipo de discussão. Ainda assim, vou citar o meu: durante 15 anos tive escritório de consultoria econômica em Brasília. Mas, como consultor de menor porte, desses que nunca conseguiu intermediar uma venda de empresa estatal, meus escritórios sempre foram modestos, instalados em comércios locais, nas asas Sul ou Norte de Brasília, o que não se pode dizer que fossem exatamente mal localizados.

    Em 2001, no entanto, tive a coragem de mudar meu escritório para o Setor Comercial Sul (maior centro comercial e financeiro de Brasília). Apostei alto. Mudei o escritório para um conjunto de duas salas amplas, no quinto andar do prédio do Citybank, de frente para a Av. W3 e, claro, para o shopping Pátio Brasil. Não troquei nenhum móvel. Mantive tudo conforme antes. Porém, os clientes entravam e diziam espantados: ‘nossa, você agora está bem!’. Resultado: o faturamento anual foi multiplicado por 5. Ao conjunto de clientes, que eram apenas locais, foram agregados corporações internacionais como a JICA (Japonese International Cooperation Agency) e, no âmbito nacional, o Conselho Nacional da Indústria.

    Isso tudo, basicamente porque troquei uma sala na 710 Norte, pelo Setor Comercial Sul. Isso não explica a força da localização e dos ‘arranha-céus’?

    Hoje troquei tudo isso por Guarapari. Mas não por conta de achar feio. É que, entre 2001 e 2005, trabalhei tanto que adoeci. Agora quero sol e mar. Mas não posso negar que, em 5 anos de boa localização, ganhei mais dinheiro que nos 10 anos anteriores.

    Daí que posso entender perfeitamente porque os centros são tão procurados e, também, porque os ‘arranha-céus’ têm tanto poder.

    E, a propósito, esse que você expôs na postagem – que eu nem sei onde fica -, é belíssimo!
    .
    .

  8. André,

    novamente, obrigado pelo seu comentário e pelo depoimento — muito interessante para o tema em questão.

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    Na verdade, embora eu tenha discorrido sobre questões práticas em meu comentário, o artigo, de fato, não trata disso. É questão de gosto e eu não tenho a esperança de ser levado a sério pelas pessoas que já se acostumaram com arranha-céus, com a verticalização e com a forma como as cidades são construídas.

    A comparação entre arranha-céus e panças (ou qualquer coisa desagradável o suficiente para ser mantida longe das vistas) surgiu de uma constatação bastante preocupante: a maioria das cidades seria mais bonita sem os arranha-céus. A primeira vez que notei isso foi olhando para a orla de Santos desde a praia: o paredão de edifícios simplesmente não merecia estar ali.

    Não conheço Guarapari mas imagino que seja parecido com Santos nesse aspecto. A maioria das cidades litorâneas acostumou-se a ter um paredão de edifícios na orla. Imagine aquele sítio sem o paredão.

    Uma forma possível de medir a beleza de um edifício é imaginar a condição original do sítio em que ele se encontra — isto é, imaginar como era o lugar quando não havia o edifício.

    Concordo com você quando diz que existem mais variáveis envolvidas na construção, no uso e na apreciação de um arranha-céu. Arranha-céus são símbolos — de poder, sobretudo. No entanto, o fato do edifício ser eficiente no que diz respeito ao retorno financeiro, à simbologia de um poder e ao design arquitetônico não exclui a possibilidade de avaliá-lo sob critérios mais amplos, mesmo que meramente estéticos.

    O que quero dizer, resumindo e retomando o exemplo citado, é que os edifícios da orla de Santos não são mais bonitos do que o manguezal que existia ali antes deles serem construídos. E se para erguer-se ele sacrifica uma beleza maior, sem recuperá-la ou superá-la, que valor há nisso?

    É possível que a lógica valha para qualquer edifício. Se ele não melhora o lugar, se não o torna mais bonito e aprazível, se ele só beneficia o lote e seus proprietários, por que construí-lo?

    *
    O edifício que ilustra o post é uma torre de escritórios do arquiteto Carlos Bratke. Esse edifício foi apelidado de “Robocop”.

  9. Christian,

    agora sim nos entendemos. Nesse sentido sim, o ‘arranha-céu’ ganha conotação negativa: quando se mostra um ‘bicho estranho’ ao meio ambiente.

    E Guarapari é mesmo como Santos. Tem uma ‘selva de pedra’ entre o mar e as montanhas. Agora, edifício não pode mesmo ser comparado a manguezal. Mesmo porque, para manter intacta o que você chama de ‘beleza maior’, provavelmente teríamos que suprimir os seres humanos.

    Talvez a nova geração de arquitetos e engenheiros – essa geração à qual você pertence – possa retomar, em linhas modernas, o estilo de Galdi, cujas construções pareciam ter maior integração com a natureza.

    De qualquer forma, fico muito feliz de perceber que você não está se formando apenas para ser um mero ‘fazedor’ de coisas. Noto, por suas preocupações e sensibilidade que, antes de tudo, você é um pensador, um filósofo.

    Imagino que esteja se formando em uma Universidade Federal, pois são as federais que formam pensadores. E isso é de suma importância.

    Para mim foi muito construtivo nosso pequeno debate. Aprendi muito com suas argumentações e vou refletir mais sobre tudo isso. Gostei muito do seu blog e, vez por outra, estarei aqui lendo e comentado as postagens.

    Sucesso pra você.

    Grande abraço!

    André L. Soares.
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  10. Bom tenho um pergunta que não quer calar, e por motivo de curiosidade acabei encontrando este blog no google. Minha pergunta é simples e creio que você ou alguém que mora aqui em Campinas poderá me dar uma resposta sobre a dúvida.
    vamos para a pergunta.

    Existe a real possibilidade de construção de um arranha-céu em Campinas, e que seu nome seria Babel, o maior edífio da America Latina?

    Me desculpe se não me expresei bem na pergunta, mas é que como sou leigo no assunto fico mas como o curioso da histório.

    Desde de já agradeço.

    Att.

    Alexsander Mechi

  11. Hoje, deitei-me um pouco e subitamente vi algo que entitulei de cidade do amanhã. São verticais e também horizontais no sentido ambiental, ecológico. O estético faz parte, mas o eclético é obrigação, pois somos seres multifacetados em todos os aspectos, principalmente no que diz respeito às necessidades e urbanamente falando, uma cidade não é nada simples, tanto mais no sentido sustentável. Tudo é perfeitamente conciliável quando se equilibram o fundamental, o economicamente viável, o estéticamente aceitável, enfim, com uma boa dose de inteligência e bom senso na hora de criar. Ainda não estou estudando arquitetura, mas mesmo sendo leiga, já li um pouco e observo bastante. Acredito que a arquitetura evoluirá com as necessidades ambientais para um modelo sustentável, ainda mais eficiente do que se fala hoje ( o começo disso tudo), pois não dá para ser diferente. Enquanto houverem megalópoles e outras lópoles mais, não teremos como viver aos moldes de cidades do passado, não dá mais, Esse modelo já se foi, O que importa é que encontraremos um jeito de tornar tudo isso menos insalubre, pois a arquitetura é para Humanos.

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