Questão de ordem

leviatã
O Leviatã. Olhe-o de perto e verá que ele é feito de pessoinhas — em todos os sentidos.

Dizem que o problema é educação. Eu discordo. O problema é hierarquia e ordem. Dirão que a desordem e o esfacelamento da hierarquia são causados pela falta de educação. Eu concordo, mas lembro que não é necessário ir muito além da alfabetização para cumprir deveres e exercer direitos. Até cachorro sabe o que não pode fazer.

Digo isso porque desisti de orientar pessoas comuns sobre gestos simples do dia-a-dia. Antes eu as orientava, por exemplo, a deixar seus cães em casa em vez de levá-los à praia. Pedia gentilmente para o pedestre não andar na ciclovia — para sua própria segurança. Suplicava para o sujeito não atirar latas de cerveja no mar. Em todas as ocasiões eu me vi a um passo de ser agredido. De repente percebi: eu não preciso fazer isso, não preciso me expor ao ridículo das agressões verbais e ao risco das agressões físicas, não preciso cumprir uma tarefa que não é cumprida por aqueles que a têm como responsabilidade formal.

De hoje em diante pretendo fazer aquilo que poucos consideram útil e frutífero: reclamar. Ainda que a prefeitura de minha cidade ignore minhas mensagens, meus telefonemas e reclamações, eu as farei, em quantidade e com precisão. Continuarei agindo corretamente. Darei o exemplo.

*
O que falta à sociedade civil organizada (ONGs, OSSIPs etc.) é a percepção de que eles pagam impostos e que existem pessoas que recebem esse dinheiro para fazer algo que não estão fazendo. Quando uma ONG arregaça as mangas e faz ela própria algo que o poder público não cumpre — e que é responsabilidade dele –, está também concordando com sua ineficiência. Lê-se nas entrelinhas: “Não se preocupe, Estado, nós cuidaremos disso”. Ainda que a maioria das ONGs não seja lá um primor de eficiência, muito menos de boas intenções, seria suficiente se elas cumprissem uma tarefa relativamente simples e essencial: fiscalizar o poder público, cobrar dele o cumprimento de suas responsabilidades, exigir aquele mínimo previsto na lei.

É fácil imaginar o que aconteceria. A lei, tal como foi escrita, não pode ser cumprida. O acesso universal a serviços públicos de qualidade é uma loucura. Talvez o ponto seja precisamente esse: diante de cobranças para cumprir a lei, o Estado verá dois caminhos. O primeiro, rever os direitos e os deveres fixados pela lei. O segundo, baixar impostos para transferir parte da responsabilidade para a sociedade — isto é sempre bom, desde que seja seguido por aquilo.

Eu admito certos desvios do Estado, sobretudo porque não tenho conhecimento e poder para me contrapor a elas. Corrupção, por exemplo, é um assunto que me entedia. Sessões de Câmara me dão sono ou coceira. Não me obrigue a participar dessas coisas, acompanhá-las de perto, trabalhar para organizar a cidade em que vivo. Eu quero apenas que o Estado cumpra suas atribuições. Impossível? Então eu quero o meu dinheiro no meu bolso, eu quero uma prefeitura enxuta e com menos poder. O que não dá é querer fazer as três coisas ao mesmo tempo: o Estado não pode descumprir suas atribuições, confiscar meu dinheiro e ainda por cima ter um poder crescente. Irresponsável, ladrão e petulante — nem o mais simplório dos trabalhadores consegue viver sendo desse jeito.

De hoje em diante, tratarei o Estado como trato meus cães. Uma chinelada de vez em quando não faz mal algum.

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