Ser budista

buddhism zazen

Eu não pretendo falar sobre o que é ser budista, definir o budismo do ponto de vista de sua prática por um sujeito comum como eu. Sei quase nada a respeito disso além das Quatro Nobres Verdades e do Caminho Óctuplo, jóias que considero tão preciosas quanto o Sermão da Montanha. O objetivo deste breve texto é refletir sobre o que é “pertencer” a uma religião ou segui-la e o que leva uma pessoa a declarar-se como sua seguidora.

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Há de início uma diferença importante: ser budista é o mesmo que seguir os preceitos budistas? Certamente não. Uma religião é mais do que uma doutrina: há rituais, instituições, templos, líderes e hierarquias. Seguir uma religião significa concordar com tudo estas coisas e envolver-se com elas. Envolver-se significa: participar dos rituais, freqüentar templos, manter contato com os líderes e submeter-se à sua orientação.

Se você não é um monge, não tem acesso a uma monge, nunca conversou com um monge e todo seu conhecimento sobre o budismo limita-se aos livros, lamento, você não é budista. Você pode ter uma afinidade muito grande com o budismo, pode estudá-lo com disciplina, meditar todos os dias e, mesmo assim, não ser budista. A pessoa não será melhor ou pior por essa razão; ela pode ser um autodidata no budismo e ir além do diletantismo. Ela apenas não é budista. Ela apenas não faz parte daquilo que a religião é — a despeito do que alguns mestres budistas dizem sobre a importância de encontrar uma senda pessoal e manter-se nela.

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Há um ditado que diz que mais sábio do que quem ouve as palavras do mestre e lhes dá atenção é aquele que as pratica. Jesus, por exemplo, dizia:

Este povo honra-me com os lábios; o seu coração, porém, está longe de mim. Mas em vão me adoram, ensinando doutrinas que são preceitos de homem. (Mt 15: 8-9)

Num trecho do Kalama Sutra, do próprio Buda, pode-se ler:

Tenhais confiança não no mestre, mas no ensinamento. Tenhais confiança não no ensinamento, mas no espírito das palavras. Tenhais confiança não na teoria, mas na experiência. Não creiais em algo simplesmente porque vós ouvistes. Não creiais nas tradições simplesmente porque elas têm sido mantidas de geração para geração. Não creiais em algo simplesmente porque foi falado e comentado por muitos. Não creiais em algo simplesmente porque está escrito em livros sagrados; não creiais no que imaginais, pensando que um Deus vos inspirou. Não creiais em algo meramente baseado na autoridade de seus mestres e anciãos. Mas após contemplação e reflexão, quando vós percebeis que algo é conforme ao que é razoável e leva ao que é bom e benéfico tanto para vós quanto para os outros, então o aceiteis e façais disto a base de sua vida.

Buda e Jesus diziam que o mais importante era o espírito do discípulo, a forma como seu coração colocava-se diante dos ensinamentos do mestre. Foi por este motivo que eu disse acima que seguir uma religião ou não segui-la não define a qualidade do religioso. Há santidade dentro das religiões, há santidade também fora delas. Mas pertencer e seguir uma religião ao ponto de poder declarar-se como seguidor dela pressupõe fidelidade e atenção a muitas coisas além das lições essenciais dessa religião.

Em quase todas as religiões tradicionais vale essa regra. No catolicismo, por exemplo, é católico não apenas quem segue os ensinamentos de Jesus, mas também quem lê a Bíblia, quem estuda o catecismo, vai à missa, lê as encíclicas do Papa etc. Não existem católicos defensores do aborto, da eutanásia, da pena de morte e da legalização das drogas — pois estas causas contrariam as bases da doutrina católica.

O ponto importante não é declarar-se seguidor desta ou daquela religião, posto que existem diferenças evidentes entre estudar uma religião e segui-la de fato. O que importa e o que merece ser analisado a partir daqui é o desejo que algumas pessoas têm de se declarar isto ou aquilo.

Perguntaram-me recentemente se eu era budista — foi isto, aliás, que me moveu a escrever estas linhas e o que eu disse nos parágrafos anteriores foi mais ou menos o que eu disse à pessoa que me fez a pergunta. Embora tivesse achado estranho, compreendo o fato de que certas religiões criam uma imagem específica nas outras pessoas. O budismo, no ocidente, é associado à serenidade, à ponderação, ao equilíbrio — fala-se, por exemplo, “tal sujeito é zen” justamente porque ele pareceu ter essas qualidades. O cristianismo evangélico é associado ao fanatismo — embora muitas pessoas não se dêem conta, quando falam disso, das diferenças entre o fanatismo dos evangélicos e o dos muçulmanos, por exemplo. O judaísmo é associado a tradições seculares e familiares.

Decerto perguntaram-me se eu era budista porque causei uma impressão próxima da imagem a que o budismo é associado e por praticar uma arte marcial que assumidamente preza valores semelhantes aos do budismo. Ocorre que estas coisas, como eu disse antes, não fazem um budista. Assim, essa busca por budistas e o desejo de declarar-se como tal — se estas coisas realmente interessam — deveria vir depois (em prioridade, não necessariamente em tempo) de uma busca pessoal pelas próprias raízes do budismo, do estudo diligente e, sobretudo, da prática daquilo que o budismo ensina.

É evidente que o ritual constrói a crença e por isso há enorme valor em seguir algumas religiões. Mas a crença não deve sobrepujar o valor da fé e da experiência mística (definições que ficarão para outro escrito). Talvez assim as religiões (não apenas o budismo) sejam caminhos de libertação, ascese e iluminação.

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Original da imagem aqui.

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