Música para o domingo

Semana passada não pude postar o Música para o domingo porque estava me recuperando de uma gripe devastadora. Não conseguia pensar em procurar músicas no YouTube simplesmente porque não conseguia respirar direito. Felizmente tudo está melhor agora.

chaconne ciaccona bach

A edição de hoje é dedicada a uma única música. A Chaconne, o quinto e último movimento da partita nº 2, para violino, BWV 1004, de Johann Sebastian Bach.

Quem já ouviu a Chaconne sabe que não é uma música, mas a música, um dos pontos altos da obra de Bach, peça de envergadura comparável à Paixão de São Mateus e as Variações Goldberg.

Originalmente, a chaconne (ou ciaccona) é uma dança espanhola rica em variações e, também por isso, tecnicamente exigente para o instrumentista. A chaconne composta por Bach segue a definição e ao mesmo tempo a transcende.

A Partita nº2 para violino, BWV 1004, foi composta entre 1717 e 1723. Alguns musicólogos dizem que Bach compôs a Chaconne como homenagem à sua primeira esposa, Maria Barbara Bach, que falecera em 1720:

“De acordo com a musicologista alemã Helga Thoene, cada um dos movimentos da Partita nº2 é inspirado num coral religioso associado à meditação sobre a morte. Dentro da harmonia da Chaconne estão as notas do coral ‘Christ lag in Todesbanden’ (Cristo jaz sujeito à morte) que representa a intensa tristeza da morte e a esperança de uma vida eterna. Segundo ela, Bach terá provavelmente composto a Partita nº2 como um memorial fúnebre à sua primeira mulher.” (link)

De fato, a Chaconne não é apenas uma música grandiosa tomada isoladamente, mas grandiosa mesmo no conjunto da obra de Bach. Não existe nenhum movimento de sonata ou partita, nenhuma obra solo de Bach tão longa e dramática quanto a Chaconne (talvez a Toccata e Fuga em ré menor se assemelhe em extensão e na dificuldade técnica, mas não em drama e profundidade).

Aos 35 anos e extremamente religioso, Bach não deve ter colocado em dúvida sua fé, mas tomou a Chaconne como espécie de concessão poética e dramática para si mesmo e principalmente para a esposa falecida. A Chaconne são as últimas palavras de Bach para Maria Barbara — um adeus, um lamento, uma declaração de amor.

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Apresento quatro versões da Chaconne, de Bach.

As duas primeiras são a Chaconne original, tais como Bach a compôs para o violino. Apesar disso, as duas interpretações — tanto a de Viktoria Mullova como a de Heifetz — não podem ser consideradas originais em sentido estrito, porquanto os instrumentos usados pelos dois solistas não são barrocos. O violino barroco difere do violino moderno pela ausência da queixeira (que seria adicionada por Ludwig Spohr no séc. XIX) e pela menor tensão do arco; estes dois detalhes dificultavam as manobras mais virtuosísticas. É possível que a música ouvida aqui seja precisamente a mesma que Bach compôs, mas a dificuldade de executá-la num instrumento moderno certamente é menor do que seria num instrumento barroco. Talvez por isso a interpretação de Hiefetz soe mais barroca — porque mais “dura” ou menos “adocicada” do que a versão de Mullova. No entanto, há mais drama em Heifetz do que em Mullova. Por isso, prefiro aquela a esta.

Para o violão existem duas transcrições. A mais famosa e mais interpretada é a de Andrés Segovia. A interpretação do próprio Segovia é tida como a melhor de todas. Infelizmente não consegui encontrá-la no YouTube senão numa versão só com áudio. A versão que apresento tem Narciso Yepes como solista, numa gravação feita em Madri, em 1979. Pela diferença da interpretação de Segovia, chego a pensar que se trata da segunda transcrição para violão (que na verdade foi a primeira, na ordem cronológica, escrita em 1922), de Antonio Sinopoli, violonista argentino. Há no caso do violão uma relação parecida com a anterior, do violino: a transcrição interpretada por Narciso Yepes parece mais “dura” e menos “adocicada” do que a versão de Segovia — esta diferença, no entanto, era freqüente entre os dois violonistas em outras obras, não apenas barrocas. Fico devendo a interpretação de Segovia para a Chaconne, mas lembro que não é difícil encontrá-la em MP3, para baixar.

Para terminar, o arranjo de Ferruccio Busoni (1866-1924) para o piano. Diferentemente da transcrição para o violão, a versão de Busoni para o piano praticamente recria a obra original de Bach e, por isso, é considerada um arranjo. O que no violino é um drama intimista, uma angústia desesperada no isolamento de um quarto, ao piano torna-se uma tempestade, uma expressão incontida de emoções obscuras e incontroladas — uma peça romântica e extrovertida, enfim. A interpretação de João Carlos Martins é excelente — tenho-a em LP. A interpretação que encontrei no YouTube é de Claire Huangci, jovem pianista norte-americana de origem chinesa. Martins consegue temperar o arranjo de Busoni com aromas barrocos; a interpretação de Huangci é assumidamente romântica.

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A Chaconne dura em média 14 minutos — 13 ou 15 minutos, conforme a transcrição, interpretação ou arranjo. Por esse motivo não havia no YouTube um único vídeo que mostrasse a peça na íntegra. Todos são divididos em duas partes; exceção ao vídeo de Yepes, estranhamente dividido em três.

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É difícil dizer qual a melhor versão. A transcrição para violão é muito fiel à original. O arranjo de Busoni para o piano, embora romântico, é muito impressionante. A versão original para violino pode ser a preferida dos puristas — em especial a interpretada por Heifetz. Eu ouço com freqüência a transcrição para violão (por causa de minhas preferências pessoais pelo instrumento).

A sensação que fica ao ouvir a peça várias vezes, em três instrumentos tão diferentes, é que o protagonista não é o intérprete ou o instrumento, mas o espírito de uma música grandiosa e eloqüente — o mesmo espírito que ligava Bach a Maria Barbara. Se ele pretendia eternizá-la através da música, conseguiu.

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Violino: Viktoria Mullova
Parte 1Parte 2

Violino: Jascha Heifetz
Parte 1Parte 2

Violão: Narciso Yepes
Parte 1Parte 2Parte 3

Piano: Claire Huangci
Parte 1Parte 2

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Original da imagem aqui.

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