Pés no chão

Todo o equilíbrio começa nos pés. Os pés são nosso meio de ligar-se à terra. Graças a eles temos base, podemos caminhar e correr, mesmo sobre piso irregular; com eles apoiamo-nos na areia, na pedra ou na lama.

A estabilidade e a instabilidade obtidos nos pés distribuem-se pelo resto do corpo. Tornozelos fortes e flexíveis distribuem o peso do corpo aos pés e evitam que qualquer balanço do corpo comprometa o equilíbrio. Os dedos ajudam a firmar os pés no chão.

Artigos, reportagens, estudos e modas revelam a obsessão ao tratar da importância dos alimentos e da atividade física na saúde das pessoas. Ignoram assim aquilo que a pessoa faz quando não está se alimentando ou praticando esportes. Quando não está comendo sementes de sésamo ou praticando pilates, a pessoa está trabalhando, dirigindo, conversando, vendo TV, lavando louça, fazendo compras — tudo o que qualquer pessoa faz a qualquer momento do dia. Todas essas atividades têm em comum o mau uso dos pés. Todas essas atividades dispensam movimentos amplos do tornozelo e a extensão dos pés. Quase todas excluem caminhadas e usos intensos das bases do corpo. Com o tempo, os pés tornam-se simples pontos de descarga do peso, não mecanismos de estabilização.

Olhe para seus pés e manuseie-o por alguns instantes. Perceba que o tornozelo é mais flexível do que você pensa. Ele é pivotante, movimenta-se em três dimensões. Se você deixar sua perna solta no ar perceberá que seu tornozelo permite que os pés desenhem um círculo no ar, não apenas o movimento angular e bidimensional de vai-e-vem. É um movimento semelhante ao do pescoço e dos pulsos. Para funcionar eficientemente como mecanismo de estabilização, os pés aproveitam-se da amplitude de movimento dos tornozelos.

Como tudo o que acontece nos pés é distribduído para o restante do corpo, desperdiçar a mobilidade dos tornozelos significa limitar a mobilidade de todo o corpo. Se você não sente a mobilidade dos tornozelos, provavelmente não sentirá a mobilidade da coluna, a necessidade de usar o quadril para deslocar-se com leveza e a importância de relaxar ombros e o pescoço durante uma caminhada. Provavelmente não perceberá a importância de caminhar, porque este exercício lhe será desconfortável nessas circunstâncias.

No Aikido, taisabaki (movimentos do corpo) e ashisabaki (movimentos dos pés) conjugam-se de modo a que o praticante possa se movimentar com fluidez nas técnicas. No entanto, tem-se sempre em mente que essa fluidez começa nos pés. Também por isso o seiza é uma postura tão utilizada nas artes marciais. Através dela exercitam-se os tornozelos e alogam-se as articulações dos pés — dedos inclusive.

Não há, na cultura ocidental, nada que faça o indivíduo usar os pés da forma como os praticantes de artes marciais usam. Não apenas há poucas atividades físicas que envolvem movimentos amplos dos pés, como também as atividades diárias os sub-utilizam — talvez o surfe e a capoeira sejam boas exceções. Via de regra, os pés mantêm um ângulo constante, quase sempre de 90º da sola em relação à perna. E o indivíduo ainda se queixa quando precisa caminhar até a padaria. Subir ladeiras e andar descalço estão fora de questão.

O caso das mulheres é ainda mais grave na medida em que aprisionam os pés em calçados de saltos altos. A imobilidade dos tornozelos é submetida ao desconforto de uma posição pouco natural, cuja permanência prolongada pode causar danos a todo o corpo.

Talvez o leitor encare isso como um problema pequeno. Existem partes do corpo muito mais importantes. Coração e pulmões, por exemplo. Ou o cérebro e os rins. Mas pense adiante e pense na conexão de todas as partes do corpo, pense em como você se desloca e em como sua postura se modifica à medida que sua própria disposição física ou mental se modifica. Exultante, você tende a olhar para frente e além. Desanimado ou cansado, você tende a baixar o olhar e se contrair. Os pés conduzem o corpo nas duas direções. Pense em como o aparelho digestivo é comprimido quando você flexiona a coluna para frente e pense em como a digestão aconteceria caso o aparelho digestivo fosse mantido nessas condições por horas ou dias — ou meses ou anos.

Meu professor costuma dizer que a postura ideal é uma combinação de descarregamento total do corpo no chão e sensação de flutuação. Essa combinação acontece nos pés. Isso permite ao mesmo tempo estabilidade e mobilidade. Pensando de forma abstrata veremos que estamos tratando de valores, não apenas de qualidades físicas. A partir de um determinado momento, em situações diversas, estabilidade e mobilidade são valores que ultrapassam os limites do corpo. Contudo, é no corpo que esses valores se manifestam primeiramente. Se você não os tem fisicamente, se não é capaz de deslocar-se harmoniosamente e de equilibrar-se sem esforço, dificilmente terá o equilíbrio emocional que permite inclusive que o corpo seja usado de forma natural. Se considerarmos que a divisão corpo-mente é uma abstração inadequada, perceberemos que os pés são mais do que acreditamos que sejam e que há na serenidade da alma um pouco mais de nossos pés, mãos, olhos e quadril do que nosso apetite por coisas misteriosas permite crer.

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Original da imagem aqui.

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3 comentários sobre “Pés no chão

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