Alienação

Sob o risco de me tornar irrelevante para 90% do mundo, assumi o compromisso de alienar-me completamente.

O começo foi brando como todo começo deve ser. Apaguei alguns bookmarks, abandonei o hábito de ler jornais todos os dias. Desliguei-me dos telejornais. Ok.

Naturalmente não desenvolvi a obsessão oposta à que pretendo evitar. Se me pus no sofá e lá, na TV, estava o telejornal acontecendo, não me afasto. Aproveito a oportunidade como um exercício de ataraxia. Ou durmo. Ou simplesmente resmungo, porque resmungar é bom (desde que se tenha noção de que resmungar é como colocar um chapéu na cabeça: você o tira quando quiser).

Eu não me importo mais com o que acontece no Oriente Médio, em Nova York, no Rio de Janeiro ou em Brasília. Naturalmente o próximo presidente norte-americano continuará tendo algum poder de influência sobre o mundo (e é bom que seja sempre assim, desde que o próximo presidente não seja o havaiano Barack Osama). É sempre lamentável a explosão de carros-bomba, mas é ainda mais lamentável a insistência nesse método como forma de lidar com diferenças incontornáveis. “A violência no Rio de Janeiro” tornou-se expressão pleonástica e desnecessária mesmo nas manchetes dos diários mais ordinários. Os correspondentes em Nova York só me interessam quando mostram como é bom viver lá — o resto soa como mentira. E Brasília… ora, Brasília…

Não pretendo dizer que o acontece em Islamabad é menos real do que o acontece no quintal de minha casa, mas não tenho dúvidas de que as acerolas que colho semanalmente são mais importantes para mim do que muçulmanos fundamentalistas ou as prévias presidenciais nos EUA. Acerolas me dão vitamina C, sais minerais e calorias. Hillary Clinton, não. Por isso eu prefiro as acerolas. E prefiro os cachorros daqui de casa. E os livros de minha estante. E minhas obrigações, necessidades e práticas diárias.

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Manter-se informado é tarefa maldita. Eu concordaria em acompanhar os jornais se meu dia tivesse 96 horas — talvez neste caso eu dedicasse 50 ou 60 minutos diários à leitura de jornais. Como os dias têm apenas 24 horas, eu tenho considerado que 50 ou 60 minutos diários são o tempo suficiente para estragar a saúde ou alcançar a excelência física e mental ou fazer algo bom por si e pelos outros — mais ou menos à maneira de Aristóteles quando disse que nos tornamos aquilo que fazemos diariamente.

Não se trata de agir à pressa, não se trata de abandonar a informação com o intuito de “aproveitar o tempo” ao máximo, potencializar seu uso como fazem os neo-sei-lá-o-quê-corporativos-motivacionais. Trata-se de ter o tempo e poder fazer coisas genuinamente suas. Se quiser chamar isso de “real”, fique à vontade, pois talvez esta seja uma definição razoável: a realidade mais importante é aquela que lhe permite o uso do maior número de sentidos, dos seus próprios recursos, das suas próprias forças (ênfase aqui em “seus próprios” e “suas próprias”). O que você vê não é tão importante quanto aquilo que você vê, ouve, sente e que se torna objeto de reflexão e trabalho. E o que está em jogo aqui é justamente a forma como você usa aquilo que tem, que sabe e que pode fazer. Diante do jornal — papel, TV ou internet — você simplesmente não usa o que tem, o que sabe e o que pode fazer. Você dorme. Os olhos estão abertos, a mente até pode expelir algumas coisas que você vai achar razoáveis, mas você dorme.

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Responda com sinceridade: você sente vontade de conversar com o William Bonner quando ele anuncia os índices econômicos do dia? Eu confesso que tive vontade de conversar com ele quando ele ensinou na TV uma receita simples de brigadeiro. Aquele brigadeiro (você deve peneirar a gema) valeu mais do que todas as edições do JN.

E, sim, qualquer cozinha é um lugar muito mais interessante do que uma redação de jornal.

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Original da imagem aqui. Artigo publicado n’O Expressionista em 19 de janeiro de 2008.

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2 comentários sobre “Alienação

  1. excelente, caro colega escrevinhador. a alienação tem sido exercitada por minha pessoa, e os efeitos são dos mais saudáveis.

    a razão do meu comentário, entretanto, é uma coincidência anedótica. ontem mesmo um amigo da minha namorada, que está passando alguns dias na minha casa, deitou-se no sofá, e ligou a televisão. logo após, virou-se para mim, e disse: “ei, tua televisão não tem antena?”, ao que respondi com um levantar de ombros.

    em tempo: apesar do tempo cinza, vim de magrela hoje. é outro dia, outra vida quando venho com a vera.

  2. Christian, talvez eu seja “lerdinha” e no começo eu não percebi se era um post sério um uma “ficção”. A gente cresce com os mais velhos dizendo que temos obrigação de saber tudo o que acontece no mundo e suas idéias contrárias nos fazem pensar.

    O seu post me lembrou esse livro:
    http://vacatussa.com/?p=51

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