De como o espírito se curva

sadness

Uma das coisas que eu mais gostaria de entender é por que o espírito se curva e se altera sem que nada de fato tenha acontecido. Quando digo “de fato” refiro-me a coisas que podem ser apreendidas com os sentidos, como quando chove e você sente a água no corpo, quando você vê dinheiro em sua carteira ou recebe elogios sinceros ou transpira intensamente depois de correr uma distância que você jamais correra.

E mesmo nestes momentos “algo” acontece além das coisas que realmente acontecem. Você não tem motivos sérios para se regozijar com o bom desempenho na corrida a não ser quando você é capaz de perceber esse desempenho num contexto maior — e perceber esse contexto exige um grau de abstração tal que a realidade parecerá menor ou sem importância.

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Muita coisa acontece em minha cabeça e em minha alma. Há muitas coisas que eu não compreendo e que eu não assimilo e, por isso, muitas coisas permanecem no escuro, alimentando sobressaltos, dissabores e febres. Tenho sido capaz de viver apesar disso, com a crença de que se trata de algo humanamente comum e, portanto, aceitável. Mas cada vez mais isso perturba e, se não é bom perceber em outras pessoas esses sobressaltos, é ainda pior percebê-los em mim mesmo — a mim e em mim eles não parecem aceitáveis.

Pois hoje estou bem e amanhã não sei como será. Se hoje estou bem, tendo a dar graças às coisas pequenas e efêmeras por isso — como o dinheiro e a saúde — ou a coisas perenes e perigosamente íntimas como as que vão na minha alma e que naturalmente eu não compreendo.

Meu bem-estar está ligado a coisas que eu domino e que não têm transcendência ou a coisas que são transcendentes mas que eu não domino. Em outras palavras, não há nada em mim que aponte para o alto ou que me permita controle sobre mim mesmo — o que no fim das contas é a mesma porcaria.

O tigre só está sob controle porque a jaula é forte o suficiente. Posto em liberdade, ele nada faz além de caçar e dormir. É uma vida cretina e incompleta.

Vivo bem porque tenho sido razoavelmente bem sucedido na arte do auto-engano. Acredito com alguma sinceridade que eu mesmo me livro do mal e me mantenho afastado dele e acredito que pode haver sentido numa vida dedicada a discutir o desenho de maçanetas, a eficiência das dietas e a validade das crenças. Mas cada vez mais percebo que não há sentido nessa dedicação, ainda que tudo possa se resumir a trindades tão chinfrins.

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Eu passo. Naturalmente, estas linhas enquadram-se na mesma categoria de choramingo em que se encontra toda a vida do homem comum — que inclui maçanetas, dietas e crenças. Por isso eu passo.

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Original da imagem aqui.

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Um comentário sobre “De como o espírito se curva

  1. Olá Christian,

    Hoje acordei de um sonho nítido, onde eu estava num lugar que gostaria muito de estar, onde tenho uma casa e amigos e onde sempre me senti muito bem. A diferença é que chegando lá me deparei com uma situação anormal: minha casa estava ocupada por duas famílias com crianças, a parede estava arrebentada dando vista para a sala do vizinho, a pintura diferente, e por todos os lados da casa havia roupas brancas ( não tigres, felizmente,e que estes não me apareçam!!! )penduradas para secar… Não fiquei angustiada ou irritada, mas perplexa! Eles estavam lá por direito, eu de fato aluguei a casa, embora o combinado era que fosse para dois rapazes e ninguém mais.
    Mas que diabo! pensei ao acordar, como minha mente foi criar uma situação dessas ? E com que razão ? E quem traiu quem?

    Aí entrei no seu blog ( por puro acaso ) e li esse texto, que me esclareceu um pouco – de certa forma você questiona a mesma coisa e isso reforçou a minha vontade de investigar.

    Depois li pela primeira vez o capítulo “ Astrologia e Astrolatria “do livro “Astros e Símbolos” do Olavo de Carvalho, que recebi de você, o que me esclareceu bastante.

    Primeiro imaginei que o sonho mostrava uma traição contra o meu desejo ou a minha expectativa de felicidade, mas como um aviso porque este só incluia a mim mesma. Depois de ler o texto do Olavo de Carvalho vi a coisa por outro ângulo : houve uma traição interior mas como um aviso de uma incoerência que não me dou conta e que me torna vulnerável. Aliás, no sonho, eu me dou conta da minha própria incoerência porque eu sabia que a casa estava alugada e no entanto fui para lá!!!

    Me parece que alguma coisa caminha dentro da ordem…

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