Política, mal necessário

Nunca apostei demais na política e nos políticos, mesmo no auge da adolescência. Tive amigos que panfletaram durante a campanha pelas eleições diretas. Alguns fizeram campanha para Collor. Outros, ainda mais visionários, apostaram em Lula. O rumo que o país tomou através da política, o próprio tempo e a atenção dispensada às peculiaridades da política local tornaram-me cético. Hoje eu acredito naquilo que um político diz na exata proporção em que ele é capaz de se manifestar e viver como pessoa em vez de se manifestar e viver como político — as diferenças são evidentes.

Apesar da minha descrença, eu acredito que há diferenças entre ter uma pessoa digna ocupando uma cadeira numa câmara municipal em lugar de um sujeito corrupto. Eu acredito nas diferenças entre as pessoas na medida em que elas adotam a dignidade ou a corrupção como base de suas vidas (se você não vê essas diferenças, vá ler outra coisa, por favor, não este artigo).

Eu, por exemplo, jamais poderia ser vereador: não sei como se faz um projeto de lei, não sei como redigi-lo, não conheço Ilhabela em detalhes, mal conheço as pessoas daqui, não sei quais são suas preocupações e seus interesses, tampouco sei como reunir esses interesses e preocupações de forma a buscar soluções, encontrá-las e trabalhar com eficiência e objetividade para o bem da cidade. Em outras palavras, não sou competente para cargos políticos. Certamente há pessoas que sabem fazer cada uma dessas coisas melhor do que eu e é justo que essas pessoas ocupem os lugares mais importantes na condução do município. Da forma como eu a entendo, isso é democracia.

A democracia só é ruim quando as pessoas mais capazes, inteligentes e sábias não participam dela. Participar não significa apenas votar, candidatar-se e ocupar um cargo. Participar da democracia significa oferecer aquilo que você tem de melhor para o bem do lugar em que vive. Noutras palavras, a democracia é feita todos os dias, não apenas a cada dois anos, nas eleições.

Quando falo em fazer democracia todos os dias, eu não me refiro a ação política. “Ação política” é uma contradição em termos: ou você age — isto é, trabalha, faz o melhor que pode, é responsável, exemplar e justo — ou você faz política — isto é, você conspira, troca favores, faz coligações, diz uma coisa e pensa outra. Não que fazer política seja intrinsecamente ruim. Às vezes é impossível dizer tudo o que se pensa, por uma questão de sobrevivência. Mas quando esse instinto de sobrevivência cria o hábito de ocultar a verdade e este hábito cria hábitos ainda mais pérfidos, como mentir e roubar, aí estamos falando de um problema sério, não de um desvio moral circunstancial.

O que quero dizer com estas palavras pode ser resumido da seguinte forma. A política não é tudo e nem é a atividade mais importante para uma cidade. Apesar disso, reconheça a importância de sua participação política e submeta-se ao exame constante de sua própria consciência. Aproveite as eleições municipais deste ano para exercitar isso. Se você é veranista e não vota em Ilhabela, transfira seu título para cá — esteja certo de que este lugar só tomará o rumo que você deseja se você participar do que acontece por aqui, inclusive através do voto. Se você vive e vota em Ilhabela, você tem ainda mais condições de acompanhar os políticos daqui bem de perto, avaliá-los e fazer os necessários ajustes para as próximas eleições. Afinal, ainda que nem tudo esteja ruim, ainda precisamos melhorar muito.

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Original da imagem aqui. Artigo publicado no jornal Canal Aberto em 1º de fevereiro de 2008.

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