E o bambu?

bamboo

Existem duas formas de lidar com um problema. Uma é confrontá-lo diretamente, ora atacando seus principais agentes, ora atacando os meios que permitem que esses agentes o causem. A pessoa que escolhe esta estratégia não está interessado em causas e nas lógicas que criam as ligações entre agentes, meios e o problema propriamente dito. Para ela, as aparências bastam para explicar o problema todo. Exemplo dessa estratégia para lidar com um problema é a forma como algumas pessoas encaram os carros de passeio: os proprietários desses veículos são vistos como carrascos do trânsito fluido e do ar limpo; assim, para que uma cidade volte a ter ar puro e trânsito fluido, bastaria eliminar veículos de passeio (e, naturalmente, os proprietários desses veículos).

Outra forma de lidar com um problema é confrontá-lo indiretamente, adotando práticas que não atacam seus agentes ou seus meios, mas que sugerem novos hábitos e novos costumes que acabariam neutralizando os agentes e os meios causadores do problema. Ainda com base no caso dos veículos de passeio, um exemplo dessa estratégia são os ciclistas que insistem em pedalar a despeito de uma cidade totalmente despreparada para eles. Ainda que haja alguma ideologia permeando esse hábito, trata-se de uma forma sutil de sugerir alternativas ao problema do trânsito e da poluição nas grandes cidades. Existem, portanto, pessoas que pedalam e existem pessoas que criticam os proprietários dos carros.

Em arquitetura ocorre algo semelhante. Há o grupo dos “ciclistas” e há o grupo dos “proprietários de carros” e seus opositores. O segundo grupo é o maior, claro. Tão numerosos quanto os profissionais que se rendem às maravilhas dos residenciais de alto padrão e dos edifícios de escritórios são os profissionais que criticam essas tipologias e se dedicam ao estudo de favelas e das dinâmicas sociais . A imagem abaixo, muito conhecida, resume o que quero dizer.

luxo favela

Em outras palavras, há o grupo das pessoas que perguntam o que há de comum entre duas coisas tão diferentes e há o grupo que se divide entre a revolta diante das diferenças sociais e o cinismo de dizer que essas diferenças não são importantes.

Essa longa introdução serve justamente para falar do bambu. Falar, não, mostrar. As imagens que apresento em seguida são exemplos de como lidar com a arquitetura e os problemas relacionados a ela de uma forma, digamos, alternativa. Sei que tudo que se propõe a ser “alternativo” tem um pé na moda e outro no fracasso. Mas o que tenho visto é que não é este o caso do bambu, assim como não é este o caso de diversos materiais e formas de se fazer arquitetura que se apóiam antes em questões muito simples, necessárias e fundamentais e depois — se for o caso — em questões mais complexas e conceituais. Quem constrói com bambu tem mais interesse em atender uma necessidade primordial que a arquitetura se propôs a atender desde que se formou como disciplina do que em resolver diferenças sociais e a degradação do meio ambiente. Quem constrói com bambu está “pedalando”, está fazendo o que precisa ser feito enquanto a maioria das pessoas briga para usar um carro ou para impedir que outras pessoas o usem.

Não sugiro com estas imagens que o bambu seja uma boa solução para os problemas que a arquitetura não resolveu até agora. Pretendo apenas ilustrar que as soluções existem e são diversas. Talvez um bom caminho seja buscar as soluções mais adequadas para cada bairro ou cidade antes de acreditar que o mundo se divide em favelas e edifícios de luxo, entre pobres miseráveis e perversos milionários.

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Clique nas imagens para ver as páginas originais, com informações sobre as respectivas obras e sobre construção com bambu.

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