Maquiagem de produtos

Lembra do queijo Teixeira?

queijo teixeira

Então. Deixou de ser parmesão e virou um “mix” de queijos de qualidade inferior — mussarela, prato e minas. Mandei hoje um email à empresa, perguntando se o parmesão voltará. O site informa que o parmesão ainda é produzido, mas nos mercados só há esse “mix” mixo.

Aliás, “mix” é de doer. Só faltava terem escrito na embalagem: “pode conter traços de amendoim”, pois hoje todos os produtos contêm “traços de amendoim”.

Se você quiser reclamar, vá ao site da Teixeira e mande um e-mail. Provavelmente não haverá resposta. Empresas só respondem e-mails neutros ou elogiosos. Como eu raramente minto quando emito minha opinião, não tenho expectativas de receber resposta neste caso.

Pessoalmente, o queijo ralado Teixeira não me preocupa. Se eles quiserem substituir o tal “mix” por especialidade láctea em pó, fiquem à vontade. Sempre preferi comprar um pedaço de queijo parmesão e ralá-lo na hora, de preferência sobre massa fresca e molho de tomate feito em casa. O que me preocupa de verdade é algo que tem se tornado um costume entre as empresas: a maquiagem de produtos. Só percebi a substituição do parmesão quando minha namorada me mostrou a embalagem, que lera já em casa, com o produto aberto e em uso.

Pouco tempo atrás as especialidades lácteas quase baniram o requeijão das prateleiras de gelados. Para quem não sabe, trata-se de requeijão com maisena, cujo custo de produção é inferior ao do requeijão original. Naturalmente o preço final para o consumidor da especialidade láctea não era inferior ao do requeijão. Como a única diferença nas embalagens eram as letras miúdas (“especialidade láctea” em lugar de “requeijão”) o consumidor acostumado a comprar pela marca levava a especialidade sem perceber qualquer diferença. No máximo ele comentava que o “novo requeijão” não escorria mais pela faca.

Aparentemente o engodo veio à tona e a “especialidade láctea” foi abandonada pela maioria das empresas. É claro que o retorno do requeijão foi exibido em letras fortes nas embalagens. Hoje quase todas ostentam a expressão “o legítimo requeijão”. Me poupe.

O caso do papel higiênico é mais grave. Um fabricante criou um novo padrão para as embalagens — os rolos de 40 metros foram substituídos por rolos de 30 metros — que foi prontamente utilizado por todos os outros fabricantes. Há marcas que descaradamente oferecem rolos de 20 metros. Quando constatei isso telefonei para um dos fabricantes e a atendente teve a coragem de dizer que o seu rolo de papel de 30 metros rendia tanto quanto um rolo de 40 metros por causa da boa qualidade do material. Ela disse isso sem engasgar ou rir.

Biscoitos e bolachas constituem um caso clássico. O padrão anterior, de 200g, foi substituído pela desordem total. Hoje há embalagens de 140, 160, 180 e 200g. Naturalmente, as que mantiveram o padrão de 200g dão destaque a essa informação.

As batatas fritas também tiveram sucessivas reduções de conteúdo e recentemente puseram de volta parte do que foi tirado, destacando na embalagem “20g grátis!!!”. Picaretas.

E as clássicas barras de chocolate de 200g? Ódio.

nestlé

Na verdade, a maquiagem de produtos também não me preocupa tanto assim — este é um trabalho para o Procon, que costuma cumprir o que promete. Quase tudo se resolve com leitura. Como se diz em bom inglês, “RTFM”. Leia o manual. Leia a embalagem. Mantenha-se atento àquilo que compra, consome e come. Reclame. Boicote. Todas as empresas hoje têm sites e atendimento via 0800.

O que me preocupa é a facilidade com que as empresas recorrem à maquiagem de produtos, o que demonstra duas coisas, ainda mais graves: o consumidor tem preguiça de conhecer o produto que compra e dispensa seu próprio poder (de boicotar e reclamar). E se ele dispensa seu próprio poder numa relação simples de consumo (ele dá dinheiro a uma empresa e esta empresa lhe dá um produto palpável e devidamente embalado e identificado), imagine como se comporta diante de trocas menos simples e cheias de intermediários.

Pense, por exemplo, nas eleições e na relação que existe entre você e o poder público, que, de diversas formas é também uma relação de consumo. Você paga impostos, mas não sabe por que paga e o que receberá em troca. Existem leis que fixam direitos e deveres de ambos os lados, mas você não as conhece e não as lê. O poder público as lê e as conhece, mas não as cumpre. Se você não consegue obrigar uma empresa a manter a embalagem de chocolate sempre com 200g, como conseguirá obrigar o Estado a garantir o seu direito constitucional à segurança?

Isso é motivo suficiente para levar mais a sério a relação entre consumidor e empresas. Tome-a como uma espécie de preparação para confrontos mais difíceis. Aproveite o fato de que ao mandar o atendente da Nestlé ou da Teixeira para o inferno, o máximo que você vai ouvir do outro lado é um “obrigado e bom dia”.

Não é à toa que toda repartição pública exibe aquele cartaz que alerta os cidadãos sobre a pena em caso de desrespeito ao funcionário público em serviço. Se você já esteve numa repartição pública, solicitando algo que o tornou dependente de um sujeito que mal sabe pentear os cabelos e soletrar “bola”, certamente já teve que contar até dez para não esganá-lo. Eles não são trouxas: além de não haver nada que os obrigue à educação dos atendentes dos 0800, há ainda a lei que lhes dá permissão para agir como se fossem a última coca-cola gelada do deserto.

Não seja trouxa você também, ao lidar com empresas que modificam seus produtos ou com o poder público. Se nada funciona, talvez reclamar e boicotar produtos funcione.

*
Alguns links úteis:
http://omedi.net/?p=616
http://www.idec.org.br/rev_idec_texto2.asp?pagina=1&ordem=1&id=292
http://www.idec.org.br/arquivos/tabela_maquiados.doc (Aqui você baixa uma tabela que mostra a enorme quantidade de produtos maquiados. Aparentemente ela foi elaborada em 2005; não me arrisco a imaginar qual seria seu tamanho hoje)

Anúncios

5 comentários sobre “Maquiagem de produtos

  1. Certa vez, conversei com um representante comercial de uma marca de queijos em pó (porque aquilo não é mais ralado). Na ocasião ele recolhia da gôndola as fatias de parmesão vencidos (e parmesão quando fica velho, fica seco e imprestável). Curioso, perguntei:
    – O que é feito com esses queijos vencidos, vão pro lixo?
    – Não!, disse ele. Vira queijo ralado.

  2. Comentei com minha mãe outro dia que do jeito que a população tem crescido, será muito difícil continuar oferecendo produtos de qualidade a todos. Ou pelo menos por um preço razoável.
    Eu ainda acredito na compra de tomates frescos no lugar de latas com molho pronto; Fazer minha própria massa de pizza no lugar de comprar aquela pizza pronta dentro de uma caixa. Minha solução é essa porque acho que a maquiagem de produtos veio para ficar.

  3. Um dos piores que agente encontra por aí hoje em dia é aquele refrigerenta H2OH. Não sei porque mas todo mundo pensa que está bebendo água! Deve ser por causa da letra minuscula no rótulo, para não dizer outra coisa…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s