Egoísmo

egoismo

O problema de ser egoísta é que todo o esforço de altruísmo confunde-se com o desejo de parecer bacaninha para as outras pessoas. Ajudá-las com sinceridade não é tão interessante quanto colher os frutos e os aplausos de uma ajuda bem sucedida. E quando a ajuda não funciona, o egoísmo dá lugar a um tipo de camuflagem que preservará algo da imagem de altruísta e de pessoa bacaninha.

E mesmo aqui, falando de coisas desse tipo, não consigo distinguir se faço isso por autocrítica honesta ou pelo desejo de parecer um mestre de lucidez e autoconsciência, ao ponto de poder ver a própria picaretagem, assumi-la e impor-se as devidas penas sem a ajuda de um espelho ou de um juiz.

É tudo egoísmo, afinal.

Talvez algumas coisas se resolvam com anonimato e discrição, desde que estas coisas sejam levadas às últimas conseqüências. Você faz algo bom, a coisa funciona e em nenhuma hipótese saberão que você fez aquilo, não porque você não quer que as pessoas o saibam, não porque você quer parecer discreto, mas porque isso significará, novamente, soltar as rédeas do seu egoísmo. Mas é tarde, porque eu estou aqui falando dessas coisas e de mim mesmo.

Lembro de ter lido algo sobre a importância de tratar estas coisas com mais leveza. O desejo de livrar-se do egoísmo é ele próprio uma forma de egoísmo e não se pode apagar um incêndio com um lança-chamas, ao menos não esse tipo de incêndio. Não há chances de combater o egoísmo orgulhando-se de ser um boçal.

*
Um treino recente de Aikido mostrou-me a importância de encarar isso com mais seriedade, apostando na idéia de que, ao lidar com o egoísmo, a leveza só faz sentido se ela é um meio de concentrar-se, desenvolver a disciplina e, assim, diluir-se em práticas que não são «as suas».

O treino de uma disciplina, por mais sofrido e extenuante que seja, não é importante apenas para que possamos aprender os elementos dessa disciplina, mas principalmente para que soframos e extenuemo-nos. Aprende-se não para fazer algo, mas para que sejamos algo ou, para deixar as coisas mais claras, para que deixemos de ser aquilo que sempre fomos e que nos dá tanto conforto e segurança. Algo sobrevém quando estamos sob o peso da dor e do cansaço, esgotados fisicamente e emocionalmente desanimados. Inicialmente temos a percepção de que estamos vivos «apesar» da dor e do cansaço. Em seguida, a idéia de que essa vida é maior e mais importante do que aquilo que nos foi tirado pela dor e pelo cansaço e que é graças a essa vida que essas sensações deixarão de ter importância ao ponto de cessar. É isto que separa fracos e fortes: a consciência da própria fraqueza, dos próprios limites, que fatalmente serão atingidos num treinamento sincero.

Naquele treino de Aikido eu fui muito fraco. Encharcado de suor e trêmulo (sinal visível de esgotamento físico), insisti em levar a prática adiante. Ignorar os sinais de que era hora de parar era prova de que eu me levava muito a sério. Não se tratava de diluir-se na prática; tratava-se de manter uma imagem de força inabalável, o que finalmente tornou-se aquele espetáculo patético que sempre acontece quando contrariamos a ordem natural das coisas. Talvez as coisas não tenham ficado tão visíveis para quem as viu de fora; para mim, no entanto, foi particularmente frustrante ver-me cedendo aos apelos de meu ego. Ele dizia «Vá treinar, não seja fraco». O corpo pedia água e respiração profunda. A mente não sabia para onde ir.

Talvez a mistura dos dois apelos indicasse a validade do caminho médio, que nada tem de médio em sentido estrito. Ele significa continuar a treinar, não para manter aos outros uma imagem pessoal, mas para que de fato eu me esquecesse de mim e de meu próprio cansaço; não dar tempo e espaço para que a mente perceba o esgotamento físico e o torne mental; e, afinal, entregar-se não aos apelos de dentro por água, respiração ou exibição, mas aos apelos de fora, do próprio Aikido, por se tratar de disciplina digna e superior. A resposta mais adequada a tudo aquilo era deixar de ver-me como «Christian-praticante-de-Aikido» e ver-me apenas como «praticante-de-Aikido» e, se possível e mais adiante, apenas como um fragmento através do qual o Aikido se manifesta.

É claro que dor e cansaço são reações naturais do organismo e, por isso, são úteis para a realização segura de tarefas e esforços. Ocorre, no entanto, que há muitas coisas que chamamos erroneamente de dor; o cansaço tornou-se argumento pronto para situações em que, na verdade, estamos é de saco cheio. Existem exemplos de impaciência, nervosismo, tédio e depressão que podem ser confundidos com dor e cansaço. Evitar uma coisa ou outra é menos importante do que percebê-las e distingui-las. Mais importante do que percebê-las e distingui-las é perceber suas causas antes que elas se manifestem. É esse sentido que nos permite evitar espinhos e excessos e levar uma vida relativamente tranqüila e resolvida.

*
Tranqüiilidade e resolução são coisas boas, mas nem sempre possíveis. Diante da impossibilidade de lutar contra o cansaço, a dor e o egoísmo, talvez baste levar adiante aquelas tarefas primordiais que definem a própria existência. Sobre o tatame, manter o reigi (a forma, que é mais do que a simples etiqueta dos ocidentais), o zanshin (atenção) e o kamae (postura). Na vida, ficar quieto e manter-se atento à própria respiração. Começando pelas coisas simples pode haver alguma chance de lidar com coisas complexas e disformes como o egoísmo, que ora se confunde com altruísmo, ora com sabedoria, ora com estupidez passageira.

.
Original da imagem aqui.

Anúncios

2 comentários sobre “Egoísmo

  1. Isto me lembrou um pequeno pensamento do grande Calderón de Mejia, que versava algo mais ou menos assim:

    “As três coisas mais importantes que levam o homem a conduzir sua existência é, em primeiro lugar, o sussurar das mulheres, depois, o tilintar das moedas e, por fim, o alarido das palmas.”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s