Esquerdismo, uma explicação didática

marx capitalismo

Muitas pessoas, talvez ainda movidas pelas maravilhas ouvidas nas aulas de OSPB na 8ª série, admiram o socialismo e o comunismo e não sabem exatamente por quê. Não as culpo. Quem ouve o discurso apaixonado de um professor do ensino fundamental ou mesmo de um professor doutor de uma universidade sai da aula fortemente convencido de que o comunismo é uma coisa supimpa. Se ele é utópico como todos dizem, então fiquemos com o socialismo e vamos implantá-lo já, de uma forma que fará inveja aos fantasmas de Stálin, Lênin e Mao. Mas vamos rápido que é pra ontem, antes que o capitalismo (selvagem, claro) acabe com tudo.

Conversando com um amigo, percebi que ele é dessas pessoas que admiram as duas religiões esquerdistas e o esquerdismo de um modo geral. Até onde pude entender suas palavras, os motivos que o levam a admirar o esquerdismo resumem-se no fato dele abominar os efeitos do capitalismo sobre este país e sobre a maioria dos países pobres.

Caso ele leia este texto, peço compreensão com o fato de eu reproduzir parte de nossa conversa aqui. Naturalmente, reproduzo-a porque a conversa exigiu que eu colocasse algumas idéias de uma forma que eu nunca havia colocado, quase didática. Fi-lo não apenas para que meus argumentos ficassem claros para ele, mas também para mim, já que eu tinha muitas dessas idéias bem claras e ao mesmo tempo nunca havia precisado mostrá-las a ninguém, o que significa que as idéias não eram assim tão claras.

*
O esquerdismo pode ser resumido da seguinte forma. Imaginemos dois homens, pequenos empresários do ramo alimentício.

O sr. A faz doces muito bons. Ele os faz em casa, vende-os de porta em porta, nas ruas e nas lojas, e torna-se bem sucedido com isso. Ele usa bons ingredientes. O sr. A conhece várias boas receitas e realmente sabe fazer bons doces.

O sr. B também sabe fazer doces, mas não com o mesmo esmero que o sr. A. Ele não sabe escolher os melhores ingredientes e as receitas que ele usa não são tão boas quanto as do sr. A. Por causa disso, o sr. A vende mais doces do que o sr. B. Logo, o sr. A prospera e o sr. B não.

Cria-se assim uma desigualdade evidente. Ela começa nos próprios doces que cada um faz e comercializa. A diferença de qualidade é clara. As vendas do sr. A são maiores do que as do sr. B e, naturalmente, isso diferencia o estilo de vida de cada um e a própria forma de conduzir o próprio negócio de fabricação e comercialização de doces.

Neste ponto incluimos na história o sr. C. O sr. C gosta de doces e sempre compra aqueles que o sr. A faz. Certo dia ele descobre os doces do sr. B. Ele percebe, naturalmente, que não são tão bons quanto os do sr. A e percebe também que o sr. B não tem chances de vender tantos doces como o sr. A. A situação preocupa o sr. C pois, levada adiante, o sr. B não conseguiria mais vender seus doces e não teria como conseguir o sustento para sua família.

O sr. C pensa: “Não é justo o sr. A vender tantos doces e o sr. B não vender quase nenhum. Mesmo que os doces do sr. A sejam ótimos, o sr. B não merece ficar na miséria enquanto o sr. A ganha mais dinheiro do que é capaz de gastar”. O sr. C tem, então, uma idéia brilhante: “Se parte do lucro do sr. A for passado ao sr. B, o sr. B terá chances de melhorar seu negócio de doces e poderá ser tão bem-sucedido quanto o sr. A”. Assim, o sr. C conversou com políticos, autoridades, deu entrevistas aos jornais, sempre mostrando a situação preocupante em que o sr. B se encontrava, os lucros excessivos do sr. A e comoveu todos no sentido de reverter essa situação.

Criaram-se leis que determinaram que o sr. A e todos os empresários que tinham lucros excessivos dessem parte desses lucros a pessoas como o sr. B, de forma que elas pudessem investir em seus próprios negócios e pudessem prosperar. As leis não funcionaram muito bem. Obviamente, havia pessoas responsáveis por coletar esse dinheiro e redistribuí-lo, e esse trabalho não era feito de graça; o sr. C, esclarecido e atento que era, logo assumiu o comando da redistribuição de dinheiro.

Além disso, o dinheiro aliviou um pouco a situação do sr. B, mas não tornou os doces dele melhores e, portanto, não melhorou significativamente seu negócio. Ao mesmo tempo, sem poder contar com parte de seu lucro de sempre, o sr. A teve que reduzir seu negócio de doces. Demitiu empregados e voltou a uma condição parecida com a do começo, quando quase todo seu trabalho era feito em casa.

Quase todo o esquerdismo pode ser resumido nas atitudes do sr. C e em seu modo de pensar.

Seu primeiro erro é ver injustiça numa situação que não é injusta. Se justiça é proporcionalidade, era justo que o sr. A lucrasse na exata medida da qualidade de seus doces. Ao mesmo tempo, nada havia de estranho na pobreza do sr. B, já que seus doces não eram bons. Pode-se argumentar que foi sorte que levou o sr. A a poder fazer bons doces; neste caso sairíamos do plano da realidade e passaríamos a discutir questões esotéricas, como karma e destino. Uma dose de pé-no-chão levaria o sr. B a perceber que não tinha jeito de fazer doces ou a buscar ajuda (talvez até mesmo com o sr. A) para aperfeiçoar seus doces.

O problema é que antes que o sr. A e o sr. B pudessem estabelecer alguma ligação, entra em cena o sr. C, que pretende resolver tudo a seu modo. A injustiça, na verdade, estava na atitude do sr. C. Ele interferiu numa situação que não era injusta e tirou do sr. A dinheiro conquistado com trabalho honesto e correto. Ao mesmo tempo, o sr. B recebeu dinheiro do sr. A pelo simples fato de ser pobre.

Com o pretexto de promover a justiça, o sr. C criou uma situação verdadeiramente injusta. Não bastasse isso tudo, o sr. C nuna produziu nada, era pago para redistribuir o dinheiro que era coletado e, por ter beneficiado o sr. B, comia seus doces de graça.

*
Como sistema político-econômico, o capitalismo permite que as pessoas trabalhem e prosperem. Naturalmente as coisas são fáceis para quem é rico. Quem não é rico tem alguma chance de prosperar através do trabalho, do estudo, enfim, do esforço próprio. Os problemas do capitalismo começam quando o dinheiro — espécie de alfabeto universal nessas interações econômicas e sociais — é tomado como princípio e fim em si mesmo ao ponto da moral se constituir a partir dele. A “selvageria” do capitalismo nasce quando o dinheiro não é apenas o alfabeto, mas todo o vocabulário e todos os diálogos.

A maioria das críticas ao capitalismo é válida porquanto se referem a essa moral centralizada no dinheiro. Por causa dessa moral temos o tratamento diferenciado dado a pobres e ricos, a corrupção como forma aceitável de conduta e todos os desvios decorrentes.

Dirão que isso invalida todo o capitalismo, como dizem os esquerdistas, o que é nonsense e — conforme a definição de Olavo de Carvalho — um exemplo bastante bom de paralaxe cognitiva. A maioria dos críticos do capitalismo usufrui dos benefícios do sistema (como sugere a imagem que ilustra este texto). O dinheiro que abastece o sr. C da nossa história veio de algum lugar, do trabalho e da produção de alguém. A riqueza não brota, ela é conquistada com esforço.

O primeiro erro dos esquerdistas ao criticar o capitalismo é esse: não saber explicar de onde virá a riqueza que será dividida. Ela virá precisamente do capitalismo, isto é, do sistema que deixa as pessoas livres para trabalhar, produzir, comprar e vender. É mais ou menos por isso que a maioria dos países socialistas — os que ainda insistem nesse sistema — tem interferido cada vez menos nos meios de produção; é muito mais simples deixar as empresas produzirem à vontade e cobrar-lhes os impostos sobre a produção de riquezas.

O segundo erro dos esquerdistas é acreditar que suas boas intenções são suficientes para resolver uma situação ruim. Naturalmente, o sr. B passava por uma situação ruim. O erro não está em ajudá-lo, mas em ajudá-lo em detrimento de pessoas que têm o direito de continuar cuidando de suas próprias vidas. Intenções sinceras de ajudar pessoas pobres tornariam os esquerdistas filantropos exemplares; eles querem ajudar, mas para isso querem permissão para enfiar a mão no bolso alheio. E às vezes enfiam mesmo sem permissão.

Os dois erros dos esquerdistas são, assim, irrealismo e injustiça. Estas duas coisas convergem para um único ponto e constróem monstros que se arrogam o direito de desenhar o futuro tal como eles queiram. Todo esquerdista que se preze tem sob o sovaco um projeto de mundo ideal.

A partir daí é muito fácil abominar o capitalismo e aplaudir o que quer que se manifeste contra ele, a despeito de evidências documentadas. Boas intenções são suficientes para atestar o caráter do sujeito, desde que ele também esteja disposto a demonizar os ricos e posar de defensor dos fracos e oprimidos — que é precisamente o que define as boas intenções das esquerdas. É assim que esquerdistas conseguem admirar assassinos como Che Guevara, genocidas como Mao, Stálin e Lênin, patifes como Marx e Gramsci e tomá-los como modelos de inteligência, sabedoria ou liderança.

*
Eu não pretendo converter ninguém com estas palavras.

Aos esquerdistas que passarem por aqui — alguém? — meu apelo é por aquele traço de realismo que ainda pode existir neles; se todas estas palavras não significarem nada, espero que a imagem do topo signifique algo.

Àqueles que não têm mais dúvidas do engodo que é o esquerdismo, meu apelo é no sentido de fazer com que isso transpareça cada vez mais. Tenham a certeza de que toda vez que vocês lêem algo como “precisamos reduzir as injustiças” ou “vamos fazer um mundo melhor”, é o esquerdismo que está em atividade — e, atrás dele, toda a criatividade do sr. C.

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Infelizmente não consigo localizar a versão original da imagem acima. Caso alguém saiba, por favor me avise para eu dar o devido crédito.

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20 comentários sobre “Esquerdismo, uma explicação didática

  1. Obrigado pelo comentário e pelo elogio, Daniel.

    De fato, mau caráter é regra entre os esquerdistas. Minha preocupação é com aqueles — como meu amigo — que admiram a esquerda, se dizem esquerdistas e não percebem a barca furada em que está subindo. Não duvido das boas intenções dessas pessoas, mas sei que essas boas intenções desaparecem tão logo essas pessoas sejam absorvidas pela “causa”.

  2. Nossa, que alegoria ruim!
    Alguém aqui acredita que os acionistas do Mc Donalds ganham mais dinheiro que o dono da lanchonete da esquina porque os lanches do McDonalds tem mais qualidade?!?!?!
    Alguém aqui acredita que os lucros obtidos no capitalismo são por trabalho “honesto e suado” e não por explorar pessoas e mio ambiente?
    Se tem algu´me lucrando muito é porque está explorando alguém….
    O justo não seria dar o dinheiro do Sr. A para o Sr. B e sim criar outros senhores para a historia. O Sr. A deve fazer e vender os doces que ele é capaz de fazer!!! Ele nã odeve “contratar” (ou seja explorar) os Srs. X, Y e Z. Se os Srs. X, Y e Z também fazem os doces é justo que recebam a quantia exata que a venda dos doces feitos por eles gerou. (e nao um salario irrosório e de fome para o que gordo Sr. A – deve ser gordo – continue a lucrar sem por a mão na massa).
    E isso sem falar de marketing….

    É ou não é?

  3. Marta,

    a idéia de que lucro=exploração ou de contratação=exploração é no mínimo esquisita. Aparentemente você interrompeu seu desenvolvimento intelectual em alguma cartilha de história do 1º colegial.

    Boa sorte.

  4. Se eu interrompi meus estudos no colegial (agora chama-se Ensino Médio!) por achar que lucro é = a exploração o que poderemos dizer do pensamento que você apresentou que acha que alguém lucra mais que o outro porque trabalha suado para fazer doces melhores! Quem inventou essa historinha dos senhores A B C não deve ter completado em Ensino Fundamental (que é o antigo ginásio, tá?)

  5. Só por carregar o nome desse filósofo de teorias absurdas e ofensivas, Sr. Olavo de Carvalho, este texto não merece atenção quanto à afirmação de que o Esquerdismo é carregado de irrealismo e injustiça: o Capitalismo como já se define é centralizado no dinheiro e não nas pessoas. Pra que haja a ascensão social de uns tem de haver desigualdade e não por qualidades diferentes de trabalho mas sim por questões de interesses.

  6. Quando for possível, tiverem tempo, for barato e viável, os esquerdistas produzirão tênis, roupas, artefatos em tecido, em geral, cultivarão legumes e frutas, criarão animais para comer, escreverão seus próprios livros SÓ pra ficar livre do Capitalismo. Enquanto isso é necessário esse usufruto.

  7. Reinaldo («sou contra»),

    1) Só por carregar o nome desse filósofo de teorias absurdas e ofensivas
    Cite uma teoria ofensiva e absurda dele e a refute.

    2) o Capitalismo como já se define é centralizado no dinheiro e não nas pessoas
    Se assim o fosse, a vida das pessoas seria melhor nos países que recusaram o capitalismo.

    3) Quando for possível, tiverem tempo, for barato e viável, os esquerdistas produzirão
    Ah, momento piada. Ok. Ou talvez você se refira a maravilhas como o Lada ou o Trabant, aqueles carros maravilhosos.

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