Quico, o visionário

quico

Quando você toma um ônibus ou caminha nas calçadas mais movimentadas de uma cidade grande como São Paulo (ok, pode ser menor, porque grande como São Paulo, só mesmo São Paulo), você percebe duas coisas:

— o tí­tulo do livro de Ortega y Gasset deveria ser «O homem e a gentalha», e não aquele outro que ele preferiu talvez por uma elegância e/ou por um instinto de auto-preservação necessária a uma época que já havia rangido os dentes e virado os olhos com «A rebelião das massas».

— Quico estava certo.

O que define a gentalha é a incapacidade de conduzir a própria vida em suas formas mais basais. A pessoa não sabe respirar e não sabe colocar-se num devido lugar — não «seu» devido lugar, mas apenas um devido lugar, que pode ser aqui, ali, qualquer um, desde que seja consciente e fruto de ponderação. A gentalha tromba, posta-se nos piores lugares, atravanca os fluxos e não faz tais coisas por maldade ou pelo prazer de sacanear o bom andamento de uma cidade (que, sim, precisa parar, mas isto fica para outra ocasião).

A gentalha faz isso por absoluta falta de autoconsciência, pela incapacidade de fixar-se em algo, o que as leva a esquecer delas próprias nas situações em que isso seria necessário até mesmo por uma questão de sobrevivência. Elas lembram de si quando atravessam ruas fora da faixa e lêem os nomes dos ônibus, and that’s it. A gentalha fixa-se em algo na mesma medida em que macacos se fixam na ameaça iminente do ataque de um predador; no mais das vezes, sentam no meio da calçada ou nas portas dos ônibus para catar piolhos ou falar alto.

Talvez por isso a arte mais genial e esquecida nas grandes cidades seja a arte de dar um empurrão. Você nunca levou um empurrão por estar num lugar adequado, por caminhar num ritmo adequado, por andar na faixa da direita, por fazer o que é certo (não é difí­cil saber o que é certo, é?), por deixar o caminho livre para os tresloucados que acham que tudo é correria. Você nunca levou um empurrão por perguntar-se constantemente se sua existência é socialmente aceitável. Não há nisto qualquer tipo de submissão; não conheço quem tenha perdido a identidade (eu nunca soube bem o que é isso) por preocupar-se com o cabelo penteado, com o mau hálito e com a aceitabilidade de seus trajes. Preocupar-se com o outro desta forma — superficial — pode ser um bom começo para preocupar-se com o outro de formas realmente profundas — que exigirão estudo e reflexão. Pode ser um bom começo também para preocupar-se consigo mesmo, não no sentido de evitar «ser gentalha» (pois, se você se preocupa em não «ser gentalha», provavelmente você já não é e por isso já pode preocupar-se com outras coisas), mas no sentido de ser alguém (e isto também fica para outra ocasião).

Seja como for, não trombar já é um bom começo.

.
Original da imagem aqui.

Anúncios

2 comentários sobre “Quico, o visionário

  1. “(…)a arte mais genial e esquecida nas grandes cidades seja a arte de dar um empurrão”

    chocante, mas gostei do seu ponto de vista… embora nao tenha ficado claro (para mim, pelo menos) qual exatamente é sua posição quanto à questão da autenticidade das pessoas [“não conheço quem tenha perdido a identidade (…) por preocupar-se com o cabelo penteado”]

  2. O empurrão bem dado, sem violência, mas com «timing», pode ser muito educativo — ajuda o indivíduo a perceber seus pseudópodes atrapalhando o caminho e, assim, não mais atrapalhará, ou atrapalhará menos os próximos passantes. Digo que isso é uma arte porque não encarada desta forma levaria a massa a conflitos medonhos e desnecessários. Encarada como arte, pode conduzir a um entendimento silencioso e agradável entre as pessoas, o entendimento de corpos anônimos.

    A questão da identidade pode ser mais simples. Eu disse «identidade» em vez de «autenticidade» propositalmente: trata-se de uma questão a ser resolvida internamente e «autenticidade» remete a uma aprovação externa que o indivíduo busca. Muitas pessoas crêem que as superficialidades que dedicamos às pessoas — roupa bonita, maquiagem etc. — são ameaças à integridade da personalidade (à identidade). Noutras palavras, coisas de burguês, como muita gente costuma dizer. Mas logicamente essa visão é simplória, pobre desde a raiz, porque se somos o que compramos e usamos e como nos mostramos, somos muito mais aquilo que fazemos e pensamos e sentimos.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s