Não diga que é impossível

vila ilhabela

Quando uma pessoa pública declara que uma determinada ação necessária para o bom funcionamento da cidade é impossível de se realizar, eu lembro do médico que desenganou o paciente que contraiu uma gripe. A atitude digna do profissional é buscar soluções e, quando elas não existem, pesquisá-las e criá-las. Sempre haverá uma solução e será razoavelmente fácil desenvolvê-la quando se tenta oferecer uma resposta sincera a um problema, mesmo que ele pareça insolúvel.

Quando nada se pode fazer, mil coisas podem ser feitas. Diante da «impossibilidade» de se fazer uma ciclovia no sul de Ilhabela, por exemplo, é possível limitar veículos, estreitar a rodovia, propor rodízios, aplicar regras que forcem o convívio pacífico entre ciclistas e motoristas. Estas ações são viáveis? Não sei. Que tal discutirmos? Quem observasse aquele mar de morros nos tempos em que só os caiçaras transitavam por lá — a pé, claro — jamais afirmaria que seria possível construir uma estrada naquele lugar.

É claro que essas coisas tomam tempo e consomem dinheiro e trabalho. O que realmente decide a realização de uma coisa é a vontade de realizá-la. Pode-se chamar isto de «vontade política» e eu só concordo com essa expressão porque espera-se que ela venha de algum homem público, um político, que por definição tem a autoridade para decidir o destino do dinheiro público.

A contrapartida da posse da autoridade é a atenção para com os mínimos detalhes da condução de uma cidade. É natural dar mais atenção às coisas grandes e evidentes e desconsiderar as pequenas e discretas. É menos natural desconsiderar estas coisas quando elas ganham destaque e manchas, às vezes de sangue. Eu poderia estar me referindo apenas aos acidentes recentes de motos e bicicletas (para citar um assunto que tem recebido mais comentários e destaque do que sua pequena estatura faria supor), mas eu me refiro aqui a tudo que a maioria das pessoas — políticos, inclusive — considera pequeno e sem importância. O que é, por exemplo, a segurança de ciclistas comparada com a fluidez do trânsito e a disponibilidade de vagas na Vila? O que é um cachorro usando a praia como banheiro comparado com a importância da rede de esgoto?

Eu diria que essas coisas «insignificantes» são tudo. Um único acidente é capaz de estragar os bons serviços realizados por todo um setor público. Uma única criança atingida por dermatite é capaz de lançar uma sombra de má qualidade sobre as praias de Ilhabela. E ao dizer isso eu tento alertar para algo bastante simples: se você ignora acidentes de bicicleta, cachorros na praia e outras miudezas e torna-se complacente com o poder público que deixa de fiscalizá-las, certamente já está anestesiado para o descumprimento das grandes responsabilidades. Se você não se importa que o poder público descumpra coisas simples como evitar bicicletas na contramão, provavelmente não se importará quando o poder público der as costas para rachas e motoristas bêbados.

Você já se tornou desatento ao ponto do poder público sentir-se à vontade para descumprir todas suas responsabilidades — grandes ou pequenas. É claro que o poder público continua fazendo sua parte na maioria dos casos, mas isso nada tem a ver com sua capacidade de fiscalizar o cumprimento das leis, porque, afinal, você não fiscaliza, você não acompanha, você se tornou cego para os problemas da cidade, você deu carta branca para os homens públicos. É mera sorte que suas preocupações sejam satisfeitas e assim você acredita viver numa cidade em que as coisas vão bem, mas lembre-se de que isso é uma coincidência fortuita, um capricho do acaso, uma satisfação mentirosa que passará. Quando passar, não adiantarão os votos conscientes, as gritarias, as passeatas, as cartas e os e-mails aos homens públicos.

Se o homem público tem o descaramento de afirmar a impossibilidade de realizar algo importante para o bom funcionamento da cidade, imagine você, de quem só se espera um voto a cada dois anos. Não me admiro quando encontro cidadãos piores do que as pessoas que eles elegem. Apenas não diga que é impossível mudar.

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Artigo publicado no jornal Canal Aberto em 07/03/2008.

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2 comentários sobre “Não diga que é impossível

  1. Olá!
    É mesmo incompreensível como as pessoas não buscam alternativas e definem um problema impossível de ser solucionado, não é?!
    Muito boa a matéria.
    Beijinhos! =***

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