Ecologia, uma explicação didática

crazy parking lot

Tomei minha vacina contra o assunto «ecologia» quando um jipe passou perto de mim jogando fumaça negra para todos os lados. Quando a fumaça se dissipou um pouco pude ver nele um adesivo com uma mensagem do tipo «proteja o meio ambiente».

A segunda dose, mais poderosa, veio com a leitura de Verdadeiro versus falso, de Alan Neil Ditchfield, que mostrou que pelo menos metade dos discursos pró-meio-ambiente é papo furado para vender camisetas e obter poder econômico e político. O destaque crescente que a questão do aquecimento global tem recebido na mídia reforça essa idéia, como este site já mostrou em várias ocasiões. Al Gore, por exemplo, não economiza @#$%&£¢ nenhuma na mansão dele — tudo que ele quer é que você economize energia, deixe seu carro em casa e obedece a ONU, convenientemente manipulada por ambientalistas.

Apesar das empulhações ecológicas tão freqüentes, existe um lado muito palpável que pode ilustrar a questão ambiental de uma forma mais clara. Abominável não é defender o meio ambiente, mas submeter a própria sobrevivência a essa ação, sob o pretexto mesmo de sobreviver (v. Princípio da Precaução). Excluído esse risco — porque eu não vou deixar de usar o carro quando ele for necessário — imaginemos o seguinte.

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Você vive numa casa com mais quatro pessoas. É uma casa comum, nem grande, nem pequena, mas confortável para o número de pessoas que nela vivem. Esta casa possui um jardim (à frente), um quintal (nos fundos) e o número de cômodos compatível com aquilo que se pretende colocar nela. Há uma garagem com dois carros, que é usado por você e por seus coabitantes.

A prosperidade chega à sua casa e os dois amigos seus que não têm carro próprio resolvem adquirir os seus respectivos. Até aí. nenhum problema. O problema surge quando se percebe que a casa não tem espaço para acomodar quatro carros — na garagem cabem apenas os dois já existentes.

Seus dois amigos querem muito ter um carro. A partir daí vocês pensam em diversas soluções. Uma delas é revezar o uso da garagem, idéia que é rapidamente abandonada pelos riscos de deixar dois carros estacionados na rua. Outra idéia é ampliar a garagem, de modo que ela possa receber os quatro carros. A idéia parece razoável, mas ao mesmo tempo todos torcem o nariz para a perspectiva de ter que sacrificar as poucas áreas livres que existem na casa — haveria um custo financeiro (de ampliação da garagem) e um custo físico e ambiental (uma garagem maior eliminaria parte da área livre da casa e modificaria também os ambientes internos; por exemplo, algumas janelas passariam a se abrir para a garagem em vez de para o jardim ou o quintal).

Aos poucos você e seus amigos perceberam que era melhor não ter quatro carros e que dois eram suficientes para suas necessidades. O conforto de ter quatro carros implicaria o desconforto de ter toda a casa modificada. Além disso, o gasto total dos quatro moradores aumentaria consideravelmente. E, no fim das contas, seus dois prósperos amigos compram bicicletas.

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O dilema pelo qual passa a maioria das cidades é exatamente o mesmo, com o agravante de que, no caso das cidades, os moradores simplesmente não se falam, não chegam a um acordo sobre acabar ou não acabar com o «jardim frontal» e no fim das contas não preferem bicicletas. Com isso, os carros simplesmente proliferam, espalham-se e exigem que as pessoas responsáveis por pensar a «cidade-como-um-todo» (odeio essa expressão, mas não me ocorre nada melhor agora) ampliem avenidas, pavimentem ruas, construam estacionamentos, implantem zonas azuis e realizem diversos tipos de ação pensadas não para gente (pessoas como eu e você) mas para artefatos grandes demais para serem levados na mochila ou guardados nos armários, que, além de tudo, consomem atenção, dinheiro e energia.

Na verdade, como o leitor atento notará, não há dilema algum. Há pouquíssimas dúvidas sobre qual rumo tomar. A maioria das cidades já se decidiu sobre ter ou não ter cada vez mais carros, sobre resolver o sistema de transportes com base em veículos de passeio e sobre dar as costas para todos os problemas decorrentes dessa opção. Quem vive nas cidades não quer jardins e crê que eles só devem ser mantidos na medida em que atraem pagadores de impostos e boa fama. Quem vive nas cidades não pedala porque vai se sujar, porque tem medo, porque faz calor, porque as cidades são poluídas — como se esses riscos não existissem, em maior ou menor medida, quando se usa um carro de passeio.

Não pretendo que este texto seja um libelo contra os carros e a favor das bicicletas. Stricto sensu, todos são livres para ter carros ou para preferir bicicletas ou andar a pé ou tomar um ônibus. Todos são livres também para dispensar reflexões mais aprofundadas sobre as conseqüências de suas opções para um ambiente relativamente frágil e degradado. Mas logicamente isso tem um preço, que pode ser maior do que aquele pago pelo conforto de usar um carro a qualquer momento, em qualquer lugar. Ademais, se um dos caminhos adequados é o da diversidade (costuma ser), poderia haver algum equilíbrio entre as ações públicas voltadas para os carros e aquelas voltadas para bicicletas e pedestres. A impossibilidade de respirar com conforto num determinado bairro de uma cidade deveria ser razão suficiente para todos evitarem usar motores por lá (com exceção dos elétricos), e para isso não deveria haver a necessidade de tecnologias excessivas, leis, fiscais e punições.

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Lembre o leitor que o miolo deste texto não são os carros, mas a atitude das pessoas em relação ao ambiente em que vivem. Nas grandes cidades ela se mostra de forma mais evidente no sistema de transportes. Numa cidade pequena, como o lugar em que vivo, as questões ambientais mais preocupantes são aquelas ligadas ao saneamento e à conservação de praias e córregos. Aqui, o conforto de livrar-se de esgoto e de captar água de qualquer maneira significa desabastecimento, turismo em baixa, poluição e doenças. E, assim, não demorará o dia em que o sujeito que lançou esgoto num córrego ou que usou a praia como banheiro seja acometido por uma doença, pela recessão ou pela simples feiúra do lugar em que vive. Não é uma questão de amaldiçoá-lo, mas de verificar até que ponto cada um destes problemas não está diretamente ligado à decadência ambiental que afeta algumas cidades e, com alguma humiildade e sinceridade, fazer o que for necessário e possível para evitar que seja assim. Ou não evitar, caso ele se sinta realmente satisfeito com tudo à sua volta. Naturalmente, há quem prefira garagens a jardins.

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Original da imagem aqui.

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3 comentários sobre “Ecologia, uma explicação didática

  1. O ínicio do seu texto me fez lembrar da atual moda das sacolas ecológicas, que já está se desvirtuando e virando uma atividade lucrável para os comerciantes. E as pessoas felizes com suas sacolas de pano…

    Gostei muito do seu exemplo sobre os 4 carros onde só cabem 2. É exatamente isso.

  2. boa sacada a dos gostos das pessoas. “ora, são paulo é feia mesmo, vou jogar esgoto e pronto!” enfoque que muda quando se fala de um lugar que conceitualmente deveria ser bonito.

    e hoje de manhã passou por mim um desses SUVs orientais cuspindo fumaça negra: ecologistas de meia pataca.

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