Por uma vida épica

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Não existe mais nada épico. Nossas vidas não são épicas. Não fazemos mais coisas épicas. No máximo existem campanhas publicitárias épicas, lançamentos épicos de produtos, mas tais coisas não passam de bolhas de sabão, que fazem «puf» quando a primeira brisa lhes atinge — porque a publicidade sempre faz «puf».

Não existe nada épico no sentido em que a Nona Sinfonia de Beethoven, o Davi de Michelângelo e La Rotonda de Palladio eram épicos. Um dos meus sonhos impossíveis é descobrir como esses artistas criaram essas obras, o que sentiam, o que pensavam, o que pretendiam. Mas isso é assunto para semi-deuses.

Não é necessário pensar apenas em grande arte. A casa de meus avós era épica — havia vida ali o tempo todo, até mesmo quando eles discutiam. Eram épicos também os pães caseiros da esposa de meu avô, que, a despeito da eventual ausência de rituais e ascendência, eram feitos com reverência — e havia o ritual de saboreá-los quentes, com manteiga fresca. E também são épicos os Natais em família (com toda a família), as coleções de LPs e as conversas longas e entusiasmadas sobre livros e filmes bons.

As memórias que trazemos por mais de uma década podem não ser universalmente épicas, mas são épicas na medida em que se referem a um mundo que não existe mais e que, mesmo assim, permanecem vivos e evocam ascendência, respeito, inspiração e reverência. São épicas todas as coisas diante das quais você sente vontade de abaixar a cabeça, por não se considerar digno de olhá-las de frente, de igual para igual. São épicas todas as histórias que começaram antes de nós, cujos finais, necessariamente felizes, serão escritos quando estivermos mortos.

*
A velocidade das informações (algo que vai além da simples figura de linguagem), a cultura média das pessoas deste país, a freqüência com que as coisas são taxadas de irreverentes e valorizadas justamente por isso, a idéia de que amanhã o mundo terá mudado completamente e de que é importante não perder o «trem-bala da história» — tudo isto compõe o véu que nos afasta dos épicos. É fundamental rasgá-lo, pois, e reconhecer nossa dívida para com a Eternidade.

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4 comentários sobre “Por uma vida épica

  1. Excelente texto.

    O ritmo de vida desse novo século faz com que esqueçamos como é bom aproveitar as coisas na velocidade certa.

    Por exemplo, hoje em dia não é mais comum pararmos para fazer nada. “Bestar”, como diriam os mais velhos. Apreciar o nada, o coisa alguma.

  2. Aquela coisa das experiências líquidas (Liquid Life) do Z. Bauman… As experiências escorrem como água por nossos dedos que tentam agarrar algo que por natureza não é mais palpável…

    Mas….
    esse prisma tem faces que ainda me angustiam muito, sabe?

    Forte abraço filosófico!!!

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