Passado presente

ilhabela antiga

Quem conhece Ilhabela há mais de 25 anos deve lembrar-se de como este lugar era diferente do que é hoje. Eu não vou saber explicar todas as diferenças. O que vem à mente agora é uma mistura de memórias de infância com senso crítico sobre o lugar que vejo hoje. Essa mistura me leva a valorizar aquilo que existia 25 anos atrás e a desprezar o que existe hoje. Sei que essa atitude não é totalmente justa, porque o passado já foi e tudo que temos de fato é o que vemos ao redor, aqui e agora. Não se pode comparar o que é com o que não é mais. Não se pode comparar realidade palpável com memória.

Apesar dessas impossibilidades metafísicas, as comparações acontecem e têm pelo menos um lado bom: diferentemente daqueles que suspiram pelo futuro, quem suspira pelo passado ao menos sabe do que está falando. Muitas pessoas que vivem em Ilhabela estão aqui há mais de 20 anos e sabem como as coisas eram boas naquela época. Elas sabem o que fazia de Ilhabela um lugar realmente admirável, aconchegante e sereno.

Não estou falando apenas dos caiçaras, que nesse contexto são «hors-concours». Refiro-me aos primeiros veranistas, que, encantados com o lugar, logo fixaram residência aqui. Refiro-me aos primeiros migrantes que vieram para Ilhabela em busca de condições de vida melhores do que aquelas de suas cidades de origem — e que as encontraram. As motivações práticas e as origens dessas pessoas são coisas pequenas comparadas com a grandeza do sentimento que as trouxe para cá e que as mantém aqui desde então.

Não seja tonto de pensar que essas pessoas mudam de cidade por causa de leis municipais magníficas ou pela assombrosa eficiência dos serviços públicos. É claro que estes fatores podem ter grande influência, principalmente quando se traduzem em vantagens pessoais (como no caso do cidadão que ganha uma casinha tão logo pise na cidade, com mala e cuia), mas não é disto que estou falando. O que move essas pessoas é o sentimento. O que as fixa é o sentimento. A possibilidade de prosperar é vista em números, mas manifesta-se em sentimentos. A satisfação do enriquecimento só acontece quando ele pode ser usufruído e isto, por sua vez, só acontece quando o lugar é bom, verdadeiramente bom.

Neste ponto posso retornar ao início deste texto. Em minha memória, bom mesmo era o passado. O píer da Vila carcomido pelo mar era melhor do que o píer atual, reformado e ampliado: antes as pessoas ficavam; agora elas só passam. As dezenas de cachoeiras eram melhores na década de 80: naquela época só se ouvia o som das águas e dos pássaros; hoje se ouve o som das habitações e bares das redondezas, vê-se o esgoto na água e sente-se o cheiro. Eu posso estar sendo injusto, não apenas por causa das implicações metafísicas dessas afirmações (como dito no início), mas também porque — óbvio dos óbvios — havia menos gente antes e, assim, tudo era mais fácil. Mas há coisas que independem da quantidade de gente aglomerada nas trilhas, praias, hotéis e restaurantes. Eu parto do pressuposto de que as pessoas que resolveram vir e ficar, vieram e ficaram porque o lugar era bom, porque realmente gostaram do que viram e porque têm algum interesse em manter as qualidades que causaram paixão ou deleite.

O que o mantém em Ilhabela? O que faz com que você prefira este lugar a qualquer outro? Se você enriqueceu, talvez queira responder que foi o êxito profissional e as conquistas financeiras que o mantiveram aqui todos esses anos. Se não enriqueceu, se não conseguiu o êxito profissional desejado, dirá que o que o mantém aqui é a conveniência da beleza do lugar, da ascendência familiar ou a aparente possibilidade de não viver sob o peso dos problemas urbanos, porque aqui eles (ainda) são brandos e suportáveis. Nos dois casos, acredite, você estará tentando acobertar aquilo que realmente o mantém aqui — os sentimentos. Admita, você gosta daqui. Sempre gostou, no passado ou no presente.

Já que as memórias não resolvem muita coisa, eu seria ingênuo demais se tentasse apelar aos sentimentos para que vocês fizessem sua parte?

.
Original da imagem aqui. Recomendo fortemente que o leitor veja as outras fotos antigas de Ilhabela e peço que volte a este post para dizer o que sentiu ao vê-las.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s