A estética das filas de banco

fila banco
Calor humano: amo muito isso tudo.

Nem Sartre, nem Schopenhauer. Quem tinha razão era Vivaldi, a quem a vida era duas partes de alegria e exultação e uma parte de melancolia e tristeza. É desnecessário ir além disso. Se se tomar aquela dose de melancolia como um tempero agridoce, como o contrapeso necessário para que a exultação não se torne euforia e vício, a vida pode não ser mais fácil, mas será mais palatável.

É fácil suportar aquilo que muda constantemente. É fácil encontrar beleza em paisagens que não são cinzas o tempo todo — e por isso você vê beleza inclusive quando ela é cinza.

O fato de Schopenhauer não ter música portátil não o torna errado e eu certo (porque eu tenho). Mas deve haver diferença entre ver o mundo apenas em tons de cinza quando a música lhe diz o tempo todo que o mundo foi feito com uma espécie de pantone de humores e vê-lo dessa forma quando os referenciais multicor estão apenas em meia dúzia de livros e obras de arte — tal devia ser o caso de Schopenhauer, ponto para ele. É claro que as cores existem, como ônibus cor de laranja e uniformes amarelos, mas hoje estas cores «servem» a algo e você presta atenção nelas porque elas permitem que você pegue o ônibus certo ou que você não atropele o motociclista. Você não pensa em música, você pensa em chegar cedo. Você não pensa na tristeza e na alegria entremeadas, você pensa em algo bonito quando vai trocar o pano de fundo do monitor e quando se apaixona (quando foi a última vez mesmo?) e pensa em algo feio quando vê notícias na TV e quando lembra da distância crescente entre elas e aquilo que leu na revista Vida Simples.

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Genialidade é ver arte e ascese em tudo. Não existe meio termo para isso. Não é algo que você faz hoje e amanhã não faz porque, sei lá, não estava a fim. Não exige loucura, exige obsessão (porque você pode ser obcecado e justo e sensato, mas não pode ser louco e justo e sensato). É como pedalar todos os dias mesmo quando não existe a necessidade utilitária ou o desejo de vencer ou a perspectiva de chegar a lugar algum. Você pedala porque acha isso bom, porque gosta de transpirar, porque gosta do risco, da respiração intensa e do vento e do esforço constantes. Você pedala porque sabe que o sofrimento sudoríparo da subida será sucedido pelo deleite do vento e da velocidade da descida. E assim você pedala. E pedala. E pedala.

(Não defendo a tese exótica que afirma que pedalar é um ato moralmente bom; deixo esta discussão para outro dia)

Naturalmente, eu não creio que tudo seja arte e não creio que possa haver arte e genialidade em qualquer coisa. «A arte de lavar louças» ou «A arte de pedalar» são títulos ruins, para dizer aquele mínimo elementar e educadinho que evita mencionar a palavra «merda». Naturalmente, pode-se lavar louças bem ou mal, assim como se pode pedalar bem ou mal. Mas não há arte nessas coisas. A arte está em encontrar transcendência em coisas triviais. Pedalar pode ser uma experiência transcendental (a despeito de tudo que dizem sobre esta palavra), desde que se busque transcendência em coisas tão simples quanto mexer as pernas, empapar-se de suor e arriscar-se no trânsito.

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Pergunte. Eu sei que você pensou nessa pergunta.

Existe alguma transcendência no cumprimento de obrigações estritamente burocráticas? Pode haver arte em passar 90 minutos numa fila de banco?

Não há. Eu já experimentei ouvir «A Sagração da Primavera» e ler um livro do Chesterton numa fila de banco — separadamente ou simultaneamente. O meu corpo continuou lá e os 90 minutos não se tornaram menores ou mais coloridos ou extasiantes por causa disso. O fato de ter aproveitado o tempo, de lhe ter dado um valor superior ao da simples espera significou pouco porque ao fim daquele período vieram a boca torta e o não-sorriso do caixa do banco, sem falar nas outras coisas tão comuns a qualquer caixa de banco, como a expressão de cagar-e-andar para as necessidades do cliente (você) e a satisfação (posso dizer que ela é mórbida, mesmo sabendo que isso é redundante?) em criar obstáculos burocráticos (quase todos os obstáculos são pura burocracia) para o cliente (você).

A boca torta e o não-sorriso do caixa do banco são tão reais quanto «A Sagração da Primavera». Mas uma frase como «Quando os homens param de acreditar em Deus, não é que não acreditem em mais nada – eles passam a acreditar em tudo», mesmo lida numa fila de banco, faz o dia. E então você verá a boca torta e o não-sorriso do caixa do banco de uma forma diferente. Não como arte, mas como vida, porque provavelmente você também tem a boca um pouco torta e não é sempre que você quer sorrir e não é sempre que você escapa da obrigação de sorrir.

O mais bonito — porque a discussão aqui também é estética — é perceber que filas de banco, embora reais ao ponto de você sentir os pés doendo por ter que ficar em pé mais tempo que gostaria, também têm uma dimensão fantástica. Esta dimensão fantástica permite que você cantarole uma barcarola (baixinho, porque os aposentados vão olhar feio para você), leia sobre o teatro mágico de Hermann Hesse e perceba que ele realmente era só para loucos e que você queria mesmo é estar lá, suspire por memórias de 15 anos atrás ou de quando você tinha 15 anos (o que for mais distante) e interprete um papel absolutamente distante daquilo que você acha que é, só pelo prazer de ser diferente, quebrar protocolos e causar desconforto numa situação em que todos olham com raiva para uma única direção (a do balcão mais próximo).

Eu não acredito que filas de banco possam representar uma experiência transcendental. Também duvido um pouco que possa haver algo de artístico nelas. Mas filas de banco são uma situação extrema, são o limite da dignidade humana. A fantasia aí está. Você é observado por um segurança que se compraz com a idéia de prendê-lo na porta giratória — por causa de um clipe. Você passa horas sob ar condicionado e luz branca para ser mal atendido por um sujeito cujo lema de todas as manhãs é «de hoje não passa». Na maioria dos casos, você entra no banco para resolver um assunto detestável, que o tornará mais pobre. Mas é nessa mistura de coisas ruins e extremas que surgem as grandes idéias e as grandes obras.

Ainda não surgiu nada assim, você dirá, mas é porque o pessoal é meio burrinho mesmo — e você também. De 90 em 90 minutos a seleção brasileira tornou-se pentacampeã do mundo, sua avó tornou-se a rainha dos bolos gostosos e aquele rapaz ali conquistou a melhor amiga dele (mesmo que ela sempre o tenha visto como amigo). Gols, bolos e conquistas não acontecem em filas de banco, mas dê um tempo para si mesmo, lembre-se de que 90 minutos são uma vida e que, afinal, os 90 minutos que haviam passado logo antes de você ler estas linhas foram — como posso dizer isso polidamente, sem valorizar demais o tempo que você dedicou a esta leitura? — jogados no vinagre.

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Original da imagem aqui.

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