Alienação II

meditation headphones

Ouvir música em algum gadget assemelha-se ao que as crianças fazem quando não querem ouvir os sermões de seus pais. Elas tapam os ouvidos e saem gritando «lalalalalalalalala». A relação que a maioria das pessoas têm com a música em seus tocadores digitais (celulares, iPods e outros mp3 players chineses etc.) e a cidade é a mesma que algumas crianças têm com seus pais, com as broncas que eles lhes dão e com a gritaria de ouvidos tapados. Elas não querem saber; você também não quer saber. Eu também não quero saber.

*
Quase todos os problemas que você considera seus — principalmente quando lê notícias, quando está preso no trânsito, quando é assaltado etc. — não são seus. O problema não é ser individualista e egocêntrico. O problema é não ser suficientemente individualista e egocêntrico. O problema é ser individualista e egocêntrico sem assumir as conseqüências, isto é, sem perceber que o individualismo vale tanto para receber o salário no fim do mês como para cumprir as tarefas que o tornarão digno desse dinheiro, tanto para comer brigadeiro como para engordarr. Você pode querer ter um carro de quatrocentos mil dólares, mas não há nada que esse carro tenha ou faça que libere as ruas e avenidas às 6 da tarde.

*
Bom mesmo é ser individualista ao ponto de perceber que a solução definitiva para os engarrafamentos é sair do carro ou ônibus e ir a pé e que a solução definitiva para os desentendimentos é prender os olhos nas páginas de algum bom livro e os ouvidos em boa música, de preferência com fones de ouvido.

*
Individualismo sem autoconsciência é uma espécie de esquizofrenia. Você pode ser individualista, mas não pode ignorar o mundo, tampouco o fato de que você está nele. Certas verdades simples como o risco de ser atropelado ao atravessar uma avenida movimentada ou o prazo finito para concluir aquele serviço (e o seu salário depende dele) são suficientemente simples e verdadeiras para que não haja dúvidas sobre a mensagem que lhe está sendo transmitida.

Que a maioria das pessoas viva naquela espécie de esquizofrenia, é sinal dos tempos. Mas eu não perco meu tempo preocupado nem com ela, nem com a alienação dos fones de ouvido (eu me aproveito deles todos os dias). Dos problemas, estes são os menores.

Não existe ninguém mais socialmente integrado do que o traficante, o assaltante e o seqüestrador.

.
Original da imagem aqui.

Anúncios

3 comentários sobre “Alienação II

  1. Gostei desse texto sobre alienação, já que hoje fui chama da autista apenas porque não me mostrei interessada no assunto que estavam discutindo…

    “Quase todos os problemas que você considera seus — principalmente quando lê notícias, quando está preso no trânsito, quando é assaltado etc. — não são seus.”

    Isso é bastante tranqüilizador, Christian. Às vezes precisamos que nos lembrem do óbvio. =]

    Eu gosto quando você sempre volta ao assunto deixar o carro em casa ou diminuir a quantidade de carros. Eu tenho praticado bastante isso e me sinto muito mais feliz do que as dezenas de pessoas nos pontos de ônibus e tantas outras espremidas dentro deles. Tem um preço, voltar pra casa à pé é bastante cansativo se você não está acostumado a caminhar longas distâncias, mas compensa o stress que se passa dentro de um ônibus lotado. Caminhar é sempre bom, limpa a mente, faz bem ao corpo e com a companhia de fones de ouvido, ainda mais agradável.

  2. O automóvel é uma conseqüência de uma série de outros fatores e é bem curioso observar o tipo de pessoa e de cidade que mais depende dele. As pessoas têm problemas com andar a pé ou pedalar, mas acham que não têm problemas com engarrafamentos, poluição sonora e do ar e gastos vultosos com transporte ruim. Daí já se deduz o tipo de relação que as pessoas têm com o lugar em que vivem, com a necessidade de se deslocar e umas com as outras, nessa necessidade estranha de deslocar-se sobre rodas.

    É uma pena que tudo hoje seja metal e rodas.

  3. A menssagem acima nao tem a função de trazer a tona o transito, nem os carros, nem a musica, mas sim a necessidade que as pessoas tem de preocupar-se a toa com tudo que existe nos dias de hoje sendo que a maior parte dessas coisas é algo desesperadamente desnecessario. As vezes uma pessoa está tão concentrada em resolver um problema que esta nao consegue enxergar a soluçao, que por acaso esta bem embaixo do seu nariz, as vezes a pessoa quer tomar os caminhos que ela pensa serem os corretos e se ela tivesse um pouquinho menos concentrada ou enlouquecida com o problema, este se resolveria sem que ela precisasse se estressar o suficiente para nao enxergar as coisas mais simples e mais descontraidas e gostosas da vida. Quando estamos andando nas ruas percebemos o quanto as pessoas vivem mal humoradas e cansadas que se esquecem na maioria das vezes até de que uma boa educação faz muita diferença, As pessoas andam ariscas o suficiente para ao receberem um bom dia de um estranho pensarem em muitas coisas antes de pensar que foi um simples bom dia, sem maldade, sem interesse, apenas um bom dia.
    As pessoa estão tão cegas pela mídia que esquecem de como viver é bom.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s